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Os povos das famílias lingüísticas
Tukano Oriental e Maku convivem mais intensamente na
região de interflúvio entre os rios Tiquié
e Papuri e, em menor escala, entre o Papuri e o Médio
Uaupés (trecho entre Iauareté e a foz
do Querari). Nesta área, desenvolveram uma estratégia
de complementaridade, uma vez que tradicionalmente ocupam
espaços distintos e adotam práticas de
manejo do meio ambiente específicas. Distintamente
dos Tukano, que vivem nos rios maiores, os Maku preferem
os igarapés menores, mais no centro da floresta.
São bons caçadores, coletores de frutas
silvestres e conhecem muito bem os caminhos na mata.
Os Tukano, por sua vez, são agricultores dedicados
e pescadores; mesmo quando caçam, preferem fazê-lo
de canoa, surpreendendo pacas e antas que vão
até a beira do rio beber água.
Do ponto de vista dos Tukano, os Maku formam
uma categoria sui generis, na medida em que se diferenciam
tanto dos afins quanto dos parentes de mesma descendência,
pois não são casáveis e não
são assimilados a eles através da terminologia
de parentesco. Os Maku representam uma referência
central no sistema conceitual tukano, estando associados
às categorias hierárquicas mais baixas.
Os Maku mantêm com os Tukano relações
de troca e colaboração intermitentes.
Em geral, grupos domésticos maku tomam a iniciativa
de se associar a grupos domésticos tukano, sendo
também eles que decidem quando devem ir embora
para seus sítios ou mudar de "patrão"
tukano. Eles podem permanecer apenas uma semana ou vários
meses com os Tukano, mas existem casos em que a relação
é mais estável e certos Maku se acostumam
a prestar serviços para grupos domésticos
tukano específicos, mantendo a colaboração
através de gerações. Mesmo nestes
casos, a convivência é interrompida quando
os Maku resolvem cuidar de suas próprias casas
e roças ou viajar.
Os Maku procuram trabalho quando estão
passando por momentos de maior privação
(suas roças são em geral insuficientes
e há períodos pouco propícios para
a caça). Nestas situações, oferecem
seus serviços aos Tukano: as mulheres trabalham
nas roças e no processamento da mandioca e os
homens caçam, fazem ipadu ou pegam alguma empreitada
(troca da cobertura de uma casa, derrubada da mata para
roça etc.). Em troca, os Tukano pagam com parte
da produção da cozinha (farinha, beiju
etc.), os homens recebem ipadu e fumo e ainda roupas
usadas, ferramentas, redes, entre outros.
Quando a família maku é muito
grande e o custo, em termos de exploração
da roça, é alto para a grupo doméstico
tukano que os recebeu, este pode expulsá-los.
Mais freqüente, porém, é que os próprios
Maku se sintam fartos e desfavorecidos, retirando-se
para seu assentamento por conta própria e levando
consigo um suprimento de farinha e tapioca. Nesses casos,
os Tukano reclamam de que eles saem sem dizer nada,
de uma hora para outra.
O que mais marca a relação entre
estes dois grupos é a grande autonomia dos Maku,
que os Tukano não podem violar. Os Maku procuram
os Tukano visando suprir necessidades imediatas de alimentos;
os Tukano aceitam os Maku e lhes encarregam de vários
serviços. Algumas vezes os Maku também
participam dos multirões para derrubar ou plantar
roça promovidos pelos Tukano, quando é
oferecido caxiri. Mas nessas ocasiões as relações
são distantes e frias, não envolvendo
intimidade. De modo geral, os Maku quase nunca comem
junto com os Tukano ou se sentam próximos, a
não ser nas manhãs em que há refeição
comunitária e alguns Maku estão presentes.
A distância social é marcada pelas
atitudes. Quando um Tukano conversa com um Maku, este
se posiciona a certa distância, olhando para outro
lado. Em outro exemplo, ao devolver um cigarro que um
Tukano pediu para rezar (para cortar alguma
dor que um filho ou a própria pessoa está
sentido), o homem Maku, ao invés de entregá-lo
na mão, agacha-se próximo e joga o cigarro
no chão, perto daquele que o solicitou.
A relação entre os Tukano e os
Maku é celebrada em grandes dabucuris (rituais
de oferecimento), realizados na época de coleta
de certas frutas do mato (como ingá, cunuri,
buriti e açaí silvestre). Nestas ocasiões,
os Tukano preparam muito caxiri e ipadu para receber
os Maku, que chegam ainda de madrugada, antes do alvorecer,
tocando trompetes, pequenos tambores e fazendo muito
barulho. Trazem grandes quantidades de frutas que, inicialmente,
deixam na beira do rio, para depois conduzi-las para
dentro da casa de festa, no momento propício
do ritual (quando há um diálogo cerimonial
entre um par de homens Tukano e outro Maku). Conjuntos
de tocadores de flautas pã maku se revezam ao
longo da festa com conjuntos formados por homens e rapazes
tukano. Eles formam pares de dança com as mulheres,
sejam elas tukano ou maku, indistintamente. A mesma
cerimônia também pode ser feita com o oferecimento
de carne de caça moqueada; os papéis também
podem ser invertidos, passando os Tukano a oferecer
beiju e farinha aos Maku. Em geral a festa ocorre no
povoado tukano.
O distanciamento que caracteriza a relação
entre os Tukano e os Maku é derivado da forma
como os Maku são concebidos. Os Tukano os descrevem
como diferentes, estranhos e, em certo sentido, inferiores.
Alguns aspectos para os quais os Tukano chamam a atenção:
· moram em pequenos tapiris improvisados, como
os que se faz em viagens na floresta e na roça;
· nunca se acomodam em um lugar, estando sempre
indo e vindo, inquietos;
· são agricultores displicentes e, além
disto, não sabem manejar o cultivo, não
esperam o tempo mais produtivo da mandioca, arrancando
logo tudo para fazer caxiri; os homens fazem o mesmo
com os pés de coca, desfolham sem controle e
acabam tendo que apelar para os Tukano para conseguir
ipadu (que é uma necessidade diária);
· são vistos com desconfiança,
não raro acusados de saquearem as roças
tukano e ainda disfarçarem o roubo fincando a
haste da maniva no solo depois de arrancar o tubérculo;
também lhes são atribuídos o sumiço
de ferramentas, roupas e outros;
· a endogamia local e a constante transformação
na constituição dos grupos locais são
mau vistos pelos Tukano, que ainda enfatizam certos
casamentos incestuosos, como se não houvesse
regras definidas de casamento;
· os Tukano também dizem que eles não
têm higiene, não se limpam nem penteiam
o cabelo e andam maltrapilhos, com roupas velhas e encardidas.
Esta visão dos Maku tem alguns desdobramentos
práticos, por exemplo, o casamento com eles é
expressamente proibido e uma pessoa que tenha alguma
ascendência maku (seja por parte do pai ou da
mãe) é estigmatizada. Contudo, o casamento
de um homem tukano com uma mulher maku é mais
aceitável do que o casamento de um homem maku
com uma tukano, que é impraticável.
Com o contato, representado pela intensificação
do comércio, da catequização e
da educação escolar, ocorreram mudanças
na relação entre esses povos. Os Tukano
passaram a intermediar a entrada e troca de mercadorias
industrializadas. Ao passo que os Tukano aderiram à
prática, hoje muito valorizada e difundida, de
mandar seus filhos para a escola até o final
do ensino fundamental e, menos freqüentemente,
para o ensino médio na cidade, os Maku jamais
se adaptaram ao sistema escolar e as tentativas promovidas
pelos missionários foram todas fracassadas. Mesmo
as escolas criadas nos povoados Maku, com professores
tukano, raramente dão bons resultados.
Atualmente, a intensa migração
dos Tukano para os centros missionários ou urbanos,
como as cidades de São Gabriel da Cachoeira e
Santa Isabel, tem levado a um processo de esvaziamento
de algumas áreas. Isto tem propiciado o estabelecimento
de povoados maku no curso principal dos rios, como é
o caso do Tiquié.
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