Levando 2020 na alma

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Nurit Bensusan, especialista em Biodiversidade do ISA

2021 se avizinha... Vai ser, para a grande maioria da humanidade, um alívio deixar o ano de 2020 para trás. Infelizmente seus rastros podem nos seguir. Talvez estejamos tão contaminados de 2020 que seguiremos carregando partes desse malfadado ano ao longo de nossas existências…

É bem possível que, com as vacinas e outros avanços, em breve o novo coronavírus não nos assuste mais. E os fantasmas de 2020? Será que seremos capazes de esquecer o que 2020 revelou?

Sabemos que a pandemia não se deu por um azar ou por uma casualidade. Ela é fruto das formas com que lidamos com a natureza e não há mais como negar que essas formas têm sido predatórias: a perda de espécies acelera a cada dia, o clima se transforma rapidamente, as florestas tombam para dar lugar às monoculturas, enfim, tudo contribui para a emergência de novas doenças e para que elas passem a assolar a humanidade.

Por outro lado, isso não pareceu comover ninguém, não moveu nem corações, nem mentes. O desmatamento não arrefeceu, as pessoas não pararam de consumir exageradamente, o mar continuou recebendo toneladas de plásticos, a atmosfera seus bilhões de toneladas de gases de efeito estufa e a maioria de nós simplesmente anseia por voltar a vida “normal”, como se ela fosse aceitável.

Nesses meses de pandemia nossa de cada dia, tentamos, inspirados na Rainha Branca, de Alice no país dos espelhos, imaginar coisas que parecem impossíveis, mas que, se fossem colocadas em prática, poderiam mudar o futuro. Apesar do esforço – tenho certeza que a Rainha Branca teria orgulho de nós – poucas ideias germinaram. Viveremos mais do mesmo, sabendo que mais do mesmo nos conduzirá a novos 2020s, talvez até piores...

O maior legado deste ano está sendo empurrado rapidamente para debaixo do tapete: a constatação da vulnerabilidade da nossa espécie. Dependemos da natureza, das outras espécies, dos serviços que o ambiente nos fornece para viver e estamos transformando esse planeta convidativo para a humanidade em um ambiente hostil. Viver, porém, com consciência dessa fragilidade é um desafio. Ela coloca em xeque a nossa segurança, a nossa certeza de sermos os senhores da natureza, e desafia nossa arrogância de seres superiores e independentes.

Caranguejo de sangue azul e as vacinas

A arrogância humana alimenta-se, por exemplo, da produção, em tempo recorde, de diversas vacinas. Claro que o engenho humano capaz de conceber esses imunizantes é digno de orgulho, mas não deve também nos cegar. E apenas um exemplo deveria ser suficiente para nos colocarmos de volta em nosso lugar, de espécie vulnerável, exposta aos desastres que ela mesma criou. Esse exemplo é o da nossa dependência do caranguejo-ferradura.

Talvez você nunca nem tenha ouvido falar desse animal. Ele é conhecido também por límulo e é um parente próximo das aranhas e dos escorpiões, apesar do nome alternativo de caranguejo-ferradura. É encontrado na parte norte do oceano Atlântico e, se não fosse ele, muitos de nós já estaríamos mortos.

Em meados do século passado, pesquisadores de biologia marinha descobriram que o sangue do caranguejo-ferradura tem uma característica única: ele reage, coagulando, à presença de endotoxinas bacterianas, substâncias que podem contaminar vacinas e outros produtos que podem entrar em nosso corpo. Atualmente, esses animais, que habitam nosso planeta há mais de 400 milhões de anos, ou seja, que acompanharam o surgimento e o desaparecimento dos dinossauros, estão no centro dos testes realizados para garantir que as vacinas são seguras.

A cada ano, cerca de meio milhão de caranguejos-ferraduras são capturados e seu sangue é extraído para produzir o teste conhecido como Limulus Amebocyte Lysate – LAL. Depois, os caranguejos são devolvidos ao mar. A indústria farmacêutica diz que apenas 3% morrem, enquanto os pesquisadores que monitoram as populações desse animal afirmam que a mortalidade chega a 30%.

Todas as vacinas de Covid-19 passam pelo teste LAL para garantir que não seremos contaminados por bactérias. Interessante que, em um mundo com tantas novas tecnologias, tantos produtos sintéticos, ninguém conseguiu ainda um substituto para o sangue azul do caranguejo-ferradura. Sim, e tem ainda essa curiosidade: o sangue dos caranguejos-ferradura é azul, por causa do cobre ali presente. Ou seja, eles são a verdadeira realeza de sangue azul, os que dão o sangue, todos os dias, para salvar vidas.

Depois, porém, de terem contemplado a ascensão e a queda dos dinossauros, de terem acompanhado os elasmossauros pelos oceanos afora, de terem respirado o mesmo ar que os mamutes e de terem visto as últimas focas-monge-do-caribe extinguirem-se, os caranguejos-ferraduras defrontaram-se conosco. As quatro espécies que existem no planeta já estão ameaçadas de extinção, em parte por conta do uso biomédico, mas também por razões bem mais comuns, como a poluição e seu uso como isca para peixes.

Como a demanda pelos testes deve continuar aumentando, deveríamos estar preocupados com a sobrevivência dos caranguejos-ferradura, mas não é esse o caso. Apostamos sempre na tecnologia, que virá, que resolverá...

Aposta na tecnologia…

Além de ser uma aposta perigosa, uma rápida olhada nos números ligados às novas entidades químicas que foram registradas nos últimos 40 anos mostram que mais de 70% são substâncias naturais ou derivadas da natureza, ou ainda sintéticos baseados em produtos naturais. Ou seja, eles vieram diretamente da natureza ou usando a natureza como inspiração. Os novos materiais que vêm surgindo mostram essa mesma tendência: a natureza como inspiração ou seus componentes usados diretamente (um bom exemplo pode ser encontrado aqui). As soluções baseadas na biomimética, que mimetizam ou se inspiram na natureza, porém, só podem acontecer se houver natureza. Se a diversidade estiver presente.

O ano que não vai acabar

E assim passou 2020, o ano que certamente não vai acabar. O ano em que vimos que o mundo poderia parar e tomar outros rumos, mas escolheu continuar trilhando os mesmos caminhos. O ano em que observamos a indiferença de uns em relação ao sofrimento e à morte de outros se agudizar. O ano em que nos demos conta que nem mesmo o perigo de morte é suficiente para mudar o mundo.

Mas também o ano em que entendemos, por mais que nos esforcemos para esquecer, que não somos o centro de nada. Copérnico nos mostrou que não somos o centro do universo, Darwin revelou que somos apenas uma espécie entre muitas outras e 2020 nos jogou na cara que não somos sequer o centro de nós mesmos. Dependemos de milhares de outras espécies, cada um de nós não é sequer um, senão um conglomerado de organismos que juntos constitui cada um de nós.

Se 2020 vai seguir conosco, que ele siga sinalizando que não é de uma posição central que as soluções emergem, elas nascem das periferias, das bordas, da diversidade e do plural.

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