Rio Negro perde parceiro histórico

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Por Aloisio Cabalzar

João Kandler, companheiro constante e infatigável dos povos indígenas do Rio Negro, nos deixou. Ele faleceu na Áustria, ao lado da família, em 26 de novembro de 2021, aos 71 anos, após uma curta e grave doença. João deixa um legado de amizade, compromisso e trabalho, que muito contribuiu para o movimento indígena e a diversidade socioambiental do médio e Alto Rio Negro, região extensa na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela.



João ficou muito conhecido no Rio Negro a partir de suas várias viagens à região, seja sozinho para zelar pela parceria e os projetos conjuntos com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA), seja acompanhado por outros representantes da Aliança pelo Clima, onde atuava, ou dos municípios austríacos que apoiam essa campanha.

A Aliança pelo Clima, fundada no início dos anos 1990 na Europa central, visa contribuir para conter as mudanças climáticas, ao mesmo tempo atuando em informação e educação para práticas sustentáveis ambientalmente na Europa e apoiando povos indígenas da América do Sul na proteção de seus territórios contra as pressões predatórias. É formada por uma rede de municípios, atualmente presente em 27 países.

Na Áustria está uma de suas filiais mais ativas e que vem apoiando, desde 1994, atividades das organizações indígenas que formam a rede da Foirn. A Aliança pelo Clima, junto com Horizont 3000, foram os primeiros parceiros a apoiar a Foirn e o ISA, desde sua fundação, quando ainda eram organizações incipientes, há quase 30 anos.



João foi um dos principais responsáveis pela persistência e consolidação dessa parceria. Para tanto, ele se dividia entre viagens com alguma frequência para o Rio Negro e, quando estava na Áustria, atuava percorrendo os municípios e escolas, levando informações e ensinando sobre a Amazônia.

Como forma de reconhecimento por esse trabalho, trazemos algumas palavras de pessoas que trabalharam junto com ele no Rio Negro:

“João foi uma pessoa magnífica que conheci ainda quando eu nem era membro da diretoria da Foirn. Eu estava ainda na base, na Acimrn, em Santa Isabel do Rio Negro. Tive a oportunidade de fazer uma primeira viagem com ele pelo Baixo Rio Negro até São Gabriel.

João era uma pessoa muito motivada, que ia além de sua representação institucional como parceiro da Aliança pelo Clima. Ele sempre pensava no diálogo, na presença e na transparência da nossa parceria, prezando sempre por uma causa conjunta. A gente estava no mesmo barco, remando em uma só direção. João sempre buscou respeitar nossas especificidades culturais, trazendo uma forma inovadora de fomentar novas iniciativas sustentáveis no Rio Negro, ao mesmo tempo preocupado com a adaptação dessas tecnologias a nossa região.

João sempre fez um trabalho importante para nossa cooperação, que era de divulgar nossa agenda conjunta, num esforço muito pessoal para mostrar a importância desse trabalho para os membros da Aliança pelo Clima na Europa. Ele era mais do que um oficial de projetos e um contato para nós da Amazônia. Ele era um porta-voz, um membro nato mesmo aqui do nosso território.

João acompanhou conquistas importantes que a Foirn teve desde o trabalho de sua própria estruturação, como a vitória da demarcação das terras indígenas, a expansão da rede de comunicação com a radiofonia e todo um trabalho feito de valorização cultural a partir dos nossos conhecimentos tradicionais.

João deixou sua marca para nós povos indígenas aqui do Rio Negro, junto com o ISA e nossa rede de colaboração, todos nós sentimos muito sua partida e manteremos sempre viva sua memória conosco”.

Marivelton Barroso, presidente da Foirn, do povo Baré.



“A atenção e consideração que João tinha com as pessoas é memorável e ele trazia uma vontade magnífica de trabalhar com e pelos povos indígenas e florestas. Na primeira viagem que fiz com ele, ao Rio Içana, ele divertia as pessoas com apresentações performáticas, como a hora em que jogava uma lanterna solar inovadora no chão pra provar que era resistente, bem antes de dar a lanterna para alguém da comunidade. Ou quando depois de ter dançado carriçu pediu, e com trilha sonora planejada em seu pen drive, mostrou uma valsa vienense ao público Baniwa.

Sempre me impressionou sua vontade e comprometimento em colaborar com a Amazônia e seus muitos anos vividos no Acre, as visitas constantes ao Rio Negro, sua presença em fóruns e sua militância atenta e humana eram prova disso.

Em 2014, quando incendiaram a Wariró, entreposto de artesanatos e produtos indígenas em São Gabriel da Cachoeira, ele foi o primeiro a organizar um mutirão de retirada dos escombros. Preocupado não só em reerguer o espaço, mas também em não deixar um lugar perigoso na cidade. E lá estava João, com mais de 60 anos, puxando, jogando, limpando e separando o que podia ser usado das ruínas de uma construção de quatro andares debaixo de sol e chuva equatorial. Levantou a moral e também recursos para a nova sede da Wariró.

Era também um articulador e parceiro incansável, trouxe oportunidades, projetos, iniciativas e construiu campanhas que beneficiam os povos indígenas, a Amazônia e o bem viver. Se a gente escuta ou lê que é importante pensar no global e agir no local, João incorporava isso. O que significava em seu caso também colocar em encontro, às vezes em embate mas sempre em diálogo, diferentes locais. Kandler, como também era conhecido, foi uma pessoa da terra, antenado em políticas e tecnologias inovadoras e construtor de um mundo que fica com muitas saudades, mas cheio de inspirações, exemplos e agradecimentos”.

Renato Martelli, assessor do ISA.



“Admirável a dedicação de João Kandler em estar presente e apoiar. Ao saber, com surpresa e tristeza, sobre sua passagem, algumas imagens me vieram à mente, todas elas de um homem muito ativo, esperançoso por justiça e igualdade, altamente dedicado e desde sempre preocupado em apoiar a conservação ambiental com os povos da floresta, em especial os rionegrinos e a expressão feminina deste movimento.

Foi então que revisitei uma série de mensagens de e-mail trocadas com ele em março de 2021. A série de mensagens foi provocada por um e-mail dele, enviado em 8 de março, para um grupo de mulheres ao qual ele cumprimentou: 'Estimadas lideranças e mulheres corajosas (...)' E ao final da mensagem, antes do abraço solidário: 'muitos anos de minha experiência de luta, tanto no Brasil como na Áustria, vi que as colegas agiram com mais coragem frente às injustiças e nos conflitos. Desejo a vocês muita força e energia para continuar na luta por um mundo mais justo em todos os sentidos.'

Continuamos, eu e ele, conversando sobre família, conflitos, resiliência e coragem para transformar. Agradecidas pela parceria, inspiradas pelo exemplo de dedicação e pelos projetos de soluções interculturais para o bem viver com justiça e equidade para todes, seguiremos alimentando a coragem e os sonhos!"

Carla Dias, assessora do ISA.

“Tive a sorte de conhecer João Kandler em sua visita a São Gabriel da Cachoeira em 2017. Participamos de uma oficina de elaboração dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) das terras indígenas do Rio Negro, na ilha de Duraka, comunidade que fica na TI Médio Rio Negro I.

Sempre disposto e animado com as discussões, João tinha especial apreço pela luta das mulheres. Nesta oficina, sempre vinha debater as questões relacionadas à gênero e sobretudo às alternativas sustentáveis de geração de renda para as mulheres indígenas. Contava empolgado sobre as belezas produzidas pelas mulheres rionegrinas como o artesanato em tucum, cestaria, cerâmica, biojóias e ainda os alimentos feitos pelas mulheres, fruto do trabalho majoritariamente feminino na roça.

Outra característica marcante era seu cuidado afetuoso em trazer presentinhos úteis para nós que trabalhamos na Amazônia, viajando longas distâncias de voadeira, sob sol, chuva e barulho de motor. Vindo da Europa, trazia saquinhos impermeáveis com lacre para guardarmos nossos equipamentos e materiais, protetores auriculares, bonés, bloquinhos recicláveis e chocolates! Sempre muito gentil, mantinha frequente contato com a gente aqui no Rio Negro, querendo saber notícias não só dos trabalhos e lutas socioambientais, mas também com interesse pelas pessoas e seu bem-estar.

Foi extremamente presente na pandemia de Covid-19. Mobilizou doações para a campanha das mulheres indígenas Rio Negro, Nós Cuidamos, e também como pessoa física e amigo dos povos do Rio Negro fez sua própria doação à campanha. Mantinha contato frequente, sobretudo, quando Manaus foi a primeira capital brasileira a ter seu sistema de saúde em colapso.




Na primeira onda da Covid-19, lembro de João registrar uma nevasca severa, das piores já vistas, na região onde morava na Áustria.

Guardo essa nossa conversa (preocupada com o planeta) e a foto da casa do João quase engolida pela neve, imagem ainda mais marcante para quem mora na linha do Equador.

Mundos distantes, mas que a presença amiga e fraterna de João, sempre cuidava em aproximar”.

Juliana Radler, assessora do ISA.

“É com tristeza que ouvi a notícia de falecimento do Johann. O encontrei muitas vezes durante suas visitas ao Rio Negro. Uma vez acompanhei ele, junto com um grupo de representantes da Climate Alliance, numa viagem de dias de barco até o Rio Tiquié, na Terra Indígena de Alto Rio Negro, para visitar as comunidades indígenas desse rio. Tenho muito boas lembranças dele. Era uma pessoa com o coração e a cabeça no lugar certo. Vamos sentir falta dele”.

Pieter van der Veld, colaborador do ISA, assessor até 2019.

“João Kandler era uma pessoa muito gentil, com a qual me identifiquei muito. Tive a sorte de um dia pegar um avião para São Gabriel da Cachoeira e estar no mesmo voo que ele. Conversamos a viagem inteira e, na conversa, com a floresta e o Rio Negro lá embaixo, fui conhecendo a linda e inspiradora trajetória dele, e me identificando com as suas experiências: sindicatos de trabalhadores rurais, escolas, famílias agrícolas, Amazônia e teimar com tanta força que outro mundo é possível, baseado em cooperação, no coletivo, na organização social, e lutar por isso, junto com os camponeses, com os povos indígenas.

No início deste ano, comecei o processo seletivo para uma bolsa ligada à proteção do clima na Alemanha, e tive muito apoio dele, conversamos bastante. Achava que teria a chance de ainda conviver e aprender muito com ele, mas tenho certeza que a história e luta de João Kandler está viva e presente em muita gente, de muitos lugares, tempos e gerações diferentes”.

Juliana Lins, colaboradora do ISA, assessora até 2019.

E para finalizar, com tristeza mas convictos de sua herança, ficamos com as palavras de

Carlos Barretto, do ISA:

"João Kandler nos deixa o legado de uma parceria forte e com confiança mútua, construída ao longo de anos de presença e olhar para o território do Rio Negro. Que sua sabedoria nos ilumine!”

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