No balanço da Rede

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Nurit Bensusan, assessora do ISA e especialista em biodiversidade

Nesta pandemia nossa de cada dia, é preciso descobrir bolsões de oxigênio para respirar e poder acreditar que há possibilidades, mesmo quando não parece. É preciso procurar um lugar onde seja possível se balançar, acalmar o coração e achar, nesse balanço, algum alento, alguma alegria e, talvez, alguma esperança. Um desses lugares é uma rede, a Rede de Sementes do Xingu.

Nas tramas dessa rede, que existe há 13 anos, estão mais de 6,6 mil hectares de áreas recuperadas na Bacia do Rio Xingu, Araguaia e outras regiões do Cerrado e da Amazônia, além de 249 toneladas de sementes de mais de 220 espécies nativas e 568 coletores de sementes. Esse balançar já gerou R$ 4 milhões, repassadas diretamente para as comunidades.

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Amanda Horta abre seu diagnóstico socioeconômico antropológico da dinâmica de funcionamento da Rede de Sementes do Xingu com as seguintes palavras:

"Quando eu deixava a casa onde me hospedei na aldeia Moygu do povo Ikpeng para coletar sementes florestais com outras mulheres –- outras famílias --, Kuripó me dizia: “Oenman Menen”. Literalmente, a expressão significa “vê seu caminho”. A tradução mais acertada, porém, segundo minha amiga Kuripó, seria “cuidado”. Aos poucos eu perceberia ser essa a grande máxima da existência Ikpeng, pois o mundo que eles habitam é habitado também por uma miríade de outros seres e cada ato -- na aldeia, na floresta, ou em qualquer outro lugar -- pode sempre vir a desagradar alguém. Por isso, é preciso ver o seu caminho, conhecer as regras, atentar-se aos sons, aos cheiros, aos astros. É preciso estar atento e encontrar a boa medida entre a produção da vida (os alimentos vindos da roça, da caça e da coleta) e da morte (a vingança dos espíritos- donos dos animais caçados, dos vegetais arrancados, dos frutos extraídos)."

Nesse momento, quando fica mais evidente que a pandemia nossa de cada dia não é uma casualidade ou azar e sim o resultado de como lidamos com a natureza -- e que não é possível continuar vivendo da mesma forma sem consequências nefastas -- é quando o cuidado se faz essencial. Quando não há mais espaço para se apostar que essas consequências não vão desabar sobre nossas cabeças tragicamente, na forma de surtos de doenças mortais ou de eventos climáticos extremos, nem que aparecerá uma solução tecnológica miraculosa para tudo isso, é quando se torna fundamental enxergar o caminho, respeitar os outros seres que compartilham o planeta conosco, entender as regras e conseguir encontrar a boa medida entre a produção da vida e da morte. Mas é raro…

Para a maioria das pessoas é muito difícil imaginar outros jeitos de viver. Nosso imaginário está tão colonizado que só conseguimos acreditar que tem um jeito certo de estar no mundo, mas que, no entanto, parece ser completamente errado. Como poder ser certo se destrói outros mundos, acaba com a floresta, ignora a natureza, altera o clima e cria condições para surtos de doenças mortais? Esse jeito de estar no mundo não respeita a diversidade, não sabe a boa medida entre a produção da vida e da morte e vai certamente nos destruir. É preciso apostar em outras alternativas, é preciso acabar com o preconceito, a discriminação e o racismo que condenam comunidades locais, agricultores familiares e povos indígenas ao descaso, ao desrespeito e à morte.

Rede de diversidade

É aqui que a experiência da Rede de Sementes do Xingu se torna ainda mais fundamental, ainda mais visceral: um exemplo vivo de outra forma de estar no mundo. Inspirado na diversidade, mostrando que floresta não é um mero coletivo de árvores, assim como a restauração florestal não se faz apenas somando coletores e plantios, sem identidade ou peculiaridades.

Os envolvidos na rede fazem parte de grupos considerados historicamente periféricos, o que faz com que a reprodução de seus modos de vida seja uma luta constante. Estar na rede significa mais renda, com certeza, mas significa ter mais voz, ser alçado a protagonista de seu próprio destino e ressignificar o que é periférico e central. Como é possível que a floresta e seus povos estejam nas margens do mundo? Nas bordas da humanidade, como diz Ailton Krenak. O que poderia ser mais central? Esse mundo nosso de cada dia prenhe de crises, doenças e mortes?

O trabalho da rede é fundamentalmente reconstruir lugares por inteiro, devolvendo-lhes a alma ao restabelecer o espaço para que os espíritos voltem a ali habitar e, com eles, pequenos insetos, cogumelos, pássaros, minhocas, raízes, lagartixas e lagartas, libélulas e aranhas -- vida por inteiro.

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A técnica mais utilizada pela rede é a “muvuca”. Trata-se de uma mistura de sementes de diversas espécies para ser plantada de uma vez, mimetizando a forma pela qual a natureza recompõe seus ambientes destruídos. A muvuca é uma ode à diversidade, uma inspiração que se traduz na forma como a rede trabalha, propiciando que todos possam agir de acordo com seus modos de fazer, transformando a todos -- índias e índios, agricultores e agricultoras, coletoras e coletores, técnicos e técnicas, fazendeiras e fazendeiros, pesquisadoras e pesquisadores em agentes -- em componentes de um mosaico de formas de estar no mundo, que resulta em uma nova floresta.

É sobre de costurar as duas pontas que dividem o abismo que parece separar natureza e cultura, como se pudesse haver alguma, qualquer, cultura humana sem não esteja umbilicalmente ligada à natureza. Mostrar a linha e a agulha para esse cosimento, nesse momento, saber que pontos dar, é uma demonstração de força, de criatividade, mas mais que isso é uma cunha que permite abrir um espaço para sonhar com um outro futuro.

Trata-se, ainda, de entender onde é o centro do mundo, saber que o presente é uma máquina de fazer futuros e que não existirá amanhã sem que a floresta e seus povos sejam protagonistas centrais. Esse é um momento extraordinário da humanidade: é o momento do avesso do avesso do avesso, onde se admite que essa civilização fracassou, mas que muitos ainda lutam para preservar seus privilégios e não admitir suas responsabilidades.

O alimento que tanto precisávamos neste momento era justamente andar na contramão, ou seja, restaurar quando a regra é destruir, semear diversidade quando a norma é promover as monoculturas agrícolas, da pecuária e da mente -- clamar que é possível quando tudo parece dizer que é impossível. Por esse pequeno espaço, aberto com a cunha do trabalho da rede, poderão passar florestas inteiras, outras possibilidades de estar no mundo e, se tivermos sorte, um bom punhado de esperança.

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