Os índios arrancaram a tampa da panela de pressão

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Márcio Santilli

O que o Poder faz com a minoria, em nome da maioria, é indicador da sua própria essência, que se mostrará mais dia, menos dia, atingindo todos e a si mesmo, ainda que de forma tardia.

Estamos falando de governos que investem bilhões em marqueteiros, agências, pesquisas e campanhas de mídia, quase todos muito bem avaliados e eleitoralmente competitivos, independentemente de partido ou proposta.

A aprovação amplamente majoritária naturaliza a decisão de governo de destruir os rios amazônicos para atender à demanda por energia barata do Brasil urbano e exportador. E a gloriosa participação do agronegócio na balança comercial justifica o surto ruralista que pretende, sempre naturalmente e de acordo com o suposto desejo da maioria, destruir os direitos territoriais indígenas inscritos na Constituição.

Também faz parte da natureza a corrupção nas obras públicas. “Sempre houve!”, diria o espírito impoluto de Juscelino, que bancou Brasília politicamente. Ou como disse a ministra do Planejamento recentemente: se empreiteiras corruptoras forem excluídas das novas licitações, não haverá quem faça as obras, que ela considera fundamentais para o desenvolvimento da Nação.

Assim, para o PAC e para as obras da Copa de 2014, não há que se fazer licitação ou obter licença ambiental, e os custos podem ser extravagantes, pois, mesmo com poucas escolas e hospitais, além de milhões vivendo nas ruas, o que estará em jogo é a felicidade do povão.

Além de natural, também é super-racional que aumentem as passagens dos ônibus, ainda que o serviço continue péssimo, pois existe a inflação. São constatações suprapartidárias, amplamente referendadas por todos os comentaristas do mercado, sendo incrível que haja gente – e, ao que parece, aos montes – disposta a ir para as ruas reivindicar o cancelamento dos aumentos e um transporte público gratuito.

E aí, é claro que, no clima de desordem pública, infiltram-se agentes de todas as causas esdrúxulas que não foram acolhidas nem pelos sindicatos da CUT, nem pelos da Força Sindical. É o Brasil horizontal, sem cara e com todas as causas, que ocupa avenidas, desafia a polícia e se enoja dos partidos que compuseram esta natureza política morta. Escancaram a necessidade – e a falta – de mecanismos de democracia direta para que a sociedade influa nas políticas de transportes, nos preços das obras, na demarcação das terras indígenas e na proteção do meio ambiente.

O economicismo reinante é muito sólido politicamente enquanto mantém o fôlego para distribuir benesses. Mas uma oscilação até ligeira da economia pode levar a uma inversão dos humores, que não foram nutridos por projetos ou desafios, mas somente pelo soldo em falta.

Prestem atenção nos movimentos abruptos e nos ruídos estranhos que os índios produzem, mesmo supondo que haja governos populares, porque eles costumam quebrar protocolos e liberar outros tantos roncos, revelando, repentinamente, um clima de ampla saturação política na bendita sociedade.

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