Enchente no Rio Negro: Barcelos (AM) também registra recorde histórico

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Indígenas da região relatam impactos na cidade e nas comunidades, com a perda de roças e casas; Nobel da Paz Philip Fearnside alerta que eventos extremos podem tornar povos amazônicos em refugiados ambientais
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Enquanto a região Centro-Sul do Brasil vive uma emergência hídrica pela falta de chuvas, a bacia amazônica registra recordes seguidos de enchentes, com chuvas torrenciais. Em Barcelos, primeira capital do estado do Amazonas, o Rio Negro ultrapassou a cheia máxima anteriormente observada (10,32 metros em 1976), chegando à cota de 10,33 m, conforme o Boletim de Monitoramento Hidrometeorológico da Amazônia Ocidental, do Serviço Geológico do Brasil – CPRM, divulgado na última sexta (18/6).



Vanderly Gomes, do povo Tikuna, morador de Barcelos, enviou ao Instituto Socioambiental (ISA) um relato sobre o que chamou de “efeito tremendo da enchente”: “parte da nossa cidade está na água. Algumas pessoas estão à deriva sem saber para onde ir. A cheia afetou diretamente as moradias e a economia da cidade. A alimentação também está ficando difícil devido ao grande volume de água. O comércio não está conseguindo vender pela falta de acesso para as pessoas chegarem até as lojas”, comentou em áudio.

Enquanto a cheia bateu recorde na antiga capital, em Manaus, o Rio Negro também voltou a subir. Na última quarta (16/6), o Negro registrou marca histórica desde o início dos registros, em 1902, chegando a 30,02 metros. A responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico do Amazonas, Luna Gripp, disse que essa subida do Rio Negro em Manaus surpreendeu os pesquisadores.

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“É bem incomum acontecer isso. O rio geralmente sobe aos pouquinhos e, quando chega no final da curva, ele estabiliza e já começa a descer devagar também. O que aconteceu é que tiveram fortes chuvas nas cabeceiras do Negro até a região de Tefé, no Solimões. Choveu muito, bem acima do esperado em toda a região. Então, foi um volume de água muito grande que chegou das calhas e fez o rio subir um pouco mais em Manaus”, explicou Luna.

Além de subirem os rios e provocarem enchentes, as chuvas intensas estão estragando as roças das comunidades, como narram os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas), que atuam junto ao ISA e à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) no monitoramento ambiental e climático da bacia do Rio Negro.



“Com o volume de chuva muito grande estão apodrecendo as roças de mandioca, de melancia, de abacaxi e outras. O prejuízo é grande e afetou muitas comunidades. Andamos fazendo visitas e vimos, por exemplo, a comunidade indígena de Tapera, no Rio Padauiri, muito afetada. Como lá é várzea, tá todo mundo desabrigado. No Rio Unini também visitamos as comunidades de Lago das Pedras e Lago das Pombas e até as escolas estão todas na água”, contou Vanderly, que é tio do Aima Ezequias da Costa Pereira, que integra o grupo de monitoramento ambiental indígena na região.

Mudanças climáticas vão acentuar eventos extremos na Amazônia

O pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, Prêmio Nobel da Paz junto com outros cientistas integrantes do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), afirmou ao ISA que essa cheia recorde do Negro está diretamente ligada às mudanças climáticas:

Podemos afirmar que essa cheia recorde do Rio Negro é um evento extremo relacionado com as mudanças climáticas?

Podemos afirmar que este evento é relativo às mudanças climáticas, e que teremos cheias mais frequentes deste tamanho ou maior no futuro.

Como os povos da região Amazônica serão afetados por esses eventos extremos nos próximos anos? É possível prever cenários?

A frequência de cheias e vazantes extremas está aumentando há algum tempo, e essa tendência deve continuar. Esses eventos dificultam o uso da várzea para agricultura. Cheias muito grandes podem invadir a floresta e matar árvores de terra firme, como a mortandade de castanheiras que ocorreu no caso da grande enchente do Rio Madeira em 2014.

Quais medidas precisam ser tomadas para reduzir o impacto desses eventos extremos na Amazônia?

Mudar residências para locais suficientemente altos é uma medida óbvia. Em termos de segurança alimentar, é importante ter o máximo possível de diferentes fontes de comida, para que sempre haja alternativas se uma fonte for eliminada. A maior parte dos impactos não tem como evitar.

Podemos afirmar que eventos extremos climáticos na Amazônia podem transformar os povos tradicionais da região em refugiados ambientais nos próximos anos?

As grandes secas, por exemplo, têm este potencial devido a sua capacidade de provocar grandes incêndios florestais. Por exemplo, durante o El Niño de 2015/16 foi queimada uma área de um milhão de hectares em um único incêndio na área de Santarém. É importante lembrar que a exploração madeireira facilita muito a ocorrência e espalhamento de incêndios florestais, e que há uma presença crescente de atividade madeireira dentro de terras indígenas. É bom lembrar o incêndio florestal durante a seca de 2010 em área explorada na Terra Indígena Sete de Setembro, dos Suruí.

Quais são suas expectativas para a próxima Conferência do Clima (COP 26), que ocorrerá em novembro, na Escócia?

É essencial que a COP 26 seja um sucesso. É a primeira oportunidade para que os países assumam compromissos formais maiores desde o acordo de Paris em 2015. A situação climática do mundo está rapidamente piorando e, com a demora em diminuir fortemente a emissão de gases, fica mais difícil controlar a situação. Como um dos países que sofrerá impactos catastróficos com o aumento do aquecimento global, o Brasil deve estar tomando a liderança para diminuir as emissões.

Evidentemente, isto ainda não aconteceu. A promessa de zerar desmatamento ilegal até 2030 é pouca coisa. E, infelizmente, o que temos é uma série de medidas para legalizar a grilagem e o desmatamento que estão acontecendo, e não mudanças para parar o desmatamento em si. E para o clima não importa se o desmatamento seja legal ou ilegal.

Aimas falam sobre eventos extremos em Barcelos: Cheia histórica em 2021, grande incêndio em 2015

Jucilaura Tomás de Melo, povo Baré, 34 anos



“Pelo meu conhecimento essa é uma enchente histórica. Aqui em Barcelos, segundo os antigos, teve uma enchente parecida em 1976, mas a população não chegou a ser tão atingida porque não havia tantas casas e eram poucas as pessoas que habitavam na cidade de Barcelos. Já nessa enchente de 2021 o impacto é maior porque a população que habita a cidade hoje também é maior. Muitas pessoas estão sendo afetadas e muitas não têm para onde ir e nem possuem meios de pagar aluguel. As pessoas estão perdendo móveis, tendo as casas danificadas e correndo risco de serem atingidas por algum animal peçonhento. As pessoas também não estão podendo sair para trabalhar e deixar seus filhos nessa situação em casa. Até mesmo o índice de malária aumentou. Particularmente, essa é a maior cheia que eu estou presenciando no município de Barcelos. Em 2015 quando aconteceu um grande incêndio aqui na área de Barcelos, a natureza foi muito atingida, a pesca, a caça, a agricultura. Em consequência disso, a população sofreu porque ficou muito difícil a pesca, a caça, muitos ficaram sem roça. E até mesmo com problemas de saúde. Agora, com a enchente, a população volta a sofrer esses problemas. Dessa vez a natureza não está sendo tão atingida como foi no incêndio de 2015, mas a população está sendo diretamente. Como o ser humano não tomou o devido cuidado com o fogo e o incêndio destruiu parte da natureza, hoje a natureza nos surpreende com essa enchente histórica”.

Antônio de Jesus Dias Campos, povo Tariano, 35 anos



Posso dizer que o impacto da cheia no interior foi mais em relação às moradias e à alimentação. Muitas pessoas que moram mais perto da beira tiveram que sair para a casa de parentes que moram nas partes mais altas. A maior parte das comunidades indígenas de Barcelos fica em áreas altas, o que é bom. Já aqui na cidade o impacto maior é em relação ao pescado, além da locomoção que foi prejudicada. Tivemos uma cheia grande em 2012, depois vieram os incêndios de 2015 e eu vejo que foram dois extremos. Agora essa cheia histórica de novo. Eu vejo que esses dois extremos anteriores a 2021 são os responsáveis pela escassez da caça e da pesca de agora, o que acaba comprometendo nossa alimentação. Ter peixe até tem, mas não como antes. E também agora está muito mais caro. Por exemplo: até há um ano o quilo do peixe estava em R$ 7 e já era considerado caro. Aí subiu pra R$ 10 esse ano e agora está R$ 12 o quilo. Sendo que dependendo do peixe e se foi pescado bem recente, fica muito mais caro ainda. Isso vem causando muitas dificuldades para as pessoas. Então, pra gente aqui, pela nossa cultura, a gente associa essa mudança na alimentação aos eventos extremos da cheia de 2012 e à queimada de 2015, que acaba prejudicando tanto na terra, quanto na água.

Juliana Radler
ISA
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