Cinco motivos para uma moratória na exploração do ipê

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Márcio Santilli, sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Nurit Bensusan, especialista em Biodiversidade e assessora do ISA

Árvore-símbolo corre risco ao tornar-se alvo de madeireiros. Floração amarela permite que vítima seja identificada no meio da floresta. Leia artigo de Márcio Santilli e Nurit Bensusan publicado hoje no Correio Braziliense

Hoje é Dia da Árvore. Você que se emociona com a deslumbrante floração do ipê sabia que é a destruição dessa árvore abençoada que move, atualmente, a exploração predatória de madeiras na Amazônia? Veja, abaixo, cinco bons motivos para você se insurgir contra essa aberração.

1) O ipê exerce agora o papel que foi do mogno no passado. O preço do metro cúbico de ipê está acima de US$ 2 mil, o que viabiliza a sua exploração a grandes distâncias dentro da floresta. Até os anos 1990, a exploração predatória do mogno era o carro-chefe da destruição da Amazônia. Ela promovia conflitos sociais por toda a região e a abertura de milhares de quilômetros de estradas clandestinas e a invasão de Terras Indígenas, Unidades de Conservação, assentamentos de reforma agrária e propriedades rurais. Após seguidas campanhas, o governo federal decretou uma moratória na exploração do mogno e, em 2003, ele foi incluído na lista da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES). Com isso, passou a haver maior responsabilidade e controle sobre o comércio do mogno pelos países produtores e consumidores, o que reduziu a exploração e o contrabando ilegais e valorizou a exploração por projetos legais e sustentáveis.

2) A exploração do ipê viabiliza a exploração ilegal de outras espécies florestais. A infraestrutura financiada pelo alto valor comercial do ipê torna possível a exploração de outras espécies madeireiras de menor valor, multiplicando o seu impacto sobre a floresta. Estudos demonstram que 78% da produção comercial de madeira do Pará ocorre em áreas não autorizadas e que a ilegalidade chega a 90% no oeste do estado. Estima-se que a exploração do ipê é viável em 63% da extensão da Amazônia.

3) O manejo sustentável do ipê é cientificamente impossível. Estudos demonstram que a regeneração do ipê exige muito mais tempo do que o previsto nos ciclos de manejo florestal. Mesmo nas áreas em que a sua exploração foi legalmente autorizada, não foram mais encontrados indivíduos adultos. Assim, a exploração do ipê sempre avança para novas áreas, inclusive Unidades de Conservação e Terras Indígenas. A fragilização das suas matrizes genéticas nas florestas poderá levar a limitar sua ocorrência, no futuro, exclusivamente a áreas de plantio.

4) A exploração do ipê transforma o chamado para a vida num chamado para a morte. Na natureza, é a deslumbrante floração do ipê que atrai os polinizadores e viabiliza a sua reprodução na floresta. Ironicamente, as empresas madeireiras também se valem da floração para mapear as árvores na floresta e derrubá-las depois.

5) O ipê é um símbolo do Brasil. Nas suas múltiplas variedades, a espécie é nativa de quase todas as regiões do Brasil. Sua floração cativa corações e mentes e é cantada em prosa e verso, constituindo-se também num valor estético, cultural e afetivo para todo o povo brasileiro. Esse patrimônio não deve mais ser destruído impunemente.

Se você deseja garantir essa benção na vida dos seus descendentes, mobilize-se já e convide outras pessoas a se mobilizar por uma moratória na exploração predatória do ipê!