Bosques, árvores gigantescas, nascentes e igarapés tornam a caminhada menos dura

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Moreno Saraiva Martins e Estevão Benfica Senra

22 de setembro de 2013 - quarto dia

Moreno: “Se ontem fomos acordados com a caça de um cujubim, hoje fomos acordados por uma vara de queixadas ao lado do acampamento. Logo que escutou, Ivan Xirixana Yanomami pulou da rede. Ao invés da espingarda sacou a máquina fotográfica e foi tentar fotografá-las. Infelizmente não conseguiu. Ele não foi caçá-las pois uma queixada ou porco do mato pesa mais de 30kg, e não seria possível carregar. Durante o dia de caminhada escutamos no caminho mais duas varas de porcos muito próximas de nós. Porcos do mato são perigosos, pois podem ser muito agressivos quando confrontados, e atacar pessoas. A proteção contra um ataque de queixadas é subir em uma árvore e esperá-los ir embora.Começamos a caminhada ás 9h da manhã. Avançamos aproximadamente 6 km até às 15h30h, quando paramos para armar acampamento. Durante o dia não conseguimos encontrar nenhuma caça pequena. Apenas avistamos ao longe um bando de macacos quatá, mas Ivan Xirixana Yanomami não conseguiu matar nenhum. Logo que terminamos de montar acampamento avistamos dois cujubins muito próximos a nós, e Ivan Yanomami conseguiu matar um deles. Jantar de última hora garantido. E felizmente mais um dia sem calabresa".
(Ivan adora imitar passarinhos, e para ele os cantos são na verdade risadas provocadas pela nossa presença desastrada na floresta. Ele exerce uma liderança caótica bem ao gosto ameríndio.)

Hoje em nossa caminhada conseguimos atingir a linha seca da divisa da TI Yanomami. Em 2002 os limites da TI foram aviventados, e onde havia linha seca foram feitas picadas de alguns metros de largura. Mais de 10 anos depois da abertura das picadas, o mato nesses locais é especialmente fechado devido à regeneração da floresta - em sua sucessão. primeiro nascem espécies que deixam o caminho intransitável. Fomos então margeando a linha seca e por vezes cruzando-a”.

Estevão: “A linha seca fica em uma ampla área plana entrecortada por nascentes e igarapés. Com exceção dos trechos de mata secundária que marcam o limite da Terra Indígena, a região por onde caminhamos possui sub-bosques relativamente limpos, e de vez em quando topamos com árvores gigantescas e enormes sapupemas. Tais características tornam a caminhada menos dura, e por isso conseguimos render bem mais do que ontem. Porém, já no final, meu corpo sentiu o cansaço e a mochila parecia cada vez mais pesada. E, para piorar, no acampamento, subindo do igarapé depois de lavar a roupa, bati o pé contra um toco e ganhei um inconveniente corte na sola, que lateja neste mesmo instante".

Moreno: “No acampamento, descansando, me vem à cabeça o quanto nós, não indígenas, somos inábeis para nos movimentar na floresta. Às vezes mesmo levantar da rede e andar pelo acampamento é um esforço enorme, pois o chão é todo irregular, com tocos por toda a parte e galhos em todos os lugares, forçando-nos a nos abaixar e desviar a todo momento, o que nos custa muita energia e pede muita atenção, que nem sempre temos depois de um dia de mais de seis horas de caminhada intensa”.

A série de expedições ao limite leste da TI Yanomami, iniciada em outubro do ano passado, e integrada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), HAY (Hutukara Associação Yanomami), e ISA e agora pela Polícia Ambiental e pelo Bope tem o apoio da Fundação Rainforest da Noruega.

Para saber mais

Próximo relato (23 de setembro de 2013) > Carrapatos, ponte improvisada e trilhas mínimas desafiam os “brancos” da expedição

Relato anterior (21 de setembro de 2013) > Grupo encontra acampamento abandonado e vestígios de passagem de pessoas

Linha do tempo da viagem com galeria de fotos e outras informações > http://isa.to/1ag7MYF

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