Delicadeza e memória como antídoto à invisibilidade

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Memoráveis, memorial na internet, reúne narrativas e memórias sobre indígenas vítimas da Covid-19 no Rio Negro (AM)
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Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de Covid-19 no dia 11 de março de 2020, a população indígena distante dos grandes centros, como nas aldeias mais remotas de São Gabriel da Cachoeira (AM), nas bordas do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, não esperava que a doença pudesse chegar de modo tão rápido e letal até a floresta amazônica.

Cerca de 45 dias depois, em 26 de abril, o primeiro caso da doença foi confirmado no município, distante 850 quilômetros da capital, Manaus, com acesso apenas por avião ou barco. Infelizmente, a vítima de apenas 44 anos, do povo Baniwa, não resistiu e morreu em uma UTI em Manaus no dia 4 de maio. Era o professor Walter Antônio Benjamin, nascido na comunidade de Assunção do Içana, Terra Indígena Alto Rio Negro. Sua história está narrada no site Memoráveis, uma coletânea de narrativas sobre indígenas vítimas da Covid-19 no Rio Negro, lançada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), no último 30 de abril, dia do aniversário de 34 anos de criação da Foirn.

Na celebração ocorrida na Casa do Saber (Maloca), no Centro de São Gabriel, as lideranças prestaram homenagem às vítimas indígenas da doença na região, que também inclui os municípios de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. Nildo Fontes, vice-presidente da Foirn, do povo Tukano, destacou a importância da memória para os povos indígenas no Brasil. “As perdas das vidas dos nossos conhecedores nos fragilizaram bastante. Essa tragédia inesperada nos fez pensar mais em como valorizar a nossa história e a nossa memória daqui para a frente. A Foirn, como representante dos 23 povos indígenas do Rio Negro, precisa estar preparada e dar atenção aos conhecedores e todo esse conjunto de histórias e saberes. Muitos dos que partiram passaram seus conhecimentos oralmente aos seus parentes. Hoje, queremos registrar por escrito também para garantir que no futuro a gente possa ter nossa memória viva. Esse memorial vai ao encontro dessa ideia”, afirmou Nildo.

Elaboração da memória

O site é um processo em construção. As primeiras histórias narradas, em sua maioria pelos familiares das vítimas à jornalista Ana Amélia Handam, colaboradora da Foirn e do ISA, já estão disponíveis no memorial. Contudo, a segunda onda da pandemia em 2021 mais que dobrou o número de mortos na região, tornando ainda maior a luta dos povos indígenas pela sobrevivência e visibilidade da face humana dessa tragédia. Por trás dos números e estatísticas estão histórias de vida e pessoas que tiveram suas trajetórias interrompidas pela pandemia.



Assim, o Memorial está aberto a acolher narrativas de indígenas de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, compartilhadas pelos seus parentes, para que a memória e a história sejam registradas para as futuras gerações. A região perdeu grandes conhecedores, lideranças e pessoas estimadas por toda a população, como o artista Feliciano Lana, do povo Desana, o pensador Higino Tenório, do povo Tuyuka e o diretor da Foirn, Isaías Fontes Pereira, do povo Baniwa. Essas narrativas e memórias podem ser feitas em texto ou áudio em línguas indígenas, Português ou Espanhol. Para mais informações basta escrever para memoraveis@foirn.org.br.



Ana Amélia Handam, jornalista que vem colaborando na elaboração deste Memorial, emocionou-se ao lembrar das conversas com os familiares das vítimas. “As entrevistas foram invariavelmente marcadas por momentos de emoção, por lágrimas, por vozes engasgadas, pelo relato da angústia de não poder despedir-se direito da pessoa querida, do abraço não dado. E ainda sobre circunstâncias que causam indignação, como a falta de informação, a dificuldade de atendimento, o serviço de saúde que não leva em conta a cultural local, a demora da resposta dos órgãos oficiais, apesar do empenho das entidades locais e profissionais da saúde”, recordou.

Apesar do luto e das dificuldades, Ana, que mora em São Gabriel desde 2019, foi também atravessada pela força e esperança. “Vejo que as narrativas trouxeram sobretudo a riqueza de cada história, da ligação ancestral com a região, com a tradição. Ao narrarem sobre suas vidas, essas famílias contaram sobre o modo de vida do indígena do Rio Negro. Povos já tão acostumados a resistir, novamente mostraram seu repertório de ação: uniram-se, fizeram parcerias, buscaram pajés, trouxeram oxigênio, lutaram por vacina para todos os indígenas, sejam eles aldeados ou não”, pontuou a jornalista.

A Rede Wayuri de comunicadores indígenas, que reúne 26 comunicadores de 10 etnias do Rio Negro, também colabora com a busca das histórias e elaboração dessa memória. A Rede cobriu o lançamento do site na Maloca da Foirn, produzindo um boletim de áudio sobre o evento que pode ser escutado aqui. A artista visual Raquel Uendi, que colabora com a Foirn, Rede Wayuri e o ISA em São Gabriel da Cachoeira desde 2019 e também trabalhou nas ações de enfrentamento à pandemia na região, elaborou a parte visual e de programação do site.

Juliana Radler
ISA
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