A pandemia nossa de cada dia: sabemos para onde vamos?

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Nurit Bensusan, assessora do ISA e especialista em biodiversidade

Para além de Rainhas, Alice encontra várias outras criaturas estranhas no País das Maravilhas. Uma delas é o Gato e com ele Alice tem um interessante diálogo. Alice pergunta: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”. E o Gato responde: “Depende bastante de para onde quer ir”. Alice, então, diz: “Não me importa muito para onde”. O Gato retruca: “Então não importa que caminho tome” e Alice complementa dizendo: “Contanto que eu chegue em algum lugar.”

Para chegar a algum lugar é preciso saber a que lugar chegar? Ou basta ir? No livro On the road, de Jack Kerouac, que inspirou toda uma geração nos anos 1960, há uma passagem que diz: “… a gente tem de ir e não parar nunca até chegar lá” “Para onde a gente está indo?” "Não sei, mas a gente tem de ir.” Talvez funcione quando você coloca uma mochila nas costas, o pé na estrada e deixa o caminho te mostrar qual é o destino, mas talvez como civilização, nesse momento de pandemia e crise climática, saber que queremos ir embora daqui mas não sabermos onde queremos chegar, pode não ser a melhor alternativa.

O ambientalismo, derivado dos movimentos da contracultura da década de 1960, tem no livro de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, um de seus marcos. O livro foi lançado em 1962 e trazia um levantamento abrangente dos males que agrotóxicos causavam à natureza. Inspirou muitos defensores do meio ambiente e provocou, evidentemente, o desprezo e a fúria da indústria química, deslumbrada com a revolução verde. Na década seguinte, um estudo feito por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, intitulado Limites do Crescimento, daria o tom da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, na Suécia. O livro trazia simulações em torno da finitude dos recursos, considerando os modos de produção vigentes e projetava um cenário catastrófico para o futuro se não houvesse mudança de direção. De lá para cá, o mundo deu muitas voltas e muita coisas mudou.

Uma delas foi o esvaziamento do potencial revolucionário do ambientalismo. Esse potencial, presente em suas origens, compartilhado com os diversos movimentos nascidos na contracultura dos anos 1960, se traduzia numa convicção de que não seria possível continuar seguindo os rumos do desenvolvimento industrial e tecnológico sem um resultado nefasto para a natureza e para nós mesmos. Outra transformação significativa de lá para cá foi a aceleração do impacto humano sobre a natureza: nos últimos 50 anos destruímos mais o meio ambiente do que em toda a história pregressa da nossa espécie na Terra.

Esses dois fenômenos aconteceram sob a égide da conciliação que surgiu, entre o crescimento econômico e a pretensa conservação da natureza, plasmada no conceito de desenvolvimento sustentável e adotada mundialmente como solução. É preciso entender, nesse momento, onde ainda se disputa um futuro pós-pandêmico, que essa conciliação não é possível, um crescimento econômico infinito não é compatível com a manutenção da natureza com quem compartilhamos esse planeta. Uma escolha foi feita e o que vemos é o resultado dela. Revisitar essa escolha parece impossível, mas é essencial para que haja um futuro melhor, mais solidário, e sem a emergência frequente de surtos de doenças mortais e sem eventos climáticos imprevisíveis e extremos.

Passos para construir o “impossível”

Para tanto, uma possibilidade seria começar resgatando o potencial de transformação que o discurso ambientalista teve no passado, acrescido da experiência desses últimos 50 anos. Alguns pontos parecem fundamentais para uma aventura desse tipo, e digo aventura, de propósito. Não é que me falte a palavra “agenda”, é que se trata, de fato, de se aventurar por outras searas, desbravando novas ideias e talhando novas possibilidades.

O primeiro ponto é a mudança de referencial. Não é possível persistir na ideia de que o desenvolvimento econômico continua na mesma toada, faz apenas uns pequenos e insignificantes ajustes e se auto define como sustentável e sim, o contrário. Para que a integridade da natureza e dos seres com quem compartilhamos o planeta seja mantida, por quais transformações o modelo de desenvolvimento deve passar? Ou seja, a referência não deve ser o modelo de desenvolvimento imutável e sim a integridade da natureza inegociável.

O segundo é dar nome aos bois. Diante de tantas referências ao gado e à passagem da boiada, talvez não seja a melhor metáfora, mas a ideia é atribuir a responsabilidade a quem é realmente responsável. Ou seja, não adianta o esforço de todas as crianças do mundo de fechar a torneira enquanto escovam os dentes, se metade da água é perdida por vazamentos nas malhas de distribuição urbanas e se nada é feito sobre o uso abusivo e o desperdício de água na agricultura, por exemplo. Não adianta responsabilizar o indivíduo e suas práticas, dando a ele a impressão de que a mudança dessas práticas fará uma diferença significativa, se os maiores responsáveis pela poluição, pelo sobreuso dos recursos naturais e pela destruição da natureza não são identificados e punidos.

O terceiro é a recusa consciente à cooptação. Com a ideia da conciliação que o desenvolvimento sustentável trouxe, a questão ambiental passou a ser uma variável de uma equação já dada, a do desenvolvimento econômico a qualquer preço. Ao invés de uma nova matemática, apenas um outro fator a ser considerado. Assim gerações de ambientalistas passaram a ser aliados do modelo, prontos para dar nó em pingo d’água para que houvesse uma composição entre o desenvolvimento e a conservação da natureza. A recusa à essa cooptação parece impossível, mas ela pode ser revolucionária e fomentar novas alternativas.

O quarto é o reconhecimento da interdependência entre a destruição da natureza e o projeto colonial. Não haverá possibilidade de manter a integridade dos ecossistemas se esse projeto colonial, racista e preconceituoso, continuar regendo nosso mundo.

Como bem diz Carlos Walter Porto-Gonçalves, no essencial A globalização da natureza e a natureza da globalização, "na América Latina, a colonialidade sobreviveu ao colonialismo, por meio dos ideais desenvolvimentistas eurocêntricos ocupando os corações e mentes das elites brancas ou mestiças nascidas na América". Há que se reconhecer que a pilhagem da natureza, com todas as suas consequências, como vemos hoje na pandemia nossa de cada dia, é um dos componentes-chave desse projeto. Vale lembrar uma provocação de Gandhi, que ilustra bem esse cenário: "Para desenvolver a Inglaterra foi necessário o planeta todo. O que seria necessário para desenvolver a Índia?”. Não sei em que ano exatamente Gandhi fez essa pergunta, mas certamente estamos falando aqui de uma constatação que tem mais de 70 anos, antes ainda da destruição literal de quase todo o planeta.

Há, com certeza, muitos outros pontos fundamentais para embarcarmos nessa aventura, mas talvez o mais importante, ainda, mais uma vez, seja apontar outro mundo possível, com concretude. Levar as pessoas a experimentar, a sentir, a imaginar outras coisas e, em última instância, a querer outras coisas. Talvez o movimento ambientalista tivesse esse objetivo nos idos da década de 1960, talvez esse seja o momento de resgatá-lo. Talvez seja a hora de responder ao Gato, que sim, nos importa para onde estamos indo e que queremos seguir por um caminho definido que nos conduza a um mundo onde as ideias que parecem impossíveis se tornam possíveis.

O desafio da Rainha Branca

Na jornada de Alice ao outro lado do espelho, ela se encontra com a Rainha Branca, que a desafia a acreditar em algo impossível. Quando Alice diz que não se pode acreditar em coisas impossíveis, a Rainha contesta dizendo que o problema era a falta de prática de Alice e afirma, orgulhosa, que na idade da menina, algumas vezes chegou a acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

O desafio a que eu me lancei é imaginar seis coisas que parecem impossíveis mas que se colocadas em prática poderia fazer do futuro pós pandêmico algo melhor. Logo percebi que a Rainha Branca tinha razão: não temos o hábito de pensar em coisas impossíveis, estamos de tal maneira mergulhados nessa nossa forma de viver que pensar em outros mundo possíveis já é quase uma impossibilidade.

Assim, que o desafio é imenso. Recomendo que vocês também se exercitem, mas não antes do café da manhã, para evitar o risco de morrer de fome. Só assim poderemos criar alternativas. Aqui está o texto que deu origem ao desafio: Alice no país da pandemia.

Esse é o quinto texto desse desafio. Abaixo um pequeno resumo das ideias impossíveis que tive e sobre as quais escrevi com o link para os textos:

Coisa impossível 1: levar a inspiração da natureza até as últimas consequências, tanto na diversidade que compõe o mundo, como nas soluções que ela encontra para os problemas que se colocam. Inspiração até as últimas consequências.

Coisa impossível 2: assumir as responsabilidades do que fazemos, como humanidade, pensando nas dimensões da responsabilidade do mundo e da responsabilidade com o mais frágil. Responsabilidade do outro lado do espelho.

Coisa impossível 3: entender que com esse sistema de produção de alimentos, que guarda dentro de si tanta destruição, viveremos num mundo onde eventos imprevisíveis epidemiológicos e climáticos se sucederão com mais frequência e tomar uma atitude de recusa diante de seus produtos. Sementes da morte.

Coisa impossível 4: resistir e desmontar o racismo que naturaliza o genocídio e o etnocídio e que nos leva a perder, como humanidade, importantes conhecimentos para revisitarmos nosso lugar no planeta. Sobre becos e fissuras.

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