Elas podem curar o mundo

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Primeira Marcha de Mulheres Indígenas levou 2.500 representantes de 130 povos às ruas de Brasília, pedindo respeito aos seus territórios, corpos e espíritos
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Aos seis anos, Tainara de Oliveira foi visitar seu pai na prisão. Ele e outras lideranças Kaingang, da Terra Indígena Toldo Chimbange (SC), foram presos na luta pela demarcação do território. Tainara conta que o viu algemado, uma lembrança dolorosa. Com os homens presos, as mulheres passaram a liderar a comunidade. Assim Tainara cresceu: na luta, observando o protagonismo das mulheres indígenas.

Na última terça-feira (13/8), Tainara, agora com 22 anos, marchou em Brasília, ao lado de 2.500 mulheres, de 130 povos indígenas diferentes, na primeira Marcha das Mulheres Indígenas. Uma manifestação histórica, justamente no momento em que povos indígenas e seus territórios são transformados em alvos prioritários para garimpeiros, madeireiros e grileiros incentivados pelo governo de Jair Bolsonaro. Ele próprio, o presidente do Brasil, um símbolo do machismo e da misoginia.


“Foi muito emocionante, porque o primeiro movimento que eu estive foi pela libertação do meu pai”, conta Tainara. Para chegar em Brasília, foram 24 horas de estrada. A van quebrou no caminho. Também foi a primeira vez que deixou seu filho apenas com o pai.

O tema da marcha “Território, nosso corpo, nosso espírito”, foi definido em uma plenária, durante o Acampamento Terra Livre, em abril. “O território é nossa própria vida, nosso corpo, nosso espírito”, explicam as mulheres em seu documento final. “A vida e o território são a mesma coisa, pois a terra nos dá nosso alimento, nossa medicina tradicional, nossa saúde e nossa dignidade,” afirma o manifesto.

Na terça-feira, as mulheres caminharam cerca de quatro quilômetros, do acampamento, na Funarte, até o Congresso Nacional, cantando por todo o percurso, em várias línguas diferentes.

Foi a primeira marcha mas, para a maioria delas, a luta começou há muito tempo. “Para nós sempre esteve difícil”, afirma Angélica Domingos, também da etnia Kaingang. Após a marcha, um grupo de 100 mulheres indígenas entrou no Congresso Nacional, e participou de sessão no plenário da Câmara dos Deputados.

Na segunda-feira, 12/8, elas haviam ocupado o prédio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), contra a privatização, a municipalização ou estadualização da saúde indígena, e por melhores condições no atendimento.

“Nunca conseguimos nada sem lutar, sem perder muitos de nós”, afirma Sônia Guajajara, da coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A conjuntura está especialmente difícil esse ano, aponta ela, com a eleição de Jair Bolsonaro.


O documento final das mulheres (leia aqui) deixa clara a sua posição contra o atual governo. “Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas”, aponta.

“Os povos indígenas são o alvo número 1 desse governo”, explica Célia Tupinambá. O desmatamento e invasões aos territórios indígenas dispararam. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento de 216% em julho dos alertas de desmatamento na Amazônia, em comparação ao mesmo mês do ano passado. “É um desenvolvimento burro. Daqui uns dias você vai ter que comprar oxigênio”, diz ela.

Watakakalu Yawalapiti lidera um grupo de mulheres do Xingu, de 16 etnias diferentes. Na terça-feira, às 7h da manhã, as xinguanas se pintavam. Pouco depois, deixaram a parte esquerda do acampamento, onde estavam suas barracas, e atravessaram o gramado cantando e dançando até a tenda principal, onde se uniram às outras mulheres.

O pai de Watakakalu, Piracumã Yawalapiti, foi importante cacique de sua etnia. Assistindo à luta de seu pai, Watakakalu entendeu que as mulheres tinham sua própria contribuição. “Eu quero que todas que venham, subam naquele palanque e falem. Eu quero várias mulheres aqui, não só duas, três, mas todas”, diz ela. Hoje, ela coordena a Atix (Associação Terra Indígena do Xingu) Mