Visões de Uttarakhand: adeus, Índia!

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Nurit Bensusan

No último relato sobre sua viagem à Índia, a assessora do ISA e especialista em Biodiversidade Nurit Bensusan explica porque a Amazônia e o Himalaia podem ser tão parecidos e diferentes ao mesmo tempo


Conheci vilas, montanhas e mulheres. Vi escolas, templos e terraços. Passei por pontes, desfiladeiros e lojinhas de beira de estrada. Respirei em campos de amaranto, de arroz e de milhete. Comi chapati, lentilhas e idli. Apreciei o Bhagirathi, o Mandakini e o Ganges (veja galeria de fotos ao final do texto).

Hoje se encerra minha jornada pelo Himalaia indiano. Descobri aqui que as mulheres fazem todo o trabalho da agricultura e pouco podem, mas podem mais do que a maioria das outras mulheres no resto da Índia. Conheci professores que trabalham anos sem salário para não deixar as crianças sem escola. Encontrei mulheres que além de cultivar grãos e vegetais, são capazes de achar tempo para tecer panos, xales e cobertores. Tudo humano: igual à Amazônia e ao mesmo tempo completamente diferente. O Himalaia é totalmente distinto do Brasil, mas ao mesmo tempo tão parecido...

Um trabalho bem interessante aqui é o resgate e valorização dos alimentos esquecidos, como por exemplo o milhete, também chamado no Brasil de painço. É um cereal usado, no Brasil, para alimentação animal e que era cultivado em muitos lugares do mundo também para alimentação humana. Nos países africanos de língua portuguesa continua a ser cultivado com nomes como mexoeira e massango. O milhete deve ter tantas variedades como nomes, mundo afora...

Apesar do resgate do milhete e suas inúmeras variedades, os habitantes de Uttarakhand gostam mesmo é de arroz. Não há refeição por aqui sem arroz e quem acha que arroz e feijão é uma mistura típica brasileira ficaria surpreso ao ver quantas vezes essa combinação compõe o prato principal aqui, ao lado do arroz com lentilhas ou ainda do arroz com uma mistura de grãos de lentilhas e feijões de variedades distintas.

O arroz também está presente como oferenda nos templos dessa região. Em Uttarakhand, existem diversos roteiros de peregrinação do hinduísmo. Um deles está ligado às cinco confluências entre rios que se juntam para, no fim, formar o Ganges, rio que segundo os indianos tem mais de mil nomes. Esse circuito se chama Panch Prayag, um nome em sânscrito para as cinco confluências sagradas criadas, segundo a mitologia hinduísta, pelo deus Shiva que conteve assim a enorme força do Ganga, um outro nome do Ganges, quando esse estava descendo a Terra. Os peregrinos, que são muitos por aqui, devem tomar uma espécie de banho ritual em cada uma dessas confluências. Paralelamente, como que para comprovar os diferentes momentos que vive a Índia, é possível fazer rafting nos mesmos rios. Ainda assim, rituais e tradições gozam de enorme prestígio.

Deixo a Índia com três certezas: 1) temos muito em comum com esse país e muito que aprender com os indianos também; 2) avançamos, no Brasil, muito nas últimas décadas e poderíamos nos tornar um exemplo de país diverso, com políticas públicas e soluções inovadoras para muitas questões que se colocam tanto para a Amazônia como para o Himalaia; e 3) com tantos rios, com tantas confluências tão maravilhosas que só podem ser sagradas, o Brasil merece um futuro melhor.

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