Posição brasileira para COP-25 é para lá de vergonhosa

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Márcio Santilli

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai chefiar a delegação brasileira na fase ministerial da COP-25, que começa no dia 2/12, em Madri, Espanha. Essa reunião da ONU, sobre a emergência climática global, deveria se realizar no Brasil, que abdicou da oportunidade de sediá-la após a posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República. Foi transferida para Santiago, Chile, que também abdicou devido ao levante popular no país.

Salles vem anunciando, reiteradamente, que o foco da delegação brasileira será a cobrança de dinheiro devido, segundo ele, pela comunidade internacional ao Brasil em virtude da execução de projetos no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O governo brasileiro estima em R$ 120 bilhões o valor que deveria receber por serviços ambientais já prestados. Porém trata-se de uma presunção infundada, segundo todos os especialistas, pois o Ministério do Meio Ambiente (MMA), para chegar a este número, parte de supostas regras que, no entanto, não foram previamente acordadas com os supostos financiadores. Uma postura um tanto quanto oportunista da parte de quem se recusou a hospedar a própria Conferência da ONU sobre mudanças climáticas.

Mas o pior o governo leva na outra mão: o aumento explosivo do desmatamento na Amazônia, de 9.762 km2. Além do significativo incremento de 29%, entre agosto de 2018 a julho de 2019, na comparação com o período anterior, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, de agosto deste ano até agora, o Brasil já estourou a meta que deveria cumprir, até 2020, por força da Política Nacional sobre Mudança do Clima (3.925 km²), distanciando-se também das metas subsequentes, no contexto do Acordo de Paris, para 2025 e adiante.

Ao anunciar o dado preliminar oficial sobre desmatamento deste ano, o maior aumento de um ano para outro deste século, Salles tentou transferir a responsabilidade para governos anteriores. No entanto o presidente Bolsonaro, que não apresentou qualquer medida para frear a escalada criminosa – pelo contrário, a incentivou reiteradamente em discursos públicos, além de cortes orçamentários e o desmonte da política ambiental –, declarou que “o desmatamento nunca vai acabar, porque é cultural”. Na verdade, cerca de 90% do desmatamento é ilegal.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não perdeu a oportunidade de também barbarizar. Disse que “a agricultura brasileira não tem nada a ver com a Amazônia”. Ao que parece, a “agricultura” é tão irresponsável que não quer nem ver o que está acontecendo na Amazônia. Não explica como a fronteira agrícola avança e rasga a floresta, mostra o completo descompromisso do governo e dos grandes agricultores em deter o crime organizado, mesmo sabendo dos constrangimentos e prejuízos potenciais para as negociações comerciais em curso, além de ignorar o aumento das emissões brasileiras de gases de efeito estufa e do seu impacto sobre o clima, inclusive sobre o ciclo das chuvas que abastecem as regiões agrícolas do país. Aliás, ela disse isso enquanto seus pares comemoram a liberação do plantio de cana na Amazônia, o que, segundo especialistas, tende a constituir nova pressão para a expansão da fronteira agrícola no bioma.

A posição oficial brasileira envergonha o Brasil, mostra o déficit de caráter que assola o governo e o rumo desastroso da sua política externa. Despreza a comunidade científica brasileira, abandona o Fundo Amazônia e agora alega que precisa de recurso financeiro para combater o desmatamento, desconsidera os esforços de empresas brasileiras que querem fazer a sua parte no enfrentamento da crise climática, assim como as preocupações que permeiam a sociedade como um todo. Cara de pau! Na COP-25, Bolsonaro será candidato ao prêmio “Fóssil do Dia”, atribuído por organizações civis aos principais vilões do clima.

Ainda bem que o Brasil também estará representado por outros atores institucionais, como governadores e dirigentes do Congresso, que não aprovam a postura anticivilizatória da delegação oficial, num contraponto necessário para afirmar perante o mundo que aquela não é a verdadeira posição brasileira.

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