Lilo, o poeta das luzes

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O ISA lamenta profundamente o falecimento do fotojornalista Lilo Clareto, amigo e parceiro de trabalho, mais uma vítima do avanço descontrolado da pandemia da Covid-19 no Brasil
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Nosso amigo e parceiro de trabalho, o fotojornalista Lilo Clareto, faleceu na manhã desta quarta-feira 21 de abril, vítima da Covid-19. Lilo partiu aos 61 anos, deixando a mulher Daniela, quatro filhas, e uma rede gigantesca de amigos e admiradores. Lilo partiu como mais uma vítima da omissão das autoridades em frear a pandemia, permitindo o avanço descontrolado da doença pelo país e redundando no atual colapso do sistema de saúde e na escalada inaceitável do número de mortes. Lilo é mais uma vítima da tragédia que atinge o povo brasileiro. A campanha de apoio à família de Lilo para arcar com os custos hospitalares segue aberta, ajude se puder.



A vida de Lilo deve ser celebrada. Nome consagrado no fotojornalismo, Lilo morava há alguns anos em Altamira (PA), às margens do Rio Xingu, onde também mora sua parceira de reportagens, Eliane Brum, e de onde colaborava com diversos veículos de imprensa e organizações como o ISA, que mantém escritório na cidade e parceria de muitos anos com as comunidades ribeirinhas e extrativistas do Xingu.

Lilo é o fotógrafo que produziu algumas das melhores coberturas fotográficas da região da Terra do Meio, no sudoeste do Pará. Sua primeira viagem à região se deu em 2004, junto com Eliane, para uma série de reportagens para a Revista Época. As matérias e sua repercussão ajudaram a impulsionar a criação, pelo governo federal, da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio. São de Lilo também algumas das melhores coberturas de atividades de pesquisadores, técnicos e ativistas do ISA ao lado de parceiros ribeirinhos e indígenas da Terra do Meio. Entre elas, o registro da produção da castanha, da farinha do babaçu e de outros produtos por famílias extrativistas, o histórico encontro entre lideranças indígenas e ativistas climáticos, no fim de 2019, ou o fornecimento de alimentos oriundos da floresta, pelas comunidades, para a merenda escolar das crianças da região, com o treinamento das merendeiras para aproveitarem os ingredientes em receitas deliciosas e nutritivas.

O trabalho de Lilo denunciou os impactos da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, e nas comunidades da região, de maneira extraordinária. Lilo percorreu inúmeras vezes as ilhas e margens da região da Volta Grande do Xingu, apurando seu olhar para um mundo em transformação acelerada. O fotojornalista provavelmente contraiu a Covid-19 em uma expedição para registrar novos impactos de Belo Monte no Xingu. Respeitoso e sensível, Lilo sabia a hora de abaixar a câmera e ouvir as pessoas, suas histórias. E também era um excelente contador de causos, cantor e poeta. Um poeta das luzes e das palavras.

Viajar com o Lilo sempre foi um aprendizado. Ele sabia que a reportagem vai muito além de fontes, prazos, dados e imagens impactantes: é também a conversa despretensiosa na voadeira, é o cafezinho de boas vindas, a cerveja no final do expediente, a roda de forró no intervalo da reunião. São as imagens refletidas nos espelhos d'água, ao longo dos rios. Lilo nos ensinou o que é comprometimento com leveza e com poesia.

Para nós do ISA, poder contar com o Lilo como fotógrafo baseado em Altamira sempre foi a certeza de contar com um trabalho de primeira qualidade. Foi sobretudo a alegria e a tranquilidade de contar com uma pessoa positiva em qualquer circunstância - nas longas viagens de barco pelos rios da região, nos acampamentos e passagens pelas comunidades, na relação com as pessoas que moram na floresta - e que faz amizade por onde passa.

A alegria, a paciência e o acolhimento de Lilo diante de seus personagens - muitas delas pessoas pouco acostumadas com tantos cliques, criadas na beira de um rio, no meio da mata e que, por vezes, ficam intimidadas com as lentes e equipamentos de fotografia -, sempre nos inspiraram e nos relembraram da postura correta que devemos ter - e garantir que todos tenham - quando entramos na casa de alguém. Inclusive quando essa casa é a própria floresta. Lilo, sempre presente, vai seguir nos inspirando.

ISA
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