Futuro do Xingu nas mãos dos indígenas

Programa: 
Printer-friendly version
Isabel Harari

Xinguanos colocam em prática seu Plano de Gestão do Território Indígena do Xingu por meio de projetos estruturados pelas próprias comunidades

Pelo rádio, telefone, redes sociais, conversas nas aldeias ou nas cidades. Seja qual for a ferramenta de divulgação, os índios que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX), no Mato Grosso, ficaram sabendo da abertura do segundo edital de Apoio a Iniciativas Comunitárias (AIC), no primeiro semestre deste ano.

Uma parceria entre o ISA e a Associação Terra Indígena do Xingu (Atix),que representa os 16 povos que ali vivem, e a Coordenação Regional Xingu da Fundação Nacional do Índio (CR Xingu da Funai), o AIC tem o objetivo de estimular a execução de pequenos projetos com foco na soberania alimentar, fortalecimento cultural e desenvolvimento de alternativas econômicas. A iniciativa possibilita a implementação do Plano de Gestão pelas próprias comunidades, respeitando a diversidade étnica do TIX e permitindo que os diferentes povos e aldeias possam definir suas prioridades. Em sua primeira edição, em 2017, 19 projetos de 8 povos foram aprovados e já estão em execução.

Por dentro AIC
Para a gestão do Apoio a Iniciativas Comunitárias (AIC), foi criado o Grupo de Trabalho do AIC (GT-AIC) formado por membros do ISA, Atix e CR Xingu. Esse coletivo é responsável por planejar, monitorar e avaliar as atividades do AIC, além de formular editais, analisar e definir aprovação dos projetos e seus relatórios de atividades.

“É um novo desafio pra gente”, comenta Ware Kaiabi, presidente da Atix. Ele explica que o AIC expandiu o leque de possibilidades para as comunidades acessarem um recurso para viabilizar suas demandas: “Mudou a ideia de sempre esperar uma oportunidade chegar. Hoje as comunidades acessam o recurso com mais facilidade, de acordo com o que precisam”, conta.

O AIC é fruto de uma parceria entre o ISA e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do Fundo Amazônia. A iniciativa integra o projeto Gestão e Governança de Terras Indígenas nas bacias do Rio Negro e Xingu, em vigência desde 2016.

Passo a passo: do projeto à prestação de contas


Junto com a ampla divulgação no rádio e internet, os diretores da Atix visitam aldeias das quatro regiões do TIX para apresentar o edital e o formulário de inscrição do AIC. Após algumas semanas, os técnicos do ISA realizam um plantão de dúvidas - neste momento as associações e comunidades que desejam acessar o recurso podem apresentar suas propostas e tirar dúvidas em conjunto com o ISA e Atix.

Uma vez aprovado o projeto, a comunidade ou associação é responsável pelos processos de prestações de contas e feitura de relatórios. “Não é só a gestão do dinheiro. O AIC promove uma gestão do projeto todo pela comunidade, integra todo mundo”, comenta Renato Mendonça, assessor do ISA que acompanha a iniciativa desde o início.

Durante o período de vigência dos projetos, os indígenas vão participar de formações em associativismo com foco na gestão de projetos. “Vamos trabalhar com as notas fiscais dos próprios projetos. Ao mesmo tempo que vai aprendendo, já vai fazendo a prestação de contas”, explica Mendonça.

Mão na massa

Os temas dos projetos são variados: resgate e realização de festas tradicionais, criação de aves, produção de mel para comercialização e consumo interno, produção de cestaria, resgate de variedades agrícolas, contação de histórias, entre outros.

Os Yawalapiti, por exemplo, se inscreveram no primeiro edital do AIC pois queriam apoio para resgatar os cantos tradicionais de seu povo. Eles já realizam diversas oficinas temáticas no âmbito do projeto “Apá maniníshi ishumua”, “música alegria do povo”, e se prepararam para apresentar o resultado em evento realizado em outubro do ano passado.



Os Kawaiwete, por sua vez, submeteram mais de um projeto. A comunidade que vive na aldeia Jyenap está trabalhando em plantações de castanhas e outras frutas - apenas em 2017 já foram plantados 150 pés de castanheira, e a expectativa é repetir o mesmo número em 2018. Já o projeto da aldeia Ilha Grande é para a realização da festa Jowosi, construção de uma casa tradicional e oficinas de tecelagem.

Mel no Alto

Em pouco mais de duas semanas após a assinatura do contrato do projeto de construção da nova Casa do Mel na aldeia Matipu, em outubro do ano passado, o estabelecimento já estava de pé. Wemerson Ballester, técnico da Fundação Rainforest do Japão, conta que toda a comunidade se envolveu no processo. “São mais de quatro quilômetros da beira até o local onde seria construída a casa. Homens, mulheres, velhos e crianças fizeram um mutirão e todos ajudaram a levar o material para colocar a casa em pé. Todo o processo foi um super aprendizado, da escrita do projeto até a construção!”.

É a primeira Casa do Mel no Alto Xingu, uma demanda antiga das comunidades. Ware, da Atix, explica que isso irá fortalecer a cadeia produtiva do mel dos índios do Xingu, cujo trabalho acontece há mais de duas décadas e recentemente recebeu um prêmio da ONU.[Saiba mais].

Wemerson, que trabalha com apicultura no Alto Xingu há mais de cinco anos, acredita que com a nova Casa do Mel os indígenas da região podem conquistar o credenciamento pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que é responsável pela normatização e fiscalização das regras da produção orgânica no Brasil, e assim, associar-se ao Sistema Participativo de Garantia (SPG), coordenado pela Atix.


Fique ligado! As inscrições vão até o dia 20 de abril. Acesse o edital na página da Atix
Imagens: