Rede de Sementes do Xingu consolida experiências e debate novos desafios em Assembleia e Encontro anual

Programa: 
Versão para impressão
Tatiane Ribeiro

Coletores urbanos, agricultores familiares e indígenas se reuniram para compartilhar experiências e decisões em São Félix do Araguaia (MT)

Às margens do Rio Araguaia, cerca de 100 pessoas reuniram-se para o 15º Encontro Geral e a 4ª Assembleia da Associação Rede de Sementes de Xingu (ARSX). Entre os dias 21 e 23 de junho, a cidade de São Félix do Araguaia foi palco da reunião anual da associação, que contou com a participação de coletores, pesquisadores e parceiros da iniciativa. Com dez anos de existência, a ARSX se consolidou como a maior rede de sementes nativas do Brasil.

¨A característica principal desse encontro foi ser um momento de reflexão. Depois de 10 anos de trabalho da Rede queríamos fazer algo mais interno, voltado para os coletores e gestores¨, explica Cláudia Araújo, diretora da ARSX. A programação foi centrada no debate sobre experiências e oportunidades para a restauração ecológica, tecnologias, iniciativas de pesquisas aplicadas e qualidade das sementes.


Na ocasião também foi realizada a 4ª Assembleia da ARSX, em que foram apresentados os resultados e o planejamento anual da associação. Um dos objetivos, segundo Cláudia, é que a gestão da Rede seja cada vez mais compartilhada. ¨Incentivamos a participação dos gestores, integrantes da Rede responsáveis pela gestão de um núcleo coletor, à frente de algumas atividades para que incorporem cada vez mais o protagonismo dentro da Rede¨, afirmou.

A ARSX envolve coletores de 17 municípios, 14 assentamentos, 16 aldeias localizadas em 4 Terras Indígenas de 7 povos diferentes. No ano passado foi repassado para os 568 coletores o valor de R$ 633 mil, fruto de um trabalho em conjunto que resultou em 26 toneladas de sementes comercializadas, viabilizando a recuperação de 611 hectares de área degradadas na região da bacia do Xingu e Araguaia. ¨Sempre ficamos preocupados com os gargalos e desafios da Rede mas o balanço geral apresentado é bastante satisfatório¨, avalia Acrísio Luiz dos Reis, que também compõe a diretoria da ARSX e é coletor do Projeto de Assentamento (PA) Manah, em Canabrava do Norte (MT).

Protagonismo feminino

A participação das mulheres foi expressiva nesta edição do Encontro. A maioria dos presentes era do gênero feminino e desse percentual, metade é indígena. ¨Consideramos nossa contribuição importante. Estar aqui faz com a gente se fortaleça enquanto grupo e nos permite conhecer nossos amigos coletores¨, frisa Makawa Ikpeng, liderança do Movimento de Mulheres Yarang, grupo de coleta do povo Ikpeng, do Território Indígena do Xingu (TIX).


A logística para locomoção das mulheres do TIX até o local do evento não foi das mais fáceis. As coletores da aldeia Tuba Tuba, do povo Yudja , por exemplo, tiveram que percorrer três horas de barco até o porto Ngossoko, depois mais quatro horas de viagem de ônibus até a cidade de Querência e mais cinco horas até São Félix de Araguaia. ¨Vale o esforço pois sempre tive vontade de participar e conhecer o trabalho das coletoras de fora. Percebi que há vários jeitos de coletar então é importante conversar e entender as dificuldades de cada grupo para esclarecer alguns pontos¨, disse Duyarifu Yudja.

A participação feminina indígena também trouxe desafios para os representantes de cada grupo que ficaram responsáveis por traduzir ideias e números para as integrantes das aldeias, já que muitas não falam o Português. ¨Alguns termos utilizados aqui são técnicos, mas elas acompanham por meio da minha interpretação e compreendem quando estamos falando, por exemplo, de assuntos financeiros¨, disse Oreme Ikpeng.

Compartilhando riquezas

A troca de saberes durante o evento não aconteceu em um único momento definido dentro programação. As experiências expostas durante cada fala inspiram coletores de todos os grupos. Por exemplo, enquanto o coletor Cléber Marcelino demonstrava como limpar as sementes de jatobá com jato de água, Luciana Correa Portilho, coletora de Nova Xavantina, compartilhava como faz manualmente a limpeza da mesma semente para aproveitar a polpa. ¨Eu quebro as vagens com martelo e deixo para secar ao sol por três dias depois doamos para um sítio onde é usada para alimentar animais como porcos, gados e cavalos¨, explicou.


