Yanomami debatem conhecimentos tradicionais e recursos naturais em oficina do PGTA

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Lucas Lima

Na terceira etapa de construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental, Yanomami propõem alternativas de melhoria na qualidade de vida por meio da valorização da medicina tradicional, da língua, do xamanismo e do acesso aos recursos naturais

Durante sete dias, cerca de 120 lideranças yanomami e ye´kwana se reuniram no Lago Caracaranã, Roraima, para realizar a 2ª Oficina Temática do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Yanomami, a maior área protegida do país. Os cuidados com a floresta (urihi a, em língua Yanomami) são parte de sua cultura tradicional e são sustentados pelas suas práticas cotidianas e pelo complexo trabalho dos xamãs (xapiri thepë). A elaboração de um documento que consolide esses cuidados com sua terra-floresta vem sendo um dos principais trabalhos das lideranças Yanomami e Ye'kwana desde 2015.

O que é o PGTA

O Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) é uma ferramenta que reconhece o direito dos povos indígenas de gerir seus territórios, por meio da valorização de seus conhecimentos e patrimônios materiais e imateriais. O objetivo principal do plano é assegurar a melhoria da qualidade de vida e as condições para o bem viver dos povos indígenas, respeitando seus usos e costumes. O PGTA auxilia tanto acordos internos, entre os membros das comunidades, bem como orienta a execução das políticas públicas e das organizações que atuam nas Terras Indígenas.

Na oficina que ocorreu entre 25 e 31 de março foram abordados os temas “Conhecimentos Tradicionais e Recursos Naturais”, com o objetivo de propor soluções para melhorar a qualidade de vida dentro de suas comunidades, como a valorização da medicina tradicional, a língua, o xamanismo, e também o acesso aos recursos naturais, como caça, palha, cogumelos e castanhas.

A oficina foi realizada pela Hutukara Associação Yanomami com o Instituto Socioambiental (ISA), e contou com a participação de seis associações yanomami e uma ye´kwana. Representantes da Funai, Sesai, Ibama e Exército, bem como organizações do terceiro setor, como a Diocese de Roraima, Rios Profundos, Secoya estiveram presentes.

Veja o vídeo.

Na temática dos “Conhecimentos Tradicionais” o problema geracional foi enfatizado como obstáculo importante para a vitalidade dos conhecimentos tradicionais. Nas décadas de 1970 e 1980 com a invasão garimpeira, 20% da população Yanomami morreu devido a violência e as epidemias. Hoje, apenas 3% da população Yanomami tem mais de 60 anos e transmitir o conhecimento dessa geração para os jovens foi uma preocupação marcante durante os debates na oficina.

Na temática dos “Recursos Naturais” as discussões evidenciaram como o manejo do ambiente tradicionalmente realizado pelos Yanomami permite a vitalidade e a regeneração dos recursos da floresta. De forma geral, as condições ambientais da Terra Indígena são muitos boas. Entretanto, algumas regiões já sofrem com a escassez de recursos. A explicação é que as comunidades tendem a permanecer ao redor dos serviços de saúde (postos de saúde) e educação (escolas), onde também costuma haver uma pista de pouso. A proposta principal para enfrentar essa questão é apoiar os Yanomami a retomar uma maior mobilidade pelo território, para que eles possam se mudar para regiões onde haja maior oferta de recursos naturais. Essa alternativa implica convencer os serviços públicos a acompanhar os Yanomami em sua mobilidade. Ou seja, em vez de as comunidades ficarem fixas no território a ideia é que os serviços acompanhem os Yanomami.

Essa é a terceira de cinco etapas para a construção do Plano de Gestão da Terra Indígena Yanomami. Na próxima reunião serão abordadas as questões que envolvem a educação, saúde e infraestrutura dentro da Terra Indígena.

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