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Os grupos Tukano são patrilineares e exogâmicos,
isto é, os indivíduos pertencem ao grupo
de seu pai e falam a sua língua, mas devem se
casar com membros de outros grupos, idealmente falantes
de outras línguas. Externamente, os grupos são
equivalentes mas distintos; internamente, cada um consiste
em um número de clãs hierarquicamente
ordenados. Os ancestrais desses clãs eram os
filhos do primeiro ancestral Anaconda e a sua ordem
de nascimento, que corresponde à ordem de emergência
do corpo de seu pai, determina a sua classificação:
os clãs de posição mais alta são
coletivamente considerados "irmãos maiores"
para aqueles de posição mais baixa. A
posição do clã é associada
a uma hierarquia, sendo ainda frouxamente correlacionada
a residência: os clãs de mais alto grau
tendem a viver em lugares mais favoráveis nas
partes mais baixas dos rios, enquanto os clãs
de menor grau freqüentemente vivem nas áreas
de cabeceiras ou as partes mais altas dos rios. A classificação
do clã também tem os seus correlatos rituais:
os clãs de posição mais alta, as
"cabeças da Anaconda", são "chefes"
que patrocinam os principais rituais e controlam os
ornamentos de dança do grupo e os Yurupari;
os clãs de posição mediana são
especialistas de danças e cânticos; abaixo
deles são os xamãs; e o grau mais baixo
é ocupado pelos clãs servos, a "cauda
da Anaconda", que por vezes são identificados
com os semi-nômades Maku que vivem nas zonas interfluviais.
Essa hierarquia de papéis especializados e privilégios
rituais fica muito evidente durante os rituais coletivos
em que se recitam as genealogias e enfatizam-se as relações
hierárquicas e de respeito. De modo mais sutil,
essa hierarquia reflete-se também na vida cotidiana.
Os habitantes de uma maloca comumente correspondem a
um grupo de homens estreitamente aparentados, como os
filhos do mesmo pai ou de dois ou mais irmãos,
que vivem juntos com as suas esposas e filhos. Quando
uma mulher se casa, ela deixa a sua maloca natal e vai
morar junto com seu marido.
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Simbolicamente, a maloca reproduz em miniatura o universo
e seus habitantes constituem tanto uma réplica
quanto um precursor do ideal de organização
clânica acima descrita. Assim, o pai da comunidade
que habita a maloca seria o ancestral-Anaconda do grupo
inteiro e seus filhos seriam os ancestrais dos clãs
que dela se originaram. Seguindo essa lógica,
o filho mais velho e irmão maior é geralmente
o chefe da maloca, e não raro os seus irmãos
menores são dançarinos, cantadores ou
xamãs, cujos papéis costumam corresponder
à ordem de nascimento. Mas poder e posição
social dependem de energia e iniciativas pessoais, que
não se baseiam apenas em organização
formal, parentesco ou ordem de nascimento.
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A maioria dos rituais e da vida religiosa tukano está
centrada em objetos (como ornamentos plumários
e as flautas Yurupari) e substâncias sagradas
- como a pintura vermelha carayuru, cera de abelha,
cera de breu (resina vegetal), epadu (feito com
variedades de coca), tabaco e ayahuasca -, assim como
em bens menos tangíveis, na forma de nomes, cerimoniais,
encantações e cantos. Tais itens são
propriedade do grupo e constituem expressões
de seus poderes espirituais. Em um nível coletivo
e estrutural, os rituais que envolvem tais itens podem
ser vistos como expressões formais da identidade
do grupo e das relações inter-grupais.
Ao mesmo tempo, esses rituais constituem expressões
das relações políticas em dada
conjuntura. Assim, malocas vizinhas são em ser
interligadas por intermédio de líderes
carismáticos, que comandam a organização
de festas e coordenam o trabalho coletivo para a construção
de casas maiores que funcionam como centros cerimoniais.
Esses líderes são indivíduos que
possuem um grande conhecimento esotérico e se
mobilizam para manter e aumentar os bens sagrados de
sua maloca, podendo disponibilizar os recursos necessários
para patrocinar os rituais. Tais capacidades rituais
prestam-se a fortalecer sua posição política.
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