Xingu perde um de seus mais jovens cantineiros

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Roberto Almeida

Morreu no dia 14 de dezembro, aos 26 anos, o cantineiro André Luiz Rocha dos Santos, morador da comunidade São Lucas, que fica na Reserva Extrativista Rio Iriri, no Pará.

Ele sofreu um acidente de motocicleta em Altamira, foi levado para o Hospital Regional da Transamazônica, mas não resistiu aos ferimentos. Deixou dois filhos, Jorge (6) e Artur (3).



André Luiz, liderança entre os jovens, era a promessa de uma nova geração de cantineiros. Filho de Andra Rocha Siqueira, uma das primeiras professoras das Reservas Extrativistas da região de Altamira, ele apoiava o pai, Zequinha, e cuidava da contabilidade da cantina São Lucas.

Nela, fazia as anotações sobre o recebimento dos produtos da floresta, como castanha-do-Pará, borracha e farinha do coco babaçu.

A dinâmica era a seguinte: o pai, sem alfabetização, cuidava das negociações dos produtos e da política local. André, por sua vez, controlava as contas. Era uma das dobradinhas entre pai e filho a vigorar nas cantinas da região.

“A Rede de Cantinas da Terra do Meio perde uma liderança promissora”, afirmou Naldo Lima, assessor das associações. “Um jovem engajado, que tinha tudo pra despontar como um bom articulador territorial, muito querido entre os ribeirinhos e indígenas da região.”

Ele continuou: “Jovens como André motivam as ações da rede, e representam a esperança da transmissão dos conhecimentos tradicionais, repassados na prática, de pais para filhos. A Rede de Cantinas lamenta muito essa perda e se solidariza com os pais, familiares, parentes e amigos.”

Durante o Encontro dos Cantineiros, realizado no início de dezembro, foi André Luiz quem apresentou aos parceiros e amigos da Rede de Cantinas da Terra do Meio o balanço do trabalho no ano de 2021.

Bom de bola, o cantineiro era conhecido por outras comunidades por levar o sorriso e a alegria, como fazia para a Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio para jogar futebol.

“André era o futuro da Rede de Cantinas da Terra do Meio”, afirmou o antropólogo Augusto Postigo, do Instituto Socioambiental (ISA). “Ele era super empolgado, rápido, esperto, agilizado. Essas eram as marcas dele.”

“André era aquele cara que estava sempre sorrindo e disposto a ajudar todo mundo. Não só comigo, mas com todo mundo. Um grande parceiro”, relembrou Victor Cabreira, assessor técnico do ISA na Resex Rio Iriri.

O que faz um cantineiro?

André Luiz, assim como o pai, Zequinha, era um cantineiro. Ele cuidava da contabilidade da cantina São Lucas, na Reserva Extrativista Rio Iriri.

As cantinas são uma espécie de entreposto comercial com funções sociais importantes dentro das comunidades. Elas dão condições para que a economia local, baseada no cuidado com a floresta, se desenvolva com mais autonomia.

As cantinas são abastecidas por ribeirinhos indígenas com produtos como farinha do coco babaçu, óleos de andiroba e copaíba, castanha-do-Pará, sementes florestais e borracha. Em troca, eles recebem em dinheiro ou mercadorias da cidade no ato da entrega, evitando os longos e caros deslocamentos pelos rios da região.

Os cantineiros administram essas relações comerciais, operacionalizam o capital de giro e prestam contas sobre seu funcionamento das cantinas em reuniões anuais, chamadas de Encontro dos Cantineiros.

Hoje, são 27 cantinas espalhadas em Reservas Extrativistas e em Terras Indígenas, que trabalham em rede, o que facilita o ganho de escala e as negociações de seus produtos.
Essa rede é chamada de Rede de Cantinas da Terra do Meio e os produtos desse arranjo coletivo de produção e comercialização levam a marca Vem do Xingu.

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