No caminho de volta, florestas sobre paredões, serras íngremes e recados aos invasores

Programa: 
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Moreno Saraiva Martins e Estevão Benfica Senra

30 de setembro, décimo segundo dia da expedição

Moreno: "Uma chuva forte durante a noite acabou por atrasar a nossa saída pela manhã. Secamos o que conseguimos e iniciamos a caminhada, atravessando o igarapé que em sua margem acampamos, molhando o que tínhamos precariamente secado. O início da caminhada foi difícil, pois tivemos que atravessar o pasto que ontem tínhamos margeado. Em muitas partes o capim atingia mais de 3 metros de altura e era resistente aos cortes de facão. Tivemos então que ir vencendo o mato, empurrando-o com o próprio corpo. Essa estratégia nos rendeu diversos arranhões nas partes do corpo que não estavam cobertas por roupas. Passamos pelo menos 1h para atravessar todo o pasto.

Logo que saímos do lado oposto, avistamos um bando de queixadas muito próximo a nós. E 300 metros à frente avistamos uma anta, que assoviava a menos de 5 metros de nós. Tentamos fotografá-la, mas registrar imagens na floresta não é das tarefas mais fáceis, pois sempre existe um emaranhado de folhas e galhos entre a máquina e o objeto.

Poucas centenas de metros a frente encontramos a trilha que dá acesso ao pasto que tínhamos passado. Era uma trilha bem marcada, com 5m de largura, e que provavelmente foi aberta há mais de 3 anos. Fomos seguindo a trilha até que ela saísse da TI Yanomami e adentrasse na Unidade de Conservação Floresta Nacional Roraima. Nessa trilha encontramos vestígios de pessoas que passaram em aproximadamente 24h ali. É provável que o responsável por aquela fazenda a tenha deixado no dia anterior pela manhã. Por pouco não o encontramos. Ali onde encontramos a trilha os Yanomami escreveram nas árvores a frase “Fiscal Yanomami Ye’kuana”, deixando um recado para os invasores.

Continuamos seguindo a linha seca da divisa da TI, e logo encontramos mais uma trilha, provavelmente uma trilha antiga, que era usada antes de a trilha que encontramos ser aberta. A parte mais difícil da viagem viria em seguida, quando começamos a subir uma serra íngreme, que é conhecida como Serra da Demarcação. Foram pelo menos 2 horas subindo e descendo encostas, passando por vales profundos guiados por igarapés cristalinos. Paramos para acampar na beira de um desses igarapés, a 3,5km de nosso destino final. Pouco antes de pararmos encontramos um jabuti. Felizmente mais uma noite sem calabresa. Somente quem comeu calabresa foi Júlio Ye’kuana, que está passando por um período ritual, com diversas restrições alimentares, entre elas o jabuti".

Estevão
: "A floresta que cresce sobre os paredões e encostas da Serra da Demarcação destoa das demais que percorremos na expedição. Apresenta um certo ar misterioso, casa dos mais fortes espíritos auxiliares. Nela erguem-se árvores gigantescas, cercadas por matacões negros e corredeiras de água transparente. E, à noite, soma-se ao coro dos sapos, o zunido do vento que desce pelas suas encostas soprando a vegetação".

Moreno: "Já deitados nas redes para dormir os yanomami conversam sobre o barulho de motor que estão escutando, e concluem que deve ser da própria Base da Funai que é nosso destino final. Por mais que eu tentasse não escutei nada parecido com o som de um motor funcionando".

A série de expedições ao limite leste da TI Yanomami, iniciada em outubro do ano passado, e integrada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), HAY (Hutukara Associação Yanomami), e ISA e agora pela Polícia Ambiental e pelo Bope tem o apoio da Fundação Rainforest da Noruega.

Para saber mais

Relato anterior (29 de setembro de 2013) > Grupo encontra primeiros sinais de invasão - pasto, cabana e roças dentro da TI

Próximo relato (1º de outubro de 2013) > Na reta final, debaixo de chuva fina, grupo comprova a fragilidade do limite leste da TI

Linha do Tempo da viagem com galeria de fotos e outras informações http://isa.to/1ag7MYF

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