Hutukara leva artesanato Yanomami para grandes centros do Brasil

Versão para impressão
por Amanda Latosinski

Artigo originalmente publicado na Folha BV

Todos os dias, artesãos e artesãs de todas as regiões do nosso país estão criando e produzindo. São pessoas que, além de habilidosas e criativas, trazem para suas peças a identidade e história de suas regiões e cultura de origem. A variedade e qualidade da produção de artesanato brasileiro é enorme e reconhecida no mercado nacional e internacional.

Em Roraima, há uma significativa produção de artesanato, com destaque para a arte indígena. Por séculos o povo Yanomami vem aprimorando a arte do trançar. O cotidiano nas comunidades é permeado por objetos fabricados por mulheres e homens com esmero estético e habilidades únicas. Aqui na cidade são mais conhecidos os cestos cargueiro wii a (na língua Yanomami) e o cesto raso xotehe ou xotó. Ambos são confeccionados por mulheres e feitos de cipó titica com pinturas naturais de jenipapo, urucum ou carvão, e detalhes em fios pretos. O fio resistente e brilhante, que muitos pensam ser plástico, é na verdade um fungo. A espécie foi descoberta pelas mulheres Yanomami e nomeada pela ciência no ano de 2019 de Marasmius yanomami em sua homenagem. Isso é apenas um dos motivos que torna a cestaria Yanomami especial.

Acompanhei as Yanomami na mata, nas regiões do Demini e de Maturacá, na busca por cipó. Junto da cantoria e da alegria das mulheres, pude notar como é árduo e minucioso o processo de coleta. Em Maturacá, elas ficam 3 dias acampadas na floresta para encontrar o fungo preto. A coleta inclui a rotatividade dos locais de extração, o que mostra o cuidado e conhecimento dos yanomami no manejo da floresta. É preciso dias para fazer um único cesto. As mais novas observam as mais velhas e aprendem a técnica.

As peças de artesanato são produzidas respeitando os modos de vida na floresta, fortalecendo o conhecimento tradicional do povo e usando recursos sustentáveis. É notável como os cestos yanomami são de alta qualidade e beleza. Cada cesto tem identidade, diferente de uma peça produzida por molde padronizado. Por essas razões, o trabalho artesanal indígena, tem sido tendência de moda e design nos centros urbanos do país. A Hutukara Associação Yanomami tem apoiado as artesãs na organização e venda de suas peças para esse mercado crescente. Os cestos que chegam da floresta para Boa Vista são comercializados através da associação para lojas de artesanato, arte e decoração.

Mas nem sempre a arte indígena tem seu valor reconhecido. Infelizmente ainda vemos preconceito contra o artesanato – muitas vezes visto como algo sem valor, rústico – e as peças acabam vendidas por preços baixíssimos. A Hutukara tem conseguido reverter essa situação encontrando parceiros comerciais que valorizam as peças das Yanomami, que pagam preços justos e dão os devidos créditos ao conhecimento do povo.

Com isso, a Associação tem levado o nome dos Yanomami e de Roraima para espaços de referência de design brasileiro, como a Bemglô, loja conceito da atriz Glória Pires em São Paulo e a Feira na Rosenbaum. As peças também têm chegado em lojas de decoração como a Kamoo e já estiveram por duas vezes em campanhas da West Wing. O trabalho yanomami tem presença confirmada nas lojas especializadas em arte indígena como a Tucum, a CANOA em Paraty/RJ e a Galeria Amazônica em Manaus. Aqui em Boa Vista a Hutukara está em busca de um parceiro comercial que possa oferecer um valor melhor para o trabalho indígena.

Só em 2019, a Hutukara articulou a venda de mais de 1.500 peças de artesanato de 260 artesãs de 35 comunidades diferentes. Mesmo com a pandemia, lojistas seguem encomendando peças. A associação, com apoio de parceiros, trabalha para estruturar a cadeia de produção do artesanato, da logística à gestão das vendas. O artesanato se tornou uma importante forma de acesso a bens básicos pelos Yanomami, viabilizando a aquisição de utensílios agrícolas e outros produtos que são necessários em seu cotidiano.

A Hutukara realiza encontros para que as artesãs e coletores de outros produtos da floresta discutam como querem fazer relações comerciais com não-indígenas e tomar decisões sobre manejo dos recursos naturais. O trabalho do artesanato fortalece a cultura, gera renda, mantém a floresta exuberante e dá autonomia para as comunidades. O artesanato valoriza o que é daqui, respeitando a vida das populações tradicionais. O artesanato indígena faz parte da identidade cultural do nosso estado e já é reconhecido no Brasil e no mundo.

*Engenheira de Produção e assessora no fortalecimento das cadeias de valor de produtos da floresta do Instituto Socioambiental (ISA)

Imagens: 

Comentários

O Instituto Socioambiental (ISA) estimula o debate e a troca de ideias. Os comentários aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião desta instituição. Mensagens consideradas ofensivas serão retiradas.