Cleuza Nunes de Paula, do PA Macife, em Bom Jesus do Araguaia, é outra coletora que sempre busca ir além da semente. Da casca da sucupira ela extrai o óleo que pode ser utilizado de forma medicinal para dores nas articulações. E de onde vem esse conhecimento? ¨Da vida mesmo. Das experiências que gente vai adquirindo porque desde sempre minha mãe extrai o óleo de várias coisas e eu já tirei óleo de todas as sementes que coleto para a Rede¨, explica.

O trabalho das coletoras com as demais partes que envolvem a semente vão de encontro a apresentação de Jeferson Straatmann, coordenador do projeto Territórios da Diversidade, do Instituto Socioambiental (ISA), parceiro da ARSX, que tratou do tema “Diversidade e novos mercados¨ e trouxe exemplos de outras cadeias de valor de produtos florestais. ¨A aceitação dos produtos da sociobiodiversidade não está dada, é preciso preparar a sociedade para recebê-los, além de ensinar como utilizá-los¨, ponderou.

Sementes do futuro

A restauração foi um dos temas mais discutidos durante várias partes da programação. Os desafios para o Brasil alcançar a meta de 12 milhões de hectares até 2030 foram levantados por Rodrigo Junqueira, do Conselho Curador da ARSX e coordenador do programa Xingu do ISA, assim como as oportunidades via incentivos governamentais.

¨Para seguir as diretrizes do Planaveg (Plano Nacional de Recuperação de Vegetação Nativa) e atingir uma das metas colocadas no plano, que é de 809 toneladas de sementes por ano, vamos precisar de 22 mil coletores de sementes no Brasil, ou seja, 50 redes como a nossa espalhadas. Por isso temos que continuar a fazer o nosso trabalho e encorajar outros organizações e pessoas a fazerem trilhas parecidas.¨

O reconhecimento da ARSX foi o motivo que trouxe o grupo formado por várias instituições que atuam na região do Mosaico Gurupi para conhecê-la. ¨Queremos trazer essa experiência para os povos indígenas e agricultores daqui para fazer a cadeia da restauração também no Estado do Maranhão¨, diz Francisco Júnior, assessor técnico do Instituto Sociedade População Natureza.

Para o coletor Agemiro Ferreira dos Santos, do PA Dom Pedro, São Félix do Araguaia, a restauração é o principal motivo para fazer parte da Rede. ¨Eu tenho vontade de ver o que foi antes, quando a paisagem era outra e o clima também, menos quente, mais agradável. Como já tenho idade já estou saindo e os jovens precisam entrar nisso para que haja um futuro¨, aponta.


Os jovens representaram 25% dos participantes do Encontro e foram expressivos na apresentação das pesquisas realizadas sobre a Rede. Marcos Vinícius Silva Lima, responsável da Casa de Sementes de Nova Xavantina e bolsista do laboratório de análise de sementes nativas da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), mostrou os resultados de alguns testes de germinação, emergência, pureza e umidade realizados com as sementes da ARSX. ¨Fazemos todas as análises para comercializar no varejo e a partir desse ano já podemos entregar laudos. Há especialização em diversos setores como o agrícola e é muito importante aplicar os padrões de qualidade florestais também nas sementes nativas¨, reflete.

Contexto micro e macro

A Assembleia foi o momento de compartilhar os desafios e perspectivas da Rede após dez anos de história. Um dos pontos centrais apontados por Junqueira foi a consolidação dos mecanismos de gestão e a clareza da função de cada um dentro da Rede que, por ser muito diversa, tem a necessidade de ter esses papéis reconhecidos.

No nível macro os desafios expostos são relacionados ao fortalecimento das políticas públicas como mecanismos de pressão para alavancar o mercado de restauração florestal. ¨Estamos vivendo um momento complicado no Brasil como um todo, mas a Rede é muito resiliente e mostra sua capacidade de superação mesmo no meio dessa crise¨, completa Junqueira.

As boas perspectivas também foram levantadas por Francisco Igliori Gonsales, do Conselho Fiscal da ARSX, que enxerga a demanda por sementes como inevitável para o país. ¨O trabalho da Rede é absolutamente fundamental para a humanidade e o Brasil vai precisar cada vez mais dessa experiência que já é um exemplo a ser replicado¨, afirma.

Se depender do entusiasmo dos coletores ao final do Encontro, as perspectivas positivas dos conselheiros tendem a se cumprir. ¨A cada evento desse eu sinto que se realiza algo que a gente sonha. Antes de chegar aqui queremos realizar algo mas depois o que acontece é melhor do que pensávamos. Por isso vamos para casa felizes, certos de que estamos no caminho certo¨, comemora o coletor Ronaldo Nogueira da Silva, de Santa Cruz do Xingu.

Imagens: 

Comentários

O Instituto Socioambiental (ISA) estimula o debate e a troca de ideias. Os comentários aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião desta instituição. Mensagens consideradas ofensivas serão retiradas.