Cultura indígena é destaque no lançamento do livro que traça um perfil socioambiental de Barcelos (AM)

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Uma apresentação da dança cariço e quitutes como quinhampira e açaí animaram o evento de lançamento da publicação idealizada pelo ISA e pela Asiba, Barcelos Indígena e Ribeirinha | um perfil socioambiental, no último sábado, 23 de novembro, na praça da cidade
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Resultado de quase quatro anos de pesquisas colaborativas realizadas em parceria pela Associação Indígena de Barcelos (Asiba), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA), o lançamento na praça da cidade, à beira do Rio Negro, no último dia 23/11, contou com o apoio e a participação do Núcleo de Arte e Cultura Indígena de Barcelos (Nacib) e da Secretaria Municipal de Turismo (Setur), para a realização de uma noite cultural que buscou, assim como o livro, dar visibilidade e valorizar a riqueza e a complexidade do modo de vida indígena e ribeirinho, os conhecimentos e práticas locais e a importância destes na dinâmica social da região.

Os turistas que praticam a pesca esportiva no município se surpreenderam ao conhecer a diversidade local, muito além do tucunaré (Chila), objetivo do turismo que se configura como a mais importante atividade econômica de Barcelos. O secretário de turismo – Vadilson Gonçalves da Silva – reforçou a importância da publicação para as escolas e a população de Barcelos, enfatizando que os dados irão colaborar com o Plano de Ordenamento Turístico da cidade.


Barcelos Indígena e Ribeirinha - um perfil socioambiental
apresenta o município ao leitor, a partir dos resultados do Levantamento Participativo Socioambiental de Barcelos, realizado entre 2009-2010. Foram 676 entrevistas domiciliares, envolvendo 30 comunidades indígenas e ribeirinhas e famílias indígenas associadas da Asiba que residem na sede municipal.

Inicialmente buscou-se traçar o perfil socioambiental e socioeconômico dessas comunidades, além de suas histórias e as trajetórias das famílias que nelas residem. Posteriormente, desdobrou-se em outras pesquisas e registros acerca da dinâmica de ocupação e modos de vida da população, considerando o histórico de colonização da região até a configuração atual. Mais de 30 pessoas, entre pesquisadores, colaboradores, autores e editores envolveram-se no processo de pesquisa e na produção do livro. (Para saber mais sobre o levantamento e parte do processo de produção do livro, clique aqui e aqui.

Durante o evento, Dilsa Tomas de Melo, liderança da etnia Baré e atual presidente da Asiba e Maria Aparecida Dias, Tukano, ex-presidente da Asiba falaram da importância das pesquisas e ações de valorização cultural para formação da juventude e sua aproximação na agenda de atuação da associação, sobretudo nos processos de afirmação dos direitos e conhecimentos indígenas.

Pesquisadores indígenas estudaram quatro comunidades

A publicação se divide em duas partes. A primeira apresenta um resumo histórico da região e elementos de Barcelos contemporânea, além da narrativa de quatro comunidades (Carvoeiro, Vila São Joaquim, Vila Conceição e Pai Raimundo) estudadas pelos pesquisadores indígenas e co-autores do livro Celso Jânio Dias Campos, Cleidinaldo dos Santos Soares, Estanislau da Silva Pinheiro Fliho, Francilene Gomes Pinheiro. A segunda parte analisa os resultados do Levantamento Participativo Socioambiental de Barcelos e uma perspectiva para o desenvolvimento socioambiental do município. O encarte Cartografia, história e dinâmicas de ocupação em Barcelos (AM) traz dois mapas em carta-imagem da área urbana e entorno e, no verso, um mapa do município com destaque para a cronologia histórica de quatro comunidades.

Organizada pelas antropólogas do ISA Camila Sobral Barra e Carla Dias, a publicação mostra os resultados de um processo intercultural e colaborativo de pesquisa, com a premissa de que o conhecimento das populações tradicionais e indígenas é condição necessária para o efetivo desenvolvimento da Amazônia, com a garantia do bem viver de seus habitantes e do planeta.

Barcelos indígena e ribeirinha
será distribuído gratuitamente para as escolas, associações, instituições e comunidades do município, além de parceiros e comunidades de Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. Uma parcela de exemplares será vendida na sede da Asiba, com intuito de contribuir com os trabalhos e a sustentabilidade da associação e também no site do ISA. Cada exemplar custa R$ 30,00.

A partir de janeiro de 2014 estará à venda também na Galeria Amazônica em Manaus e na Wariró, Loja de Produtos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira.


Saiba mais sobre o município de Barcelos

Localizado na região conhecida como Médio Rio Negro, noroeste amazônico, o município de Barcelos, fundado em 1728, foi a primeira sede da Capitania de São José do Rio Negro. Conhecido também pelo seu antigo nome, Aldeia de Mariuá, compreende hoje uma extensão territorial de 122.476 km2 e 25.718 habitantes (IBGE, 2010). (Veja no mapa ao lado e clique para ampliar).

As pesquisas realizadas no universo das 30 comunidades representadas pela Asiba e junto às famílias associadas residentes na sede municipal de Barcelos nos anos de 2009 e 2010 apresentam um perfil de maioria Baré, nascidos e criados no próprio município. De um modo geral, a população valoriza a formação escolar mas tem pouco acesso à educação básica e de qualidade. Majoritariamente jovem, tem uma economia baseada na exploração dos recursos naturais, inseridas em múltiplas atividades – comerciais ou não –, como pesca, agricultura, produção de artesanato, extrativismo e turismo, quase todas organizadas em cadeias complexas de intermediários e aviamento.

A renda monetária fixa mensal restringe-se em quase sua totalidade a empregos públicos e programas de benefícios sociais do governo federal, como bolsa família e aposentadorias.
Nos últimos anos tornou-se perceptível a diminuição de estoques pesqueiros e de áreas extrativistas e o consequente acirramento de conflitos por acesso e controle a esses recurso.

Ao mesmo tempo, a população se mostra mais informada e organizada, assumindo um protagonismo nas discussões e proposições de soluções socioambientais. A viabilidade de um modelo de desenvolvimento requer o reconhecimento e respeito aos potenciais produtivos da região em consonância com os modos de vida, uma vez que estes são diretamente responsáveis pela condição de existência das riquezas que se pretende explorar, valorizar e conservar.

O município de Barcelos, com baixíssimo índice de desmatamento, faz parte do Corredor Central da Amazônia, um dos mais importantes corredores de biodiversidade. A preservação das riquezas do Rio Negro é indissociável do bem viver das comunidades. O conhecimento local e as práticas associadas ao manejo dos recursos constituem um corpus de patrimônio socioambiental e serviços prestados à conservação que precisam ser reconhecidos e valorizados com políticas públicas adequadas, de modo que possam revelar uma maneira de viver na floresta amazônica, a partir dela, relacionando-se com ela e com o objetivo de mantê-la.

Camila Barra e Carla Dias
ISA
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