O trabalho dos lingüistas
Há um longo caminho a ser percorrido em direção a um conhecimento mais
amplo das línguas indígenas no Brasil. Do total de cerca de 180 línguas,
um levantamento de 1995 constatou:
- 30 têm uma descrição ou documentação
satisfatória;
- 114, algum tipo de descrição fonológica e/
ou sintática;
- o restante permanece amplamente ignorado.
Diante do preocupante quadro de extinção dessas línguas, os lingüistas
nelas especializados têm um importante papel a desempenhar, quase sempre,
como assessores de projetos de educação escolar. Quem escreve sobre
o assunto é Bruna Franchetto (antropóloga e lingüista/ Museu
Nacional/ UFRJ):
Números e porcentagens podem falar de modo mais contundente mesmo quando
se fala em línguas indígenas no Brasil, um País, ainda, multilíngüe.
No contexto sulamericano, o Brasil é o País com a maior densidade lingüística,
ou seja diversidade genética, e também uma das mais baixas concentrações
de população por língua. São cerca de 180 línguas, das quais a grande
maioria se concentra na região amazônica, para uma população hoje estimada
em 350 mil pessoas, 215 etnias. Essas línguas se distribuem em 41 famílias,
dois troncos, uma dezena de línguas isoladas, conforme Aryon Rodrigues(1).
O número de falantes vai de um máximo de 20 mil/dez mil (Guarani, Tikuna,
Terena, Macuxi, Kaingang) aos dedos de uma mão, quando não resta um único
e último falante; mas a média é de menos de 200 falantes por língua. O
número total de línguas deverá se alterar com a aumento de descrições
de novas línguas ou de línguas ainda parcialmente documentadas.
Nos anos 80, pesquisadores do Museu Goeldi encontraram os dois últimos
falantes de Puruborá e redescobriram o Kujubim; em 1987, o Zo'e ingressou
na família tupi-guarani; em 1995, foi identificado um grupo arredio
como sendo falante do até então desconhecido Canoê. Pierre e Françoise
Grenand listam 52 grupos amazônicos ainda sem contato e cujas línguas
podem revelar novos agrupamentos genéticos ou novos acréscimos a famílias
ou troncos já estabelecidos(2).
As classificações lingüísticas sofrem constantes modificações na medida
em que cresce o número de descrições, de reexames de descrições ou de
dados já disponíveis, do trabalho de comparação, o que permite rever
hipóteses sobre a pré-história e a história indígenas. Números e classificações
poderão ainda sofrer modificações na medida em que se esclareçam diferenças
entre dialetos e línguas, tarefa nada simples, dadas as dificuldades
de estabelecer fronteiras claras; nesse campo, entram em jogo, além
de nossa ignorância propriamente lingüística, fatores ideológicos e
políticos, internos e externos aos povos indígenas.
Michael Krauss lançou uma alerta para o mundo quando afirmou, com base
em rigoroso levantamento, que, no século que está iniciando, três mil
das seis mil línguas existentes no mundo desaparecerão e 2.400 estarão
perto da extinção (3).
Apenas 600, ou seja, 10%, se encontram seguras, a salvo; no próximo
século, diz Ken Hale, a categoria "língua" incluirá, somente, aquelas
faladas por, no mínimo, cem mil pessoas (4).
Isso significa que 90% das línguas do planeta está em perigo; pelo menos
20% - ou talvez 50% - das línguas já estão agonizando. Uma língua agonizante
ou "em perigo" é, tipicamente, uma língua local, minoritária, e em situação
de ruptura geracional, onde se os pais ainda falam com seus próprios
pais suas línguas maternas, já não o fazem mais com seus próprios filhos,
que abandonam definitivamente o uso da língua nativa, destinada à morte
dentro de um século, a menos que algo aconteça para a sua revitalização.
Entre os fatores principais dessa condenação à morte está a pressão
das línguas nacionais, dominantes, em situações de pressão socioeconômica,
de assimilação, através de meios e canais quais a escolarização, a mídia
(rádio, televisão etc.), a sedimentação de atitudes valorativas positivas
para a língua do colonizador e negativas para a língua dos colonizados.
Krauss calcula que 27% das línguas sulamericanas não são mais aprendidas
pelas crianças.
