Bye bye Brasil: a última ficha caiu

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Nurit Bensusan, assessora do ISA e especialista em biodiversidade
“Bye Bye Brasil é o meu sonho sobre isso que se convencionou chamar de realidade brasileira. Ou seja, mais uma modesta versão pessoal, uma das muitas versões possíveis sobre alguns aspectos do que ocorre com o mundo e as pessoas mais próximas de mim. [...] Só que agora a mágica do cinema, o mistério da sua luz, captura um país em transe, onde convivem no mesmo espaço/tempo o moderno e o arcaico, a riqueza e a pobreza, a selva e a poluição, a comédia e a tragédia, numa situação-limite que pode estar anunciando a civilização do século XXI.

Porque, embora o coração tente me dizer que o apocalipse já começou, é preciso acreditar que ele é inevitável e que a soma de cada uma de nossas esperanças será o seu principal bloqueio. Se cada um de nós acreditar firmemente que a autodestruição não é uma fatalidade da história humana, talvez aí comecem a dar certo as mágicas trabalhadas pelos alquimistas dos anos 1960. Talvez aí a ideia brilhe vitoriosa sobre a mesquinhez dos interesses.”

Cacá Diegues, sobre Bye bye Brasil, em 3 de fevereiro de 1980, no Jornal do Brasil, duas semanas antes da estreia do filme

A última ficha caiu e o Brasil segue em transe. De 1980, ano do lançamento do filme Bye bye Brasil, até este espantoso 2020, o país acreditou, desacreditou, somou esperanças, reduziu-se a desilusões, afastou-se do apocalipse e jogou-se na autodestruição. A obra de Cacá Diegues deu aos brasileiros um vislumbre da gigantesca diversidade de formas de viver existente sob esse mesmo parangolé colorido que é o Brasil. Um lugar onde o arcaico esbarra no moderno, o urbano perde-se na floresta, a farsa compete com o fake e onde todo mundo é índio, exceto quem não é.

Um filme dedicado ao povo brasileiro do século XXI. Século que chegou prenhe de esperanças em um país que começava a se reinventar depois da ditadura, que chegou a acreditar que tinha futuro e que ele incluiria todos. Um povo que chega ao fim da segunda década do novo século numa nação onde a cada dia o inadmissível torna-se corriqueiro, o assombro assume cores de normalidade e a desesperança é o pão nosso de cada dia.

Veja abaixo live com Cacá Diegues, Luís Bolognesi e Nurit Bensusan promovida em junho

Sertão e Amazônia esquecidos

Bye bye Brasil conta a trajetória da Caravana Rolidei, composta por dois artistas mambembes, a quem se junta outro casal, que se apresentam em pequenas cidades e vilas do sertão do Nordeste, nos meados década de 1970. Em busca de novos lugares sem televisão (de modo a garantir público para seus shows), seguem para a Amazônia, em direção a Altamira (PA).

O filme mostra os efeitos da integração nacional, preconizada pela ditadura civil militar, inaugurada em 1964 e no poder à época. A obra revela como o sertão e a Amazônia continuavam esquecidos quando o assunto era políticas públicas e melhores condições de vida, mas não quando se tratava de alcançá-los com as imagens do que seria – ou deveria ser – o país, veiculadas pelas novelas na TV. Imagens de uma modernidade limitada e conservadora, americanizada, distante de suas origens. A Caravana Rolidei cruza estradas na Amazônia, encontra índios, garimpeiros e todo tipo de gente em busca de oportunidades, para desembocar em Altamira.

Acoplado a uma canção de Chico Buarque com o mesmo nome, o filme trouxe à baila muitas questões candentes sobre o país - que seguem tão urgentes como eram há 40 anos. O contraste do urbano e do rural no Nordeste; a tela, em suas novas e múltiplas versões, como mesmerizadora maior do povo brasileiro; o eterno sonho de melhorar de vida; a ocupação da Amazônia e o dilema do que o Brasil quer de seus povos indígenas.

De 1980 para cá, parte grande do rural transformou-se em urbano, mas não em cidades, e sim em periferias. Os contrastes que existiam nas distâncias geográficas seguem existindo, aproximados pela dinâmica urbana de centro e periferia, de quem acredita ser elite rica e branca e de quem sabe ser pobre e preto. Cidades inchadas, de onde pessoas escorrem pelas bordas sem direitos, teto ou futuro.

Em um caleidoscópio onde tudo muda a cada momento, mas permanece essencialmente igual, os dilemas da ocupação da Amazônia são idênticos, apesar de haver menos floresta, menos indígenas e menos esperança. O futuro da Amazônia é a mineração, diz um personagem de Bye bye Brasil, mas a frase está na boca de muitos políticos hoje, 40 anos depois. A Altamira do filme, já entulhada pelos caçadores de sonhos da Transamazônica, pode ser contrastada com a Altamira da hidrelétrica de Belo Monte, avolumada de pesadelos, dor, sofrimento e muito mais gente. Mas o contraste é apenas superficial. Se, em algum momento, acreditou-se na floresta e seus povos como arautos de um futuro possível, tal devaneio já foi deixado de lado e a marcha rumo ao fim da floresta e de seus povos está sendo retomada com ardor. Os índios de Bye bye Brasil, deslocados pela Transamazônica, são os índios de hoje, expulsos, desrespeitados, enganados e vilipendiados por Belo Monte, por outros grandes projetos de infraestrutura e pelo descaso com sua sobrevivência em plena pandemia de Covid-19.

Qual Brasil? Qual globalização?

Se a globalização que se revela, até mesmo no Brasil profundo, traz uma certa nostalgia, expressa no filme e na canção, 40 anos depois ela está plasmada tanto nos que encontraram nela ecos para seus sonhos, como para aqueles que ficaram de fora e perseguem um avesso do avesso. O país se traduz em bordas: bordas da floresta, onde os bois encontram os morcegos; bordas das cidades, por onde escorrem sonhos; bordas do Pantanal, onde o fogo destrói a exuberância, e bordas dos abismos que se multiplicam, pelo país afora, como armadilhas sem fim.

Qual é o país do qual Bye bye Brasil se despede? Em parte, talvez, o país subalternizado pela ditadura. Mas possivelmente também vários outros brasis. Um país onde houve espaço para acreditar numa "brasilice", um lugar com características próprias, cuja melhor expressão foi o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, que abria a possibilidade de pensar um país que invertesse o projeto colonial. Talvez um Brasil onde a Amazônia sequer existia, ou existia como "inferno verde'", como um não lugar, espaço a ser desbravado, conquistado, domado, civilizado, entristecido e acinzentado. Ou ainda, um Brasil onde o colonizador nunca penetra, persistindo no litoral a ver navios e a sonhar bandeiras...

Como um grito primevo que ecoa desde que as caravelas europeias aqui aportaram, o futuro se esvai entre nossos dedos, mais uma vez. Ignoramos possíveis roteiros, distanciamo-nos do transe da Terra, fazemos mapas do grande sertão, escondemos Macunaíma atrás do cortinado e viramos a cara para Xangô. Morremos no ano passado e neste morremos mais.

“Agora a gente vai para Rondônia. Vamos fazer show para índios, eles nunca viram nada parecido: civilização” A fronteira, representada pelo novo destino da Caravana Rolidey, Rondônia, já virou serragem e desilusão. Pouco resta da floresta por lá e os povos indígenas, em contato com a pior faceta dos brancos, seguem por labirintos sem fim.

O Brasil segue por aí... em caravanas rolideis, naqueles que viajam porque precisam, nos que voltam porque amam, nos que desistem de si para serem outros e nos que sempre esperam. Se Bye bye Brasil retratava um Brasil que acabava, ao mesmo tempo que outro nascia, como disse Cacá Diegues, o momento atual também mostra um país que ficou para trás, ao mesmo tempo que um Brasil desconhecido emerge. Afinal, esse país nunca foi para principiantes...

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