Direto do confinamento: garimpo, índios e coronavírus

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Márcio Santilli

Com o avanço da Covid-19, a situação mais preocupante é a dos povos que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros

A presença de invasores ameaça centenas de comunidades indígenas de contágio pelo coronavírus.

Por enquanto ainda está difícil avaliar ao certo qual será o tamanho do impacto da epidemia sobre os povos indígenas no Brasil. Há fatores que nos dão alguma esperança, como o relativo isolamento da maior parte das aldeias e o clima quente, principalmente na Região Norte, que pode ser um pouco menos favorável à sobrevivência do vírus e à sua disseminação.



Mas a experiência histórica dos povos indígenas com epidemias em geral é arrasadora. Em virtude de condições sociais, econômicas, de saneamento e de saúde piores que as dos não indígenas, essas populações são mais vulneráveis à Covid-19. Preocupa particularmente a situação dos índios isolados ou de contato recente, a menos que tenham, mesmo, a possibilidade de permanecerem isolados até que a epidemia arrefeça.

O isolamento, aliás, é a melhor receita para todos e, também, para as comunidades que mantém relações regulares com a sociedade nacional. Mas há muitas dúvidas sobre como ficará a atenção à saúde dos índios durante a crise sanitária, assim como as condições que terão para acessar produtos básicos de consumo de que dependem, como remédios, produtos de higiene, combustível e outros.

Porém a situação mais grave e preocupante é a dos povos que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros. Imagine hordas de garimpeiros contaminados invadindo aldeias, corrompendo caciques desinformados, além da destruição e contaminação dos rios e de todas as formas de vida.

Na semana passada, os Yanomami, em Roraima, incendiaram um helicóptero e prenderam os seus ocupantes, ligados ao garimpo clandestino. Nesta semana, os Kaiapó, no Pará, rebelaram-se contra chefes ligados aos garimpeiros e exigiram a imediata retirada deles. Está fazendo diferença o fato de que as informações sobre a epidemia estão chegando aos índios, dando-lhes a oportunidade de reagir antes que seja tarde demais.

E os chefes ou grupos indígenas que, durante a epidemia, mantiverem relações promíscuas com invasores estarão ameaçando suas próprias vidas e as dos seus familiares.

Se a omissão do governo federal em relação a invasões crônicas de terras indígenas sempre foi criminosa, agora, num contexto de pandemia, ela passa a ser genocida. O governo precisa organizar operações imediatas para extirpar os focos mais numerosos de invasores, sob pena de crime de responsabilidade.

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Márcio Santilli é filósofo e sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Autor do livro "Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais". Deputado federal pelo PMDB (1983-1987) e presidente da Funai de 1995 a 1996.

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