Expedição Rio dos Veados registra as pressões na fronteira leste da TI Yanomami

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Moreno Saraiva Martins e Estevão Benfica Senra

O antropólogo Moreno Saraiva Martins e o geógrafo Estevão Benfica Senra, do ISA, fazem um relato do primeiro dia de expedição. Veja o roteiro no mapa abaixo.

19 de setembro de 2013 – quinta-feira

Moreno: “Iniciamos hoje mais uma etapa da série de expedições que pretende percorrer os 750km do limite leste da Terra Indígena Yanomami. No ano passado uma parceria entre a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o ISA iniciou esse percurso com o objetivo de obter informações detalhadas desse trecho da fronteira da TI Yanomami que se caracteriza por sofrer crescentes pressões do entorno. Assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Instituto de Terras do Estado de Roraima, pescadores, madeireiros, grileiros e garimpeiros ameaçam constantemente o direito do usufruto exclusivo que os Yanomami têm sobre a Terra Indígena.

Em 2012 foram percorridos mais de 150 km de fronteira da Terra Indígena, na região do Ajarani. Na ocasião foram constatadas invasões em curso e o aumento da pressão sobre os recursos ambientais da TI. A expedição, que deveria atingir o Rio Apiaú foi finalizada prematuramente devido a uma operação da Funai contra o garimpo ilegal naquela região. Nessa operação foram presos mais de 50 garimpeiros e uma dezena de máquinas de garimpo foram destruídas .

Agora voltamos à região do Apiaú, para percorrer 114,28km de fronteira da TI Yanomami, entre os rios Apiaú e Mucajaí. A presença de garimpeiros na região traz certa insegurança para a expedição. Essa insegurança está sendo em parte contornada pela presença do Batalhão de Operações da Polícia Especial (Bope) e da Polícia Ambiental, além da Funai, Hutukara e ISA . (Veja o roteiro no mapa e clique para ampliar)

O planejamento inicial era começar a expedição no dia 18. No entanto, a pedido da Funai, atrasamos em um dia a saída. A intenção da Funai era de realizar, concomitante à expedição, uma operação de combate ao garimpo na região. E isso explica a presença da Polícia Ambiental e do Bope em nosso comboio. Se por um lado a presença de homens fortemente armados em nossa companhia nos traz à lembrança o fato de que a região em estamos entrando é marcada pela grande presença garimpeira, por outro nos traz segurança .

A primeira parada que fizemos foi na comunidade de Hatianay, que fica na margem esquerda do Rio Apiaú. Pegamos alguns equipamentos na comunidade e embarcamos alguns indígenas que nos acompanhariam. Em menos de 30 minutos partimos para um longo dia sentados nos quatro barcos que nos levavam Rio Apiaú acima. Nossa equipe era composta por 19 pessoas, entre Yanomami, servidores da Funai, policiais e nós do ISA”.


Estevão:
“O Rio Apiaú é uma das regiões mais vulneráveis da TI Yanomami. Na última visita que fizemos à comunidade Hatianay, durante toda a noite escutávamos garimpeiros transitando tranquilamente pelo rio. E, na viagem de hoje, não foi diferente. Em nosso percurso encontramos pelo menos quatro acampamentos de apoio ao garimpo, localizados na margem oposta à TI.

Em um deles nos deparamos com garimpeiros que fingiam estar despretensiosamente pescando. Um dos yanomami que estava conosco, porém, reconheceu um deles que antigamente garimpava próximo às comunidades do Amazonas. Em outro encontramos um roçado de milho e mandioca, um pequeno pomar e uma casa de farinha onde se notava uma placa com os seguintes dizeres: 'Use sem abusar'! Os Yanomami que nos acompanhavam encontraram arcos e flechas próprios para a caça de tartaruga, equipamentos passaram a fazer parte da nossa expedição.

Outra fonte de pressão cada vez mais presente na região são as fazendas e os assentamentos do Incra e invasões, que sem nenhum planejamento ou controle, avançam em direção à Terra Indígena. Em diversos pontos ao longo do rio observam-se grandes cicatrizes de derrubadas e placas improvisadas atestando a ‘propriedade’ dos novos sítios”.

Moreno: “Até a chegada ao acampamento às 17h30, fizemos poucas e breves paradas sendo que nenhuma para comer. Em menos de uma hora montamos acampamento e o fogo já assava algumas linguiças que trouxemos, enquanto a equipe da cozinha preparava uma queixada que tinha sido abatida algumas horas antes, em uma de nossas paradas.

Pouco antes do jantar ficar pronto, por sugestão do sargento Inaldo, da Polícia Ambiental, foi feita um escala de revezamento para vigiar o acampamento e os barcos durante toda a noite. O receio é que garimpeiros pudessem entrar em nosso acampamento na madrugada e roubar os nossos barcos. E é nesse momento, chamado de ‘quarto de hora’ pelo sargento, que estamos escrevendo esse relato. Um olho no teclado e outro nos barcos.

Amanhã iremos nos dividir. A equipe da Funai e os policiais irão continuar subindo o Rio Apiaú, em direção ao local de grande concentração de garimpo, que fica aproximadamente 50 km a leste do nosso acampamento. A equipe da Hutukara e ISA irá seguir para o sul, com o objetivo de percorrer aproximadamente os 20 km de linha seca da fronteira da TI Yanomami”.

A série de expedições ao limite leste da TI Yanomami, iniciada em outubro do ano passado, e integrada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), HAY (Hutukara Associação Yanomami), e ISA e agora pela Polícia Ambiental e pelo Bope tem o apoio da Fundação Rainforest da Noruega.

Para saber mais

Próximo relato (20 de setembro 2013)> Navegação difícil, marimbondos e formigas marcam o segundo dia de expedição

Linha do tempo da viagem com galeria de fotos e outras informações > http://isa.to/1ag7MYF

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