Em Roraima, cooperação é a melhor solução no combate à Covid-19

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Por Marcos Wesley de Oliveira

Artigo originalmente publicado na Folha BV

A cooperação entre o governo e as ONGs está fazendo a diferença no combate à Covid-19 em Roraima, diminuindo os impactos negativos da pandemia sobre a população. Organizações como Hutukara Associação Yanomami, Expedicionários da Saúde (EDS), Médicos Sem Fronteiras e Instituto Socioambiental (ISA) atuaram em parceria com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, Yanomami e Leste (Dsei-Yanomami e Dsei-Leste), elaborando planos emergenciais e doando equipamentos, EPIs, testes, alimentos, ferramentas e itens de higiene.

Em abril, a Covid-19 fez sua primeira vítima entre os indígenas de Roraima, o jovem Yanomami Alvanei Xirixana, e começou a se espalhar pelas aldeias e na Casa de Saúde do Índio (Casai), em Boa Vista. Na tentativa de evitar o caos que se anunciava para as Terras Indígenas no Estado, iniciou-se uma profícua colaboração entre os Dsei e as ONGs. Em maio, a ONG Expedicionários da Saúde apresentou aos Dsei um plano de instalação de Uapis - Unidades de Atendimento Primário Indígena - em pontos estratégicos dentro das Terras Indígenas. A proposta visava descentralizar o tratamento ambulatorial a fim de desafogar o afluxo de pacientes aldeados em busca de socorro na capital Boa Vista, cuja limitada capacidade de internação estava em vias de colapsar.

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As Uapis contam com concentradores de oxigênio, oxímetros, gerador de energia, tanques de oxigênio, termômetros de temperatura infravermelho, medidor digital de pressão, redes, cobertor e alimentação para os internados. Os Dsei incorporaram as Uapis em sua estratégia de enfrentamento à Covid-19 e se comprometeram com a instalação de 08 unidades na Terra Indígena Yanomami e 18 nas Terras Indígenas do leste de Roraima. O EDS também ofereceu formação aos profissionais de saúde e todos os equipamentos foram doados por EDS, Hutukara e Isa.

Em equipamentos, Hutukara e ISA doaram ao Dsei-Yanomami 75 concentradores de oxigênio, 36 cilindros de oxigênio, 06 geradores de energia, 50 oxímetros e 50 termômetros infravermelho. Para o Dsei-Leste foram doados por EDS e Isa 36 concentradores de oxigênio, 40 oxímetros e 40 termômetros infravermelho.

Também foram doados aos Dsei e comunidades 300 escudos faciais, 10 kits com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) completos, 120 máscara N-95, 555 testes rápidos, 1500 máscaras de algodão, 70 kits de material de limpeza, 254 kits de higiene pessoal e 150 carotes. Ainda foram doados 1700 escudos faciais para o governo do estado e 400 para a prefeitura de Boa Vista.

Para garantir a segurança alimentar dos indígenas em suas aldeias, as organizações Hutukara e ISA enviaram para as comunidades mais de 800 kits com alimentos, devidamente higienizados e adaptados à dieta local. Ainda foram enviadas para algumas comunidades Yanomami ferramentas para o trabalho nas roças. Essas doações fizeram parte da estratégia de evitar que os indígenas se deslocassem para os centros urbanos em busca de alimentos industrializados, onde ficariam expostos ao vírus.

Para diminuir o contágio por Covid-19 na Casai, a ONG Médicos Sem Fronteiras, a convite do Dsei-Yanomami, propôs um plano de uso dos espaços e de circulação dos pacientes e acompanhantes, restringindo o acesso aos espaços comuns e fortalecendo o isolamento necessário. A organização Médicos Sem Fronteiras está presente em Roraima desde 2018, contribuindo no atendimento aos venezuelanos e possui experiência mundial no enfrentamento a epidemias.

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Ainda visando melhorar as condições na Casai, o Dsei, com o apoio da Funai, transferiu para o Clube do Servidor, no bairro Buritis, os pacientes que testaram positivos, mas que não apresentaram sintomas, com o intuito de isolá-los para não transmitirem o vírus aos demais. O ISA apoiou na reforma e adaptação do Clube do Servidor, além de doar redes, cordas e cobertores.

O total de doações das ONGs para os Dsei e comunidades, em tempos de pandemia, beira 1,5 milhão de reais e será ainda maior até o final do ano.

O enfrentamento à Covid-19 é um dos maiores desafios dos últimos tempos para Roraima. O estado apresenta o maior número de mortes pelo vírus entre os estados brasileiros, com 96,1 óbitos a cada 100 mil habitantes. A parceria entre os órgãos do governo e as organizações da sociedade civil (ONGs) contribuiu para que o número de mortes não fosse ainda maior.

A cooperação entre governo e ONGs, que tem contribuído no combate a Covid-19, pode contribuir também para o desenvolvimento sustentável de Roraima, favorecendo iniciativas de geração de renda baseadas na valorização de nossas riquezas naturais e culturais e nos produtos de nossa agrobiodiversidade. Agora, mais do que nunca, é necessária a colaboração de todos os setores da sociedade, não apenas para a superação desta crise de saúde pública, mas também para a recuperação da economia no pós-pandemia.

* Assessor do Instituto Socioambiental (ISA)

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