X-Tudo: uma rebelião contra o vazio

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Márcio Santilli

O título acima poderia ser uma expressão depreciativa para se referir à pluralidade das reivindicações que emanam das manifestações de rua das últimas semanas. Numa concepção política clássica, o foco seria fundamental para potencializar o efeito político da mensagem e as suas chances de influenciar decisões ou mudar o rumo das coisas.

Mas não se trata de depreciação, ao contrário, pois o “tudo” é o “X” da questão, pela simples e boa razão de se contrapor claramente ao nada. É uma forma potencialmente unitária de questionar o vazio político monumental gerado pela diluição de toda e qualquer referência programática ou doutrinária e pela adesão e cooptação das principais forças políticas do pós-ditadura ao modo de ser corrupto do sistema.

As pessoas que têm ido às ruas não querem a naturalização dos sofridos avanços políticos e sociais conquistados nesse período como se fosse “o possível”, numa lógica maniqueísta do tipo “é isto ou andar para trás”. Como se o misto-quente do bolsa-família com empreiteiras de obras públicas fosse uma espécie de fim da história.

X tudo, sim, porque as pessoas querem discutir tudo que for efetivamente importante para a melhoria das suas condições de vida e do padrão civilizatório do país. Querem saber de objetivos e metas para as políticas, do que a redução do valor das passagens dos ônibus é apenas uma referência simples e essencial, tendo, por isso mesmo, exercido um poder catártico no ponto certo da maturação de múltiplas frustrações.

Por isso mesmo, as manifestações podem acolher, inclusive, bandeiras antagônicas no que propõem, mas aliadas quanto à necessidade de propor. Significa dizer que também valem as contradições francas e explícitas, como condição para se chegar a alguma resultante, desde que tenha conteúdo e clareza.

Com o seu majestoso sentido pacífico, as manifestações tiveram até que acolher a sua própria antítese, como pequenos grupos dispostos a demonstrações de violência. E outros pretendentes a alguma manipulação corporativa ou partidária ou, simplesmente, candidatos a surfar pelas ondas das ruas à procura das suas próprias identidades políticas perdidas.

Não há dúvida de que há repulsa à podridão do sistema político, das alianças fundadas na manipulação de dinheiro público e mal explicadas, como se “governabilidade” fosse. Mas ninguém vai tolerar que a discussão sobre a reforma política sirva de biombo protelatório para continuar a esculhambação política habitual no cotidiano, como que insinuando que honestidade na politica só seria possível num sistema imaginário.

Não se iludam com a recorrente retórica de que “o Brasil mudou”, pela só ocorrência das manifestações. A proliferação de propostas de plebiscitos, referendos e constituintes é a reverberação da cacofonia resultante da falta de decisão sobre todas as pendências políticas importantes. As votações espasmódicas ocorridas no Congresso nesses últimos dias, mais do que tudo, são indicativas de gavetas cheias, e não vazias.

O Brasil oficial só chacoalhou, mas não mudou. Ouriçou-se em um jogo de aparências que pode resultar apenas na desmobilização das emergências, para que tudo volte a ser como dantes “no Quartel de Abrantes”, com o acréscimo de uma ilusão de superação das causas da insatisfação em algum ponto incerto do futuro.

X tudo! E para começar JÁ! Com pequenas-grandes atitudes, como dizer verdades e ouvir contrariedades, o que não custa ao orçamento e independe de votos no Congresso. Resgatar esperanças, sinalizar decência, reconsiderar posições precárias ou arrogantes e tudo mais...

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