Línguas na América do Sul
O pesquisador Willem Adelaar apresentou, em 1991, o seguinte quadro para
a América do Sul:
|
|
Número de línguas nativas
|
Número de falantes
|
|
Argentina
|
14-23 |
169.432 a 190.732 |
|
Bolivia
|
35 |
2.786.512 a 4.848.607 |
|
Brasil
|
170-180 |
155.000 a 270.000 |
| Chile |
6 |
220.053 a 420.055 |
|
Colômbia
|
60 a 78 |
194.589 a 235.960 |
| Equador |
12-23 |
642.109 a 2.275.552 |
|
Guiana Francesa
|
6 |
1.650 a 2.600 |
|
Guiana
|
10 |
17.000 a 27.840 |
|
Paraguai
|
14-19 |
33.170 a 49.796 |
|
Peru
|
50 a 84 |
4.724.307 a 4.831.220 |
|
Suriname
|
5 |
4.600 - 4.950 |
|
Venezuela
|
38 |
52.050 a 145.230 |
Fonte: Adelaar, Willem - “The endangered problem: South America”.
Em: Endangered
Languages (editado por Robert Robons e Eugene Uhlenbeck), New
York: St. Marin 's Press,
1991.(5)
Colette Grinevald calcula o número total de línguas na América do Sul
em mais de 400, maior do que todo o resto das Américas, com uma surprendente
variedade genética e número de línguas isoladas, embora não tão alto
como em outras regiões do mundo, como por exemplo, as 760 línguas de
Papua Nova Guiné ou as 850 atualmente em pleno uso na Índia. A variedade
genética sulamericana (118 famílias), contudo, é comparável somente
à da Nova Guiné (6).
No Brasil
No que diz respeito às línguas indígenas no Brasil, Aryon Rodrigues,
em trabalho já citado, estima que, às vésperas da conquista, eram faladas
1.273 línguas; em 500 anos, uma perda de cerca de 85%. É só contemplar
o mapa etno-histórico no qual Curt Nimuendajú, nos anos 40, procurou oferecer
um panorama do povoamento do Brasil indígena utilizando somente as fontes
documentais históricas disponíveis produzidas pelos colonizadores: um
território coberto em toda sua extensão por faixas e pontos coloridos
para dar conta dos troncos, famílias, agrupamentos lingüísticos, línguas
isoladas, falados por inúmeros povos; vazios brancos indicam áreas, sobretudo
ao longo dos baixos cursos dos rios principais, despovoadas já nos primeiros
tempos da colonização(7).
Luciana Storto relata a grave e significativa situação do Estado de
Rondônia: 65% das línguas estão seriamente em perigo pelo fato de não
estarem sendo mais usadas pelas crianças e por ter um pequeno número
de falantes; 52% não estão sendo faladas pelas crianças; 35% são momentaneamente
seguras(8). Muitos
lingüistas dedicados ao estudo dessas línguas são testemunhas de processos
de perda, menos ou mais gritantes. No Alto Xingu, por exemplo, um sistema
intertribal onde são faladas línguas geneticamente distintas, há línguas
ainda plenamente vivas e íntegras e línguas na beira da extinção. Há
apenas 50 falantes de Trumai (língua isolada) e o Yawalapiti (aruak)
sobrevive em menos de uma dezena de falantes numa aldeia multilíngüe
onde dominam o Kuikuro (karib) e o Kamayurá (tupi-guarani)(9).
As outras línguas alto-xinguanas, ainda saudáveis, dão, contudo, sinais
preocupantes: a escola é considerada o tempo/espaço onde tem que se
aprender a língua do branco; os jovens, fascinados com tudo o que provém
do mundo das cidades, procuram falar cada vez mais o português e ao
mesmo tempo se afastam das tradições orais. É como se a avalanche e
a sede de novos conhecimentos aniquilassem tudo aquilo que se torna
associado aos velhos, à vida aldeã.
É a grande diversidade que torna a perda irreversível. Para os lingüistas,
essa perda significa não conseguir reconstruir a pré-história lingüística
e determinar a natureza, o leque e os limites das possibilidades lingüísticas
humanas, tanto em termos de estrutura como em termos de comportamento
comunicativo ou de expressão e criatividade poética. Mais graves e mais
complexas são as conseqüências da perda lingüística para as populações
indígenas, minoritárias e sitiadas. Se é complexa a relação entre identidade
lingüística e identidade étnica, cultural e política - não sendo elas
redutíveis uma à outra, como mostram os povos indígenas do Nordeste -,
não há dúvida quanto às consequências da agonia e desaparecimento de uma
língua com relação à perda da saúde intelectual do seu povo, das tradições
orais, de formas artísticas (poética, cantos, oratória), de conhecimentos,
de perspectivas ontológicas e cosmológicas. Certamente, diversidade lingüística
e diversidade cultural podem ser equacionadas e, nesse sentido, a perda
lingüística é uma catástrofe local e para toda a humanidade.
O que sabemos e como chegamos a saber dessas línguas?
Os primeiros dados
O século XVI viu a Europa se expandir para além de suas fronteiras. As
conquistas fizeram os sábios europeus, encabeçados por muitos missionários
e alguns viajantes, mergulharem na diversidade. Ampliaram-se os horizontes
lingüísticos, começaram a se acumular conhecimentos registrados em listas
de palavras, esboços gramaticais, escritas de falas e discursos. Nos novos
mundos, se iniciavam investigações que alimentavam teorias e tipologias,
inspiradas ora nos esquemas evolucionistas que vigoraram até o final do
século XIX, ora no universalismo dos gramáticos filósofos racionalistas
que floresceram sobretudo no século XVII.
Enquanto os espanhóis registravam quase que obsessivamente as línguas
encontradas nos territórios que iam conquistando em trajetórias de penetração
do litoral para o interior, os portugueses se concentraram nas línguas
da costa, onde dominava o tupi-guarani. Os documentos dos primeiros três
séculos da colonização do Brasil que a nós chegaram, são gramáticas e
catecismos de três línguas indígenas que desapareceram, com seus falantes,
no mesmo período: Tupinambá, Kariri e Manau. O Tupi Antigo disfarçava-se
nas Línguas Gerais – Paulista e Amazônica –, das quais se conservou uma
considerável memória escrita e, também, missionária.
As gramáticas jesuíticas tupi até hoje são objeto de admiração e repulsa.
De um lado, admira-se clareza e detalhamento das observações que nos permitem
apreciar ainda os sistemas e processos fonológicos e morfossintáticos
do tupinambá e do tupi antigo. Do outro lado, e ao mesmo tempo, critica-se
a roupagem expositiva que traduz e classifica os fatos registrados através
das categorias da tradição gramatical greco-latina. A língua indígena,
de qualquer maneira, era consumida e transfigurada, enfim, conquistada,
pelo empreendimento missionário, na escrita, nos catecismos, nos autos
e peças teatrais pedagógicas, onde o combate cristão bilíngüe (tupi/ português)
entre o bem e o mal deveria engajar índios e brancos, pecadores das aldeias
e das vilas, na luta contra o demônio do paganismo e na elevação para
o reino divino pregado pelos conquistadores. Mais tarde, o romantismo
tupi na construção da nacionalidade brasileira apresentaria a face profana
dessa tradição missionária, erguendo-se com seus lirismos sobre morte,
massacre, sacrifício de povos inteiros. E é uma língua tupi transfigurada
(e desfigurada) pela literatura que foi traduzindo para o imaginário nacional
brasileiro um índio genérico que continua povoando o senso comum, a história
escolar, filmes e novelas.
As descobertas nos novos mundos pavimentaram o caminho da lingüística
que se apresentaria como ciência na segunda metade do século XIX, comparando
e classificando as línguas conhecidas das terras conhecidas, reconstruindo
suas histórias. O território brasileiro começou a se povoar, aos poucos,
por dezenas de povos e línguas nos mapas desenhados pelas frentes de colonização
penetrando o interior. Ao missionário sucedia, ou melhor, se acrescentava,
o estudioso viajante, que acompanhava, direta ou indiretamente, as novas
expedições de conquista: Koch-Grümberg, Steinen, Capistrano de Abreu,
Nimuendajú, para mencionar os mais importantes. As observações gramaticais,
mais ou menos sistemáticas, eram acompanhadas ou ilustradas por coletâneas
de textos, transcrições alfabéticas de peças das tradições orais de diversos
povos indígenas. Começava a se constituir um corpus, na sua maioria
composto de narrativas, que seriam transfiguradas, novamente, para alimentar
um folclore nacional com suas personagens emblemáticas, como Macunaíma,
o herói trickster dos povos karib do norte amazônico.

Evangelização e pesquisa
O zelo evangelizador tem sido, de qualquer maneira, a base do interesse
lingüístico missionário; continua sendo ainda hoje, para o trabalho
lingüístico de muitas missões de fé, encabeçadas pela norte-americana
Summer Institute of Linguistics, hoje Sociedade Internacional de Lingüística
(SIL). Essas missões e seus lingüistas, portadores de um trágico binômio
"aniquilar culturas, salvar línguas", após demorado trabalho de estudo,
esvaziam palavras e enunciados de línguas indígenas para torná-los recipientes
de outros conteúdos, bíblias e evangelhos, novas semânticas para povos
subjugados e passivizados sob o rolo compressor da conversão civilizatória.
O SIL, dublê de missão militantemente evangelizadora e instituição de
pesquisa, foi personagem importante na implementação da pesquisa em
lingüística "indígena" no Brasil entre o final dos anos 50 e o dos anos
70, bem como teve, até não muito tempo atrás, primazia na cena da lingüística
internacional (tendo recursos próprios para publicar e publicando em
inglês).
A lingüística laica, não obstante, foi se desvencilhando, mesmo que penosamente,
do marco missionário, procurando documentar o que resta dessa diversidade,
desdobrando-se entre o desenvolvimento de seus modelos descritivos e explicativos
e a aplicação de seus saberes em prol de projetos políticos que possibilitem
a sobrevida digna das línguas indígenas diante do fascínio e poder da
língua dos brancos na mídia, nos papéis, nas máquinas, nas escolas.
Levantamento feito por Storto e Moore em 1991 mostrava que de 80 a cem
línguas tinham recebido algum tipo de descrição; quase metade estava sem
nenhuma documentação. Os autores consideravam que 10% das línguas contavam
com uma descrição gramatical satisfatória. Havia somente 12 doutores no
Brasil dedicando-se ao estudo dessas línguas, somente oito universidades
com a presença das línguas indígenas em programas de pós-graduação. O
SIL trabalhava com 40 línguas, não tendo contribuido à formação de nenhum
pesquisador brasileiro. Cinquente e nove estavam sendo investigadas por
lingüistas não-missionários; entre 1985(10)
e 1991, um aumento de 36%; entre 1987 e 1991, o Programa de Pesquisas
Científica das Línguas Indígenas Brasileiras (PPCLIB) do Conselho Nacional
de Pesquisa (CNPq) deu apoio a bolsas, pesquisas de campo e cursos intensivos.
Os resultados de levantamento por mim realizado em 1995 mostravam a existência
de cerca de 120 pesquisadores (80% ativos; uma dezena de pesquisadores
missionários com vínculos acadêmicos em instituições brasileiras). Observava-se
o aumento da participação de graduandos e pós-graduandos; as atividade
do SIL pareciam estacionárias. O número de pesquisadores estrangeiros
representava cerca de 10% desse total: norte-americanos, franceses, holandeses,
alemães, sem contar os ligados às missões evangélicas, onde os norte-americanos
são a maioria. Entre 1991 e 1995, houve aparentemente um aumento de cerca
de 40% em termos do número de línguas estudadas.
Naquele momento, eu observava que, para as cerca de 180 línguas, poderia
se falar que pouco mais de 30 delas têm uma documentação ou descrição
satisfatória (algo como uma gramática de referência com textos e, possivelmente,
um léxico), 114 tendo algum tipo de descrição sobre aspectos da fonologia
e/ou da sintaxe, o restante continuando no limbo do desconhecido. Nesse
cálculo, aproximado e provisório, incluía os frutos visíveis, ou seja,
em poder de instituições brasileiras ou publicados, da atuação do SIL.
Nesse sentido, uma classificação tripartida em línguas sem nenhuma documentação,
com pouca (ou alguma documentação), bem documentadas, é obviamente simplificadora.
Nos levantamentos da produção de conhecimentos na área da chamada "lingüística
indígena", geralmente não está em jogo a qualidade, nem absoluta nem relativa,
dos trabalhos ou das análises, mas a sua mera existência. A qualidade
da documentação ou da descrição lingüística é questão que só recentemente
começou a ser discutida com seriedade, inclusive graças ao acúmulo de
novos conhecimentos e novos dados, a uma maior atenção às teorias que
estão na base de modelos descritivos, ao aumento de pesquisadores envolvidos,
a uma maior circulação e divulgação das pesquisas e ao desenvolvimento
de metodologias e tecnologias para o armazenamento e processamento de
dados.

A “lingüística indígena” nos anos 90
Depois da hegemonia do estruturalismo distribucionalista norte-americano
importado pelo SIL, nos anos 90 assistimos, então, decididamente, a um
desenvolvimento gradual e progressivo da área, com uma interessante diversificação
de linhas teóricas; convivem (e competem) diferentes paradigmas, num saudável
pluralismo científico; amadurece a discussão entre pesquisa descritiva
e pesquisa teórica, cujo objetivo é a de inserir os dados de línguas indígenas
nos debates e embates da teoria lingüística atual. Foi retomada a investigação
histórica e comparativa. Assim, por exemplo, espera-se resultados importantes
do projeto "Tupi Comparativo" em andamento no Museu Goeldi, da documentação
do Zo'e e do Araweté e dos encontros de lingüistas especialistas em línguas
tupi-guarani, das pesquisas sobre línguas da família pano no Setor de
Lingüística do Museu Nacional/UFRJ, da documentação do Yawalapiti e do
Enawenê-Nawê para a família aruak, em andamento também no Museu Nacional,
dos estudos das línguas karib meridionais (Universidade de Campinas –
Unicamp - e Museu Nacional) e do nordeste amazônico (Museu Goeldi). Vislumbra-se
um bom diálogo entre etnologia, arqueologia e lingüística. Fortalecem-se
centros de pesquisa tradicionais e outros despontam, experiências se firmam
ou fracassam.
Segundo o relatório mais recente disponível(11),
em 1998 sobe para cerca de 80 o número de línguas objeto de algum tipo
de estudo por parte de não-missionários. Percebe-se leve declínio das
atividades do SIL (30 línguas em estudo e oito projetos considerados
concluídos). Interessante observar o aumento do número de línguas já
investigadas por missionários e retomadas por lingüistas brasileiros.
Graças ao levantamento feito por Lucy Seki de dissertações, teses, publicações
e inéditos, podemos avaliar, pelo menos quantitativamente, o incremento
da produção por parte de pesquisadores brasileiros. Uma série de extensas
e cuidadosas gramáticas de referência está chegando ao público, como
as gramáticas Kamayurá(12)
e ainda Tiriyó, Trumai, Karo, Apurinã, Tikuna, Kadiweu, Karitiana, entre
outras.
O quadro institucional, infelizmente, melhorou pouco. Ainda segundo
Seki, no final dos anos 90, dos 66 programas de pós-graduação em Letras
e Lingüística, apenas 12 desenvolvem pesquisas sobre línguas indígenas.
Não obstante, aumentou, sem dúvida, a presença de trabalhos sobre línguas
indígenas em eventos científicos nacionais e, nos internacionais, já faz
algum tempo que os missionários/lingüistas do SIL não dominam mais a cena.
Inaugura-se ou cresce a participação de brasileiros nos universos eletrônicos
especializados, como listas de discussões, algumas das quais criadas no
últimos anos, como a Ling-amerindia, iniciativa de pesquisadores da Unicamp.
A isso acrescentamos que, pela primeira vez, informações ricas e razoavelmente
fidedignas aparecem em sites oficiais e não-oficiais e em veículos governamentais
e de divulgação científica. Em suma, muito está sendo feito no Brasil
fora da redoma missionária, se pensarmos na penúria de uns 20 anos atrás.
Há, ainda, muito mais a ser feito. Há um excedente de trabalhos descritivos
parciais e escassez de gramáticas de referência. Nos domínios dos gêneros
de discurso, da arte verbal, da coleta de tradições orais, da elaboração
de dicionários, as lacunas são imensas, como nos estudos sociolingüísticos,
estes últimos indispensáveis quando se trata de entender as muitas e complexas
situações de bilingüismo, multilingüismo e perda lingüística.

A escola e a preservação lingüística
No campo das línguas indígenas, o lingüista é uma figura de identidade
dupla: é pesquisador e assessor de programas educacionais, fonólogo e
fazedor-de-escritas-de-línguas-de-tradição-oral, professor e redator de
material didático em língua indígena. Recebe demandas de organizações
não-governamentais, do Estado e dos índios. O envolvimento em projetos
de educação (escolar) não significa apenas um exercício de aplicação de
conhecimentos científicos, mas deve, hoje, se basear numa capacidade de
revisão crítica do modelo dominante da chamada "educação bilíngüe", ainda,
em muitos casos, atrelado, apesar de suas diversas versões, a uma matriz
missionária ideologicamente civilizadora e integracionista (de novo, o
legado do SIL, que monopolizou, até uns 20 anos atrás, a chamada educação
bilíngüe também no Brasil).
Por outro lado, já há grupos indígenas que percebem "o perigo" que suas
línguas correm e, por conseqüência, estão interessados em sua revitalização;
em situações desse tipo, são os índios que procuram interagir com lingüistas
que possam dedicar-se à documentação de sua língua. Diante de uma tarefa
desse tipo – documentar uma língua num projeto conjunto com os índios
e propor um trabalho de preservação ou salvamento –, faltam-nos intrumentos
conceituais e estratégicos. Como diz Grinevald, em trabalho aqui citado,
este lingüista de campo é como uma orquestra de um homem só: deve dominar
todos os campos da lingüística descritiva, conhecer as principais teorias
que podem guiar suas interpretações e explicações, saber o bastante de
uma específica lingüística aplicada para se enveredar em projetos de alfabetização
ou de revitalização lingüística sem cair na armadilha de achar que os
problemas se resolvem na escola, conseguir fazer pesquisa sobre a língua
com os índios, ser sensível e esperto, saber que fazer lingüística numa
aldeia não é um passeio de algumas semanas.
Os índios certamente agradeceriam todos os esforços e inciativas que
facilitassem o aparecimento desse novo pesquisador; a lingüística "indígena"
deixaria para trás, definitivamente, amadorismo e subalternidade; a
sociedade em geral aprenderia mais sobre um assunto que diz respeito
diretamente à salvaguarda de uma riqueza que está em seu seio e que,
ou desconhece, ou sepulta, no senso comum dos estereótipos. (Bruna
Franchetto - outubro/ 2000).

NOTAS:
(1) Rodrigues, Aryon D. - “Línguas Indígenas –
500 anos de descobertas e perdas”. Em: Ciência Hoje, 16 (95),
1993.
(2) Grenand, Pierre e Grenand,
Françoise - “Amérique Equatoriale: Grande Amazonie”. Em: Situation
des populations indigènes des forêts denses et humides (editado por
Serge Bahuchet), Luxemburg: Office des publications officielles des communautés
européennes, 1993.
(3) Krauss, Michael - “The world
's languages in crisis”. Em: Language, 68, 1992.
(4) Hale, Ken - “On endangered
languages and the importance of linguistic diversity”. Em: Endangered
Languages - Language loss and community response (editado por Lenore
A. Grenoble e J. Whaley Lindsay), Cambridge: Cambridge University Press,
1998.
(5) Os dados de Adelaar também
podem ser conferidos em As línguas amazônicas hoje (organizado
por Francisco Queixalós e Odile Renault-Lescure), São Paulo: IRD/ ISA/
MPEG, 2000.
(6) Grinevald,
Colette – “Language endangerment in South America: a programmatic approach”.
Em: Endangered Languages - Language loss and community response
(editado por Lenore A. Grenoble e J. Whaley Lindsay), Cambridge: Cambridge
University Press, 1998.
(7) Mapa
etno-histórico de Curt Nimuendaju (Rio de Janeiro: IBGE, 1981).
(8) Storto, Luciana - “A Report
on language endangerment in Brazil”. Em: Papers on Language Endangerment
and the Maintenance of Linguistic Diveristy (editado por Jonathan
D. Bobaljik, Rob Pensalfini e Luciana Storto), The MIT Working Papers
in Linguistics, Vol. 28, 1996.
(9) Franchetto, Bruna – “Línguas
e História no Alto Xingu”. Em: Os povos do Alto Xingu - História e
Cultura (organizado por Bruna Franchetto e Michael Heckenberger),
Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2001.
(10) Rodrigues, Aryon D. - Línguas
Brasileiras, São Paulo: Edições Loyola, 1986.
(11) Seki, Lucy - A Lingüística
Indígena no Brasil, dissertação de mestrado, Unicamp, 1999.
(12) Seki, Lucy - Gramática
Kamayurá, Campinas: Editora da Unicamp, 2000.