Indígenas pesquisadores do Rio Negro participam do Belém + 30

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Pesquisadores tukano, baniwa, desana e pira-tapuya do Rio Negro estiveram no congresso de etnobiologia, o ISE Belém +30, mostrando a importância dos conhecimentos indígenas e das pesquisas colaborativas interculturais.

Os povos indígenas e de comunidades tradicionais foram o destaque do XVI Congresso da Sociedade Internacional de Etnobiologia, ocorrido em Belém entre 7 e 10 de agosto. Se, há 30 anos, na primeira edição do mesmo evento, foi lançada a Declaração de Belém, um documento histórico que enfatizava a inextricável relação entre diversidade cultural e biológica, clamando que os indígenas fossem reconhecidos como especialistas e autoridades nos conhecimentos de biodiversidade, nessa edição os representantes de vários povos estavam ali apresentando resultados de pesquisa que eles realizaram.

Oscarina Caldas Azevedo (Desana do Rio Tiquié), Larissa Duarte (Tukano de Taracuá no Rio Uaupés), Ronaldo Apolinário (Baniwa de Tunuí no Rio Içana), Everaldo Garcia (Tukano da foz do Rio Curicuriari no Rio Negro) e Carlos Neri (Pira-Tapuya de Santa Isabel do Rio Negro), representando diversas sub-regiões, junto com Aloisio Cabalzar, Juliana Lins, Renata Alves e Natalia Pimenta, do Programa Rio Negro do ISA, formaram a equipe que foi apresentar as pesquisas colaborativas desenvolvidas no Médio e Alto Rio Negro.



Agentes Indígenas de Manejo Ambiental

A primeira participação já aconteceu no mesmo dia da chegada, na oficina “Ferramentas Jurídicas e Tecnológicas para a Gestão Territorial na Amazônia”, quando Ronaldo e Everaldo fizeram uma fala sobre o papel dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMA) e o projeto de pesquisa e monitoramento ambiental e climático que vem sendo realizado no Rio Negro. Esse seminário de dois dias foi dedicado a um fórum indígena de denúncia da situação política desfavorável e das ameaças iminentes aos direitos indígenas, sobretudo em relação a grandes obras que, se implementadas, vão impactar diretamente os territórios indígenas. No segundo dia, dois temas foram discutidos: ferramentas tecnológicas para monitoramento ambiental e climático e protocolos de consulta elaborados por alguns povos, como os Wajãpi.

Roças rionegrinas

Umusipo Oscarina e Ye’pario Larissa apresentaram seus trabalhos de pesquisa intercultural na seção de Etnobotânica Participativa, organizada por Viviane Kruel, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Falaram a uma sala lotada e com a presença de pesquisadores ilustres, como o Sir Ghillean Prance, eminente botânico inglês com 50 anos de trabalhos na Amazônia e um dos pioneiros em pesquisas etnobotânicas na região, e William Milliken, pesquisador do Royal Botanical Garden, Kew, e um dos colaboradores nas pesquisas interculturais que resultaram no Manual dos Remédios Tradicionais Yanomami. Em suas falas, que alternavam a língua tukano (sempre com tradução) e o português, Oscarina e Larissa comentaram da alta agrobiodiversidade das roças rionegrinas, e das plantas usadas no processo de fabricação das cerâmicas da região. Dona Oscarina mostrou também os resultados dos levantamentos das dezenas de variedades de manivas presente em suas roças, realizados em parceria com outros AIMAs e apresentados também na 2ª edição da revista Aru e Larissa apresentou os resultados da sua pesquisa sobre a origem e usos da cuia, que estão na 1ª edição da Aru.

Sistema agrícola tradicional

Carlos Neri falou sobre “As várias faces de uma patrimonialização: o caso do sistema agrícola tradicional do Rio Negro” na sessão sobre Agriculturas Tradicionais, Agrobiodiversidade, Transição Ambiental e Patrimônios. Nessa sessão, organizada por Laure Emperaire, do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), também se apresentaram as antropólogas Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo e Lucia Hussak Van Velthem, do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Na manhã do mesmo dia, os AIMAs Ronaldo Apolinário (Baniwa) e Everaldo Garcia (Tukano), em nome do grupo de AIMAs do Rio Negro, apresentaram o painel sobre “Pesquisa Intercultural: Relato de experiência da rede de agentes indígenas de pesquisa e monitoramento ambiental e climático da Bacia do Rio Negro, Amazônia”.



No último dia do congresso, na sessão Troca de Experiências e Metodologias de Pesquisa Intercultural Indígena na Amazônia, houve uma rica conversa entre os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro, os Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs) do Acre e os Agentes Socioambientais Wajãpi do Amapá (ASA). Cada região falou da sua realidade local, e como são feitos os trabalhos de manejo e pesquisa nas respectivas Terras Indígenas em que vivem.

Os agentes agroflorestais, José Rosa Marcondes (Puyanawa) e Edilson da Silva (Katukina), falaram sobre o processo de formação de AAFIs e suas atribuições vinculadas a proteção territorial como componente do Programa de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas, implementado com apoio da Comissão Pró-Índio Acre em 1996.

Roseno e Mego (Waijãpi) também ressaltaram a importância dos Agentes Socioambientais no monitoramento ambiental e fiscalização do uso de recursos nas Terras Indígenas do Amapá, onde vêm atuando desde 2016 junto ao Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) em parceria com FUNAI, The Nature Conservancy (TNC) e financiado pelo Fundo Amazônia (BNDES).

Apesar das diferentes inspirações para os trabalhos desenvolvidos pelos agentes indígenas de cada região, prevaleceram as convergências das atividades voltadas para garantia dos direitos indígenas e autonomia na gestão do território. Experiências de pesquisas voltadas para assegurar a segurança alimentar, educação escolar indígena e geração de renda nas comunidades também foram debatidas entre os participantes e plateia.



Durante a estadia em Belém, os pesquisadores indígenas rionegrinos aproveitaram para visitar a Coleção Etnográfica do Museu Paraense Emilio Goeldi. A ênfase da visita foi ver as cerâmicas e objetos de arte plumária coletados no alto Rio Negro por Theodor Koch-Grünberg no início do século XX.



Também aconteceu no Congresso o lançamento da segunda edição da revista Aru, publicação dedicada à produção colaborativa de conhecimentos sobre a bacia do Rio Negro e a mostrar os resultados dos trabalhos dos AIMAs.



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