Inter-relações
Introdução
As
sociedades indígenas não se encontram em estado de total isolamento.
Isso significa dizer que, antes de manter relações com a sociedade brasileira,
elas sempre mantiveram relações entre si. Em várias regiões, e de diversas
maneiras, povos diferentes se inter-relacionavam por meio de guerras,
da troca de objetos, de casamentos, de convites para festas e rituais
etc.
Apesar de terem se transformado com o tempo, esses circuitos de inter-relações
não cessaram nos dias de hoje. Podem compreender tanto um grupo pequeno
de povos avizinhados, como estender-se por uma vasta região. Em alguns
casos, são redes de trocas muito complexas, em que cada sociedade possui
um papel especializado. Em outros, as relações ocorrem apenas eventualmente.

Os Waiwai, localizados no norte do Pará e em Roraima, sempre travaram
relações de várias naturezas – matrimonial, comercial e cerimonial –
com as populações vizinhas. Tanto que, atualmente, depois do acirramento
do contato com os não-índios, passaram a viver junto com outros povos,
dentre eles, os Katuena, os Xereu e os Hixkaryana. Nas comunidades waiwai,
apesar de todos se designarem em certos momentos como Waiwai, cada grupo
não abre mão de marcar a sua diferença, acentuando, quando preciso,
até mesmo posições de rivalidade.

A região do alto rio Negro revela vastas redes de relações entre os
diversos povos indígenas que lá habitam. A começar pelo fato de que
é regra nessas sociedades cada homem casar-se com uma mulher de outro
grupo, que, necessariamente, deve falar uma língua diferente. Desse
modo, os Tukano, os Arapasso, os Desana, os Tariana, os Tuyuka, entre
tantos outros, não podem ser considerados como grupos fechados, e sim
como unidades sempre abertas e dispostas à troca.
As relações entre os grupos do alto rio Negro não têm apenas o aspecto
de aliança. Revelam também um complexo sistema hierárquico. Casam-se
entre si os considerados "índios do rio", por habitarem regiões navegáveis,
geralmente falantes de línguas da família tukano ou aruaque. No entanto,
os índios de língua maku ("índios da floresta"), que habitam os interflúvios
da região, são relegados por estes a uma posição de marginalidade.
Os "índios do rio" não se casam com os Maku e tampouco se prestam a
aprender a sua língua, alegando que estes não seguem os padrões corretos
de residência e se casam com pessoas que falam a mesma língua, o que
lhes soa absurdo. No entanto, ambos mantêm relações constantes. Por
exemplo, os "índios do rio" fornecem peixe e mandioca aos Maku, recebendo,
em troca, carne e serviços.

A região do Alto Xingu representa, no território brasileiro, o cenário
das mais intensas inter-relações entre diferentes povos indígenas, agrupando
sociedades de línguas jê, tupi, caribe, aruaque e trumai.
No Alto Xingu, antigos conflitos deram lugar a relações intertribais
pacíficas, que incluem trocas de objetos e rituais. Como observou o
antropólogo Eduardo Galvão, na época de criação do Parque Indígena do
Xingu (início da década de 1960), os diferentes povos acabaram por se
especializar na confecção ou extração de um determinado item, de modo
a poder ingressar na rede de trocas. Assim, os Waujá confeccionavam
peças de cerâmica; os Kamayurá, arcos de madeira preta; os Kuikuro e
os Kalapalo, colares de caramujo, e assim por diante.
Até hoje, são os rituais que sedimentam uma linguagem comum entre
todos. No kwarúp, rende-se homenagem a um chefe falecido recentemente,
que se estende a outros falecidos estimados. O yawarí se realiza
a propósito de mortos mais antigos e também da iniciação dos rapazes.
Ambos os rituais fortalecem a articulação entre os diversos povos, marcando
de modo simbólico a oposição entre a ferocidade guerreira (convidados
simulam ataques à aldeia dos anfitriões) e a reciprocidade regrada (troca
de objetos e serviços).
