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O Kwarup (nome do ritual na língua kamaiurá,
como ficou mais conhecido) é considerado o grande
emblema do Alto Xingu, tanto por seus membros como pelos
de fora, sendo inclusive conhecidos por
moradores das grandes cidades do Brasil, através
da mídia. Trata-se de uma cerimônia funerária,
que envolve mitos de criação da humanidade,
a classificação hierárquica nos grupos,
a iniciação das jovens e as relações
entre as aldeias (a esse respeito, ver o item "cosmologia
e rituais").
Tanto o líder ou "dono de aldeia"
como os "donos de casas" tem uma forma diferenciada
de sepultamento. No caso dos habitantes "comuns",
o corpo é envolvido por uma rede, deitado numa
cova, depois coberto por uma esteira, sobre a qual se
põe terra. Para os chefes, há pelos menos
dois tipos de enterro. Num deles, o corpo é amarrado
a uma armação de madeira semelhante a
uma escada, e introduzido na cova de modo a ficar de
pé, com a face voltada para leste; no outro,
cavam-se duas covas, a uma distância de três
metros uma da outra, e ligadas por um túnel.
Em cada cova se põe um poste. O corpo é
colocado numa rede que passa pelo túnel e tem
seus punhos amarrados aos postes. Em ambos casos se
faz uma câmara funerária, pois as bocas
das covas são tapadas com esteiras e panelas
de cerâmica emborcadas, em cima das quais se põe
a terra.
Algum tempo após o sepultamento de um
líder, aqueles que prepararam o corpo e o depositaram
na tumba pedem aos parentes próximos do falecido
para erigir uma cerca em torno da sepultura. A aceitação
do pedido por um deles é o início do ritual
do Kwarup, que compreende um longo período.
Seu encerramento ocorre na estação
seca, no tempo da desova da tartaruga tracajá,
por volta de agosto ou setembro. Para essa cerimônia
final, a aldeia que está sediando o Kwarup
faz um convite para os outros grupos alto-xinguanos.
O parente que deu a permissão para a
construção da cerca se torna o dono
do Kwarup, ou seja, responsável pela organização
do rito e pelo fornecimento de alimento e bebida para
todos os convidados, devendo para isso dispor de uma
boa produção de mandioca. Parentes de
outros homens célebres falecidos
também serão solicitados pelos respectivos
coveiros, e, ao aceitarem, se tornarão donos
secundários do mesmo Kwarup. O dono
principal e os secundários convidarão,
por sua vez, parentes de "homens comuns" falecidos
a se juntarem ao mesmo rito. Mas haverá uma só
cerca, que marcará a sepultura daquele que foi
motivo do primeiro convite. Os coveiros ainda exercerão
a importante atividade de ligação dos
donos com o restante da aldeia e, no final
do rito, também com os convidados.
Pouco tempo depois da ereção da
cerca, os parentes dos falecidos são banhados
e pintados pelos coveiros. Nessa ocasião, os
instrumentos de percussão constituídos
por um molho de cápsulas de castanhas de pequi
usados no período inicial de luto são
substituídos pelos maracás, cujos tocadores,
em número de dois, agitam diante da cerca da
sepultura, e terão sua atividade mais intensa
na última noite do rito, quando tocarão
todo o tempo diante dos troncos do Kwarup.
A segunda providência importante é
a colheita de grande quantidade de frutos de pequi,
que amadurecem em novembro e dezembro. Os frutos colhidos
vão sendo depositados no interior da cerca que
marca a sepultura, até encher seu espaço
interior. Eles são fervidos, sua polpa é
armazenada em cestas forradas com folhas, que são
guardadas no fundo de uma lagoa. Suas sementes também
são guardadas em cestinhas. Já os peixes
têm de ser pescados no máximo cinco dias
antes do encerramento do rito, dada a dificuldade de
conservá-los, mesmo moqueados.
Ao longo dos meses que se seguem até
o encerramento ocorrem, não necessariamente todos
os dias, dois tipos de danças e o toque de longas
flautas (uruá, na língua dos Kamaiurá),
sempre retribuídos com oferecimento de alimentos
pelos donos do Kwarup. O foco de
orientação dessas atividades rituais é
sempre a cerca sobre a sepultura.
O ideal de convidar para o rito o maior número
de aldeias possível é limitado pela disponibilidade
de alimentos e pelo estado das relações
entre elas. Um mensageiro, tirado do grupo dos coveiros,
com dois acompanhantes, é enviado a cada uma
para fazer o convite, pautado por uma etiqueta que lhes
é bem conhecida.
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No pátio da aldeia promotora do rito, cada
falecido homenageado é representado por uma seção
de tronco de cerca de dois metros. São de uma espécie
vegetal que tem distintas denominações conforme
as diferentes línguas xinguanas. Os Kamayurá
a chamam de Kwarup, a mesma madeira com que o herói
mítico fez as mulheres que enviou para se casarem
com o jaguar. Os troncos são colocados um ao lado
do outro, de pé, embutidos em buracos de 50 cm
de fundo. São pintados e ornamentados com adornos
plumários e cintos masculinos. A única distinção
entre os troncos que representam homens e os que representam
mulheres é que os primeiros são guarnecidos
com mechas de algodão não fiado. Também
os homens comuns falecidos têm direito a ser representados
por troncos, porém menos grossos e com ornamentação
mais simples. Os espíritos dos mortos homenageados
ficam junto aos troncos na última noite do rito
e a isto se reduz a sua participação.
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Os troncos do Kwarup se tornam então
o foco das evoluções rituais, enquanto a
cerca em volta da sepultura é desfeita e transformada
em lenha para as fogueiras dos acampamentos das aldeias
convidadas, cujos representantes chegam no dia que precede
a última noite do rito. Ao chegarem, os mensageiros
que fizeram o convite conduzem pela mão os capitães
dos convidados de cada aldeia, tendo seu na frente o chefe,
aos quais se oferece assento e alimento no pátio.
Depois de servidos, retiram-se de volta para o acampamento.
Ao anoitecer, acendem-se fogueiras diante de
cada tronco do Kwarup. Enquanto os moradores
da aldeia anfitriã se revezam, velando os troncos
e chorando os falecidos homenageados, os visitantes,
cada acampamento por sua vez, entram na aldeia, trazendo
achas de pindaíba para remanejar as fogueiras,
numa cena movimentada e tensa.
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Ao amanhecer, os anfitriões e os convidados
se preparam para o huka-huka, luta que nessa terminologia
kamaiurá lembra os gritos dos lutadores ao se defrontarem
imitando o rugido da onça. Os anfitriões
enfrentam uma aldeia convidada de cada vez, começando
por lutas individuais de campeões reconhecidos.
Seguem-se lutas simultâneas de vários pares
de rivais, até as lutas dos muito jovens. Os lutadores
se defrontam batendo o pé direito no chão,
dando voltas no sentido dos ponteiros do relógio,
com o braço esquerdo estendido e o direito retraído,
enquanto gritam alternadamente: hu! ha! hu! ha!
Até que chocam as mãos direitas e enlaçam
o pescoço do adversário com a esquerda.
A luta, que pode durar poucos segundos, termina quando
um dos adversários é derrubado, o que não
tem que ocorrer literalmente, bastando que a parte posterior
de um de seus joelhos seja agarrada pela mão do
outro, o que é considerado condição
suficiente para provocar-lhe a queda. As aldeias convidadas
não lutam entre si. Os enfeites dos troncos do
Kwarup podem ser dados aos lutadores vencedores
e também aos dois tocadores de maracá.
Após a luta, uma das moças que
estava em reclusão pubertária, muito clara
por não ter apanhado sol durante meses e de cabelos
muito compridos, com franja até o queixo, por
não lhe terem sido cortados, oferece sementes
de pequi aos líderesde uma das aldeias convidadas,
enquanto os comuns da mesma aldeia lhe retiram
as jarreteiras. Isso é repetido com os representantes
de cada uma das aldeias convidadas. O ato tem uma conotação
sexual bastante clara, pois tanto no mito quanto no
cotidiano a mulher tem relações sexuais
sem as jarreteiras. Além disso, admitem os xinguanos
que o atual cheiro do pequi foi transferido por um herói
mítico do sexo das mulheres para essa fruta.
É então oferecido alimento aos
visitantes. Duplas de tocadores de flautas uruá
(em kamaiurá) visitantes e também anfitriões
sopram esses instrumentos, acompanhados de moças
que saíram da reclusão, e se movimentam
pela aldeia, entrando e saindo das casas. O rito termina
com a despedida dos convidados.
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