Na reta final, debaixo de chuva fina, grupo comprova a fragilidade do limite leste da TI

Programa: 
Versão para impressão
Moreno Saraiva Martins e Estevão Benfica Senra

1º de outubro de 2013, décimo terceiro e último dia

Moreno: "Uma chuva fina, porém insistente, deu um certo ar de aventura para o nosso último dia de caminhada. Dormimos na encosta de uma serra, à margem de um pequeno igarapé. O céu nublado conferia um tom sombrio à manhã. Júlio Ye’kuana atribuiu à chuva um sinal de que o espírito da montanha não estava satisfeito com nossa presença ali. “Essa serra é sagrada, não é um lugar comum”, disse nosso companheiro Ye’kuana.

Estevão:
"Ontem, ao anoitecer, o capitão-da-mata cantava, respondendo às trovoadas do outro lado da serra. “Esse canto é prenuncio de chuvas” dizia Armindo, tranquilo em sua rede. Contam-nos os yanomami, que este passarinho quando era gente, possuía grandes poderes e gostava de inventar e criar coisas. E assim, um belo dia, criou o céu, lançando para o alto o fígado de uma anta, do qual havia comido apenas as bordas. Nada mais adequado para a nossa despedida da floresta, então, do que um pouco de chuva, como um presente dos espíritos da serra da demarcação, que nos oferecem pedaços de anta no nosso último desjejum por aqui".

Moreno: "Esse ar de aventura, que pensava eu que seria dado apenas pela chuva, foi oferecido de fato por uma grande área pantanosa que nos separava da Base de Proteção da Funai, nosso destino final. Demoramos quase duas horas para atravessar esse pântano, cerrado por cipós e espinhos, eivado de formigas cuja picada machuca bastante. Encontramos, ou melhor, nos encontraram também, as formigas “jiquitaia”, um minúsculo inseto que parece deixar um ácido por onde passa, irritando não só a pele, mas também o ânimo de viajantes já cansados".

Estevão: "Sem dúvida o bordão 'muita saúva e pouca saúde' (cunhado por Mário de Andrade em seu célebre livro Macunaima) caberia muito bem a este momento da expedição."

Moreno
: "Próximo às 14h, um tiro de 38” disparado por Guilherme às margens do Rio Mucajai atraia a atenção dos ocupantes da base de proteção, que em instantes chegavam com uma canoa para atravessarmos o rio e assim finalizar a nossa expedição.

Ao todo, percorremos 184 km para fiscalizarmos 114km de fronteiras da TI. Esse último trecho de 26 km, percorrido em 4 dias, mostrou a fragilidade do limite leste da TI Yanomami. São centenas de quilômetros, com uma baixa densidade demográfica. A Floresta Nacional de Roraima, que poderia servir como área de amortecimento, protegendo a fronteira da TI, não está cumprindo o seu papel institucional. Hoje ela está servindo de via de acesso para invasões à TI Yanomami. Foram 13 dias em que o cansaço causado pelo esforço intenso e contínuo nem sempre favorecia o bom humor frente às idiossincrasias pessoais, aprofundadas ainda mais pelo grande abismo cultural que nos separa dos Yanomami. Porém, essa experiência de percorrer regiões de florestas maravilhosas em sua exuberância e diversidade, com companheiros que caminhavam por ali como se estivessem no quintal de sua casa, plenos de habilidades adquiridas por terem nascido e se criado ali, é dos momentos únicos e inesquecíveis da vida de quem nasceu longe daqui".

Para saber mais

Relato anterior (30 de setembro de 2013) > No caminho de volta, florestas sobre paredões, serras íngremes e recados aos invasores

Linha do Tempo da viagem com galeria de fotos e outras informações http://isa.to/1ag7MYF

Comentários

O Instituto Socioambiental (ISA) estimula o debate e a troca de ideias. Os comentários aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião desta instituição. Mensagens consideradas ofensivas serão retiradas.