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Um componente crucial das idéias religiosas
tukano são as relações entre os
seres humanos, os animais e a floresta.
Masa (em barasana), a palavra para "gente",
é um conceito relativo. Pode se referir a um
grupo em contraposição a outro, a todos
os tukano em contraste a seus vizinhos, a índios
versus brancos, a seres humanos versus
animais e, finalmente, a coisas vivas, inclusive árvores,
versus objetos inanimados. Em discursos míticos
e xamânicos, os animais são gente e habitam
mundos aparentemente semelhantes ao mundo dos seres
humanos: vivem em comunidades organizadas em malocas,
plantam roças, caçam e pescam, bebem caxiri,
usam ornamentos, participam de festas inter-comunitárias
e tocam seus próprios Yurupari (flautas sagradas
que representam os primeiros ancestrais). Todas as criaturas
que podem ver e ouvir, que se comunicam com os do seu
grupo e que agem intencionalmente são "gente"
- mas gente de espécies diferentes. São
diferentes porque têm corpos, costumes e comportamentos
diferentes e vêem as coisas de perspectivas corporais
distintas. Assim como as estrelas vêem os humanos
como espíritos mortos, os animais vêem
themselves as humans and see os humanos como animais.
Aos olhos do urubu, quando os humanos vão pescar,
eles pescam cadáveres apodrecendo e fisgam tapuru
(conhecido como "bicho de pau"); aos olhos
do jaguar, os humanos são predadores perigosos
que bebem sangue como se fosse caxiri; para os peixes,
para quem a água é seu "ar",
é impressionante que os humanos não saibam
respirar "debaixo da água". Os humanos,
por sua vez, logicamente vêem as coisas de outra
perspectiva.
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Se o denominador comum de todas essas "gentes"
é a sua subjetividade e para elas, na condição
de sujeitos, seu próprio modo de vida é
aquele da cultura humana, as diferenças entre
tais "gentes" repousam em seus diferentes
corpos: em sua forma, cor, sons, hábitos corporais
e dieta.
Essas diferenças estão culturalmente
representadas em diferentes gêneros alimentícios
de uso ritual, tais como coca, tabaco e a ayahuasca,
bem como tintas corporais distintas, ornamentos e roupas,
ou como diferentes armas e equipamento ritual. Os índios
se referem a todos esses itens como küni-oka,
"armas ou escudos", idéia que faz lembrar
os uniformes de exército com seus brasões
- ao mesmo tempo identidade, vestimenta e arma de defesa.
Nessa lógica, as diferenças entre os grupos
humanos são representadas como naturais e inerentes.
Conceitualmente, os vários grupos tukano constituem
tantas "espécies" diferentes quanto
as múltiplas espécies animais são
"povos" diferentes.
Na vida cotidiana, as pessoas enfatizam sua
diferença dos animais, mas no mundo dos espíritos,
ao qual se tem acesso pelos rituais, pelo xamanismo,
pelos sonhos e pelas visões de ayahuasca, as
perspectivas se fundem, as diferenças são
abolidas, o passado é presente, e pessoas e animais
voltam a ser um. Isto tem importantes repercussões
práticas, pois, onde os animais são pessoas,
caçá-los e ingerir sua carne é
equivalente à guerra e canibalismo. Muitas doenças
são assim diagnosticadas como a vingança
dos animais que os humanos matam e comem. O risco advindo
dos animais é proporcional a seu tamanho e habitat:
as antas são mais perigosas do que os macacos,
os animais terrestres são mais perigosos do que
os peixes, e peixes grandes mais perigosos do que os
pequenos.
O perigo também está relacionado
ao contato com o domínio metafísico. Um
nascimento neste mundo provoca ressentimento entre os
espíritos-animais - para eles, representa uma
morte. Os bebês humanos, recém-migrantes
do mundo dos espíritos, não estão
ainda firmemente ancorados a seus corpos e, portanto,
precisam ser protegidos das antas ciumentas que ameaçam
ingeri-los através de seus ânus - um nascimento
ao avesso. Enquanto visitantes do mundo dos espíritos,
as mulheres menstruadas e os homens que tomam parte
nos rituais ganham temporariamente status de
criança e devem restringir sua dieta, evitando
alimentos perigosos. Para cozinhar o peixe ou a carne
com segurança, um xamã deve primeiro soprar
encantações para remover os seus "escudos
de proteção" ou "armas"
(tintas, peles, dentes, espinhos, escamas e outros atributos
corporais identificados aos animais ou peixes) que podem
comprometer a identidade especificamente humana do consumidor.
As qualidades de personificação,
subjetividade e intencionalidade que os índios
aplicam aos animais e os peixes também se estendem
ao cosmos como um todo. Os mitos dos povos do Uaupés
também são mitos sobre a paisagem, cujos
traços distintivos - as serras e montanhas, os
rios, as rochas e cachoeiras -, têm nomes que
evocam as histórias de sua criação
ancestral. Viajar por terra ou canoa é seguir
essas histórias e compartilhar os atos de criação
descritos por elas. Muitas histórias contam sobre
as antigas migrações, atribuindo à
paisagem uma dupla dimensão - a dos atos primordiais
de criação e a dos atos mais recentes,
como a construção de casas e abertura
de roças.
Os poderes de criação ancestral
incutidos na paisagem se estendem às plantas,
peixes, animais e seres humanos que a habitam e também
aos objetos confeccionados a partir dos materiais que
dela provêm. Nos mitos, os objetos cotidianos
tais como canoas, bancos, cestos e potes, emergem como
seres animados e autônomos - como visto, do mesmo
modo que os animais podem ser gente, as malocas podem
ser os corpos dos ancestrais ou daqueles que as construíram.
Os objetos confeccionados condensam dois tipos de potência:
os poderes de sua matéria-prima e as habilidades
e intenções de seus fabricantes. Conseqüentemente,
o processo de fabricação dos objetos tem
uma importante dimensão religiosa. Durante os
ritos de iniciação, os homens e mulheres
jovens são sistematicamente treinados na confecção
de artesanato, um treinamento que é a um só
tempo intelectual, espiritual e técnico. Fazer
artesanato é concomitantemente confeccionar a
si mesmo e o mundo, numa forma de meditação
que traz à tona as interconexões entre
objetos, corpos, casas, e o universo.
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