Mulheres indígenas do Rio Negro criam associação para trabalhar com artesanato e agricultura

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Juliana Radler

Entre os desafios estão escoar e vender a produção a preço justo e buscar parcerias e capacitações

São Gabriel Mirim, localizada na Terra Indígena de Cué-Cué Marabitanas, é a sede da recém-criada Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amiarn). Comunidade Baré fundada em 1974 pelo índio Graciliano José Alemão, São Gabriel Mirim traz em suas terras a memória de guerras passadas. O morador Berlindo Gregório, que vive do que produz em sua roça e do artesanato, orgulha-se de mostrar trincheiras gigantescas encontradas em seu sítio. “Com certeza os antigos Barés que moraram aqui cavaram essas valas para fazer armadilha contra os inimigos. Já achei antigos machados de pedra e muita cerâmica velha”, ressalta Gregório.



É nesse território cheio de histórias e lendas que um animado grupo de mulheres se uniu para criar a associação e valorizar dois elementos fundamentais da cultura Baré no Alto Rio Negro: o artesanato e a agricultura. O sistema agrícola tradicional do Rio Negro, reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), é desenvolvido pelos indígenas do Rio Negro ao longo dos séculos e é chamado simplesmente de “roça” pelo povo local. Todo morador de São Gabriel Mirim tem sua própria roça, que varia de tamanho de acordo com a quantidade de pessoas da família e a disposição para o trabalho diário na terra. Da floresta e da roça saem os alimentos e também a matéria-prima para o artesanato.

Tucum, titica e tururi

O artesanato Baré de São Gabriel Mirim nasceu da confecção dos artefatos para pesca, roça e trabalhos domésticos com materiais encontrados na floresta. Aturás, peneiras, tipitis e linhas de pesca feitas com fibras de tucum (espécie de palmeira), cipó titica e casca de tururi (um tipo de árvore) deram origem a novas peças confeccionadas pelas mulheres de São Gabriel Mirim. Além de continuar produzindo os objetos tradicionais, hoje, os Baré produzem bijuterias e artefatos decorativos para casa.

Gracimar Alemão Gregório, de 51 anos, sobrinha do fundador da comunidade, lembra que os antigos faziam de tudo com a fibra de tucum. “A gente pegava o tucum e passava no breu para ficar bem resistente. Até as nossas redes de dormir e armadilha de peixe eram de tucum”, lembra a artesã. Gracimar recorda o tempo em que seu pai trabalhou no seringal extraindo látex para fabricação de borracha. “Meu velho acordava três horas da manhã para trabalhar na seringa. Era uma vida muito dura que eles tinham aqui”, afirma.

Falante de nheengatu, a artesã mais velha do grupo não fala português, embora entenda a língua. Ela não sabe ler e escrever, mas hoje está frequentando o EJA (Educação de Jovens e Adultos) para aprender a ler. Junto com outras mulheres mais jovens da comunidade, Gracimar está feliz com a criação da Associação. “É a terra onde nascemos e vivemos. Gostamos de viver na terra indígena e queremos nos organizar cada vez melhor aqui”.

Brincadeira com tucum

As irmãs Clarinha (31 anos), Larissa (25) e Edzângela (19), da família Gregório Maquerino, filhas de Gracimar, fazem artesanato desde a infância. “A nossa brincadeira era com tucum, fazendo pulseira e colar. A gente ia brincando, aprendendo a fazer e hoje a gente faz artesanato quase todo dia”, comenta a caçula. “Quando eu não saio para roça, faço artesanato. Espalho tucum pela casa toda para fazer meus trabalhos”, brinca Clarinha, mãe de 4 meninos. Junto com outras 20 mulheres, as irmãs esperam desenvolver o artesanato, usando a matéria-prima da floresta para criar novas peças que possam ser vendidas em todo o Brasil.

“Nosso maior sonho é ter essa associação para melhorar a nossa vida aqui. As pessoas ficam dizendo que a gente não quer ficar na terra indígena, mas isso é mentira. A gente quer se organizar para viver bem na nossa comunidade, vendendo os artesanatos e as coisas da roça”, diz Berlindo, marido de Cleidiana Barreto da Silva, integrante da Amiarn, assim como sua filha de 19 anos, Leidiane da Silva Barreto.



A Amiarn tem em seu estatuto que os homens podem ser associados, mas estão impedidos de fazer parte da diretoria e do conselho fiscal. Essa decisão aprovada em assembleia de fundação da Associação, ocorrida no último domingo, 1º/10, em São Gabriel Mirim, vai ao encontro do anseio das mulheres de tomar decisões e ter mais autonomia na gestão dos seus planos e desejos. Os maridos, irmãos, amigos e filhos concordaram e outras lideranças masculinas da região elogiaram a iniciativa das mulheres, como antigos membros da Acirn (Associação das Comunidades Indígenas do Rio Negro).

Francisco Barreto, capitão da comunidade, ressaltou que espera que as mulheres sigam um caminho melhor do que o de outras associações da região que deixaram de atuar devido à desmobilização e compromisso de seus membros. Um dos maiores desafios do associativismo indígena no Rio Negro é a gestão administrativa e financeira das associações. Muitas vezes por falta de capacitação, os diretores deixam de prestar contas e organizar suas atividades de modo sistemático. “Espero que elas tenham aprendido com os erros do passado, principalmente, dos homens. A mulherada ficou alegre que pôde concorrer à presidência e ter sua própria associação”, brincou Francisco, cuja esposa, Irene Alemão Gregório, é uma das integrantes.

Escoamento de produção e outros desafios

Eleita presidente da Amiarn, Elizângela da Silva, é consciente dos desafios que as mulheres indígenas têm pela frente. Escoar e vender a produção a preço justo são pontos fundamentais para a associação trabalhar, assim como buscar parcerias e capacitações que possam auxiliar as mulheres a ter maior valor agregado em seus produtos, tanto no artesanato, quando na roça. Cleidiana e Berlindo, por exemplo, produzem uma infinidade de frutas e espécies de mandioca em seu sítio. Mas, por não ter para quem vender, Berlindo diz que tem até medo de ampliar a roça porque não gosta de ver as coisas se estragando. “Se eu tivesse para quem vender com um preço justo ou como beneficiar as frutas, poderia aumentar o tamanho da roça”, comenta o produtor.

O mesmo ocorre com as artesãs e demais produtores das comunidades vizinhas, que estão desestimulados a produzir para além do consumo próprio e da dinâmica local de trocas. Com isso, as famílias se mantém recebendo bolsa família e fazendo a roça e o artesanato para subsistência e uma pequena renda extra. “O que falta para a gente é só apoio e incentivo”, comenta a jovem eleita secretária da Associação, Leidiane da Silva Barreto. Como coordenadora do Departamento de Mulheres da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), Elizângela pretende auxiliar a associação em suas articulações e intercâmbios com outras mulheres. “Nós precisamos estar sempre trocando ideias entre nós, nos ajudando e nos fortalecendo. Isso sim vai nos dar mais voz e poder para alcançar nossos objetivos”.

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