Destruição no Xingu é recorde em área de influência da rodovia da soja

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Monitoramento da Rede Xingu + mostra desmatamento recorde em março e abril de 2021, reflexo da fragilização da fiscalização no entorno da BR-163; em Unidade de Conservação que teve operação suspensa, destruição cresceu 4.000%
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A BR-163 é um dos principais eixos de escoamento da soja produzida no Mato Grosso. Corta o Estado até o Pará, onde segue até o complexo portuário de Miritituba, em Itaituba (PA). No seu entorno, um dos corredores ecológicos mais importantes da Amazônia: a bacia do rio Xingu e todo o mosaico de Terras Indígenas e Unidades de Conservação que protegem 26 milhões de hectares da Amazônia. E é justamente no trecho de influência da BR-163 que a floresta está mais ameaçada, segundo dados do boletim Sirad-X, da Rede Xingu +. Acessa aqui o boletim.

A destruição vem num crescente desde 2019, mas em 2021, ela foi recorde: aumento de 359% nos quatro primeiros meses de 2021. Os meses de março e abril de 2021 apresentaram os maiores valores registrados em toda série histórica, atingindo 1.106 ha e 1.249 ha desmatados. Isso em pleno verão amazônico, época de chuvas, quando o desmatamento costumava arrefecer - o que não ocorreu este ano. Os dados foram calculados num trecho de 5 km de cada lado da rodovia, no seu trecho inicial no Pará, desde a divisa com o MT até a altura do distrito de Castelo dos Sonhos.

A escalada é reflexo da fragilização da fiscalização na área, e consequência do aumento contínuo de atividades ilícitas, segundo Ricardo Abad, pesquisador do Observatório de Olho no Xingu da Rede Xingu +. Nessa região, uma operação de fiscalização contra crimes ambientais chegou a ser suspensa pelo ICMBio, órgão responsável pela gestão das Unidades de Conservação. A operação retiraria 1.000 cabeças de gado da Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, mas foi cancelada sem nenhuma justificativa. O desmatamento nessa mesma UC cresceu 4.225% em março e abril de 2021 em relação a 2020. A Rebio é estratégica para a conservação, pois protege centenas de nascentes que formam importantes rios da bacia do Xingu e Tapajós.

A explosão do desmatamento na Rebio, área que um ano antes apresentava níveis relativamente baixos de derrubada (8 ha em março e abril de 2020), indica que a destruição está avançando sobre áreas antes conservadas. E segue intensa em regiões com altos níveis de invasão, como a APA (Área de Proteção Ambiental) Triunfo do Xingu, a UC mais desmatada no período. A APA concentrou 89% do total desmatado em Unidades de Conservação. Tanto na Rebio quanto na APA, o desmatamento está ligado à abertura de novas áreas para pasto. A APA foi a Unidade de Conservação mais desmatada em 2020, de acordo com o Prodes, boletim do Inpe que analisa o desmatamento da Amazônia. Entre agosto de 2019 e julho de 2020, foram 43.868,83 hectares de floresta derrubados.



Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo (RBNSC)

A Rebio Nascentes da Serra do Cachimbo é uma unidade de conservação de proteção integral, com uma área de 342.478 hectares. A Rebio protege centenas de nascentes perenes, formadoras de importantes rios das bacias do Xingu e do Tapajós, o que faz com que possua significativa importância ambiental e, também, devido à sua heterogeneidade e peculiaridade ambiental.

A Rebio está localizada no chamado Complexo do Cachimbo, formado pelo conjunto de uma serra e uma chapada, isto que deu origem ao nome "Serra do Cachimbo". A Reserva garante a manutenção de grandes blocos de vegetação nativa na região do Arco do Desmatamento, às margens da BR-163, mantendo, inclusive, a diversidade genética das formações florestais que sofrem maior pressão de exploração econômica. Os moradores da área da Rebio, antes da sua criação, já haviam apresentado uma proposta para o estabelecimento de nove "reservas ecológicas", num total de 119 mil hectares, correspondendo às áreas mais elevadas, onde se localiza a maior parte das nascentes da área (MMA, 2009).

Esta região foi considerada como prioritária desde as primeiras propostas de conservação em larga escala para a Amazônia, em particular no projeto Parques e Reservas do Programa-Piloto para Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras - PPG7. É considerada uma área estratégica na composição do Corredor dos Ecótones Sul Amazônicos, que abrange desde o estado de Rondônia até o estado de Tocantins, um dos cinco corredores da Amazônia definidos pelo Ministério do Meio Ambiente.

Nos territórios do povo Mebêngôkre (Kayapó), a destruição tem a ver com o garimpo, também impulsionado pela redução da fiscalização e com a expectativa de legalização desta atividade por meio do projeto de lei n°191/2020, protocolado pelo governo federal no Congresso Nacional em fevereiro do ano passado.

Dentre as Terras Indígenas (TI), a TI Kayapó foi a campeã de desmatamento em março e abril. Foram 453 hectares, um aumento de 59% em relação ao mesmo período de 2020. Os invasores derrubam a floresta para abrir ramais, estradas ilegais dentro da mata com o objetivo de escoar a produção. Além disso, o próprio garimpo causa destruição e deterioração da floresta, além de contaminar os rios e impulsionar a violência nos territórios.



Entre 2018 e 2020, o desmatamento na TI Kayapó decorrente do garimpo atingiu 4,7 mil hectares e superou em 31% o total desmatado em quase 40 anos - entre 1980 e 2017. No final de abril, os Mebêngôkre publicaram um manifesto gravado por 60 aldeias em repúdio ao avanço da mineração ilegal em seus territórios. Reunidos na aldeia Kriny, Terra Indígena Kayapó (PA), os indígenas pediram o arquivamento de projetos de lei que pretendem legalizar o garimpo. “Estamos em constante luta pela nossa sobrevivência e para permanecer quem somos. Não vamos abrir mão de nossas terras por promessas falsas vindas do governo Bolsonaro”, alertam os Kayapó. [Leia a carta na íntegra]

O Tamanho da Cidade de Fortaleza no Chão

Entre março e abril, foram 29.191 hectares de floresta ao chão em toda a bacia do Xingu, nos Estados do Mato Grosso e Pará. É o tamanho do município de Fortaleza (Ceará) totalmente destruído em uma velocidade de 196 árvores derrubadas por minuto. A derrubada representa um aumento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado.

A região paraense da bacia se destacou pelos altos índices de desmatamento neste bimestre, com 17.962 ha desmatados, 62% do total detectado no período.Mesmo no inverno amazônico, estação com muita chuva na região, o que dificulta a ação dos infratores, o desmatamento apresentou aumento de 36% em relação a março e abril de 2020. Já no Mato Grosso, o desmatamento teve aumento de 48% em comparação com o mesmo período do ano passado.



Altamira e São Félix do Xingu, no Pará, foram os municípios que mais desmataram na bacia, concentrando juntos 55% do total. Altamira, primeiro lugar do ranking, apresentou incríveis 7.984 ha de floresta derrubada apenas no mês de março.

O município permanece como primeiro na lista dos que mais desmatam no Xingu, com quase 15 mil hectares desmatados somente nos 4 primeiros meses do ano, um aumento de 63% em comparação aos primeiros 4 meses de 2020. São Félix do Xingu, em segundo lugar, compreende áreas intensamente desmatadas devido à pressão exercida pela pecuária, com grandes áreas convertidas em pasto em pouco tempo.

Em terceiro lugar temos União do Sul, no Estado de Mato Grosso, que apresentou mais de 2 mil hectares de desmatamento somente em abril, um aumento de 443% em comparação a abril do ano passado. Marcelândia, na quarta posição, teve o maior aumento (237%) entre março e abril de 2021, passando de 416 ha em março para 1.404 ha.

Clara Roman
ISA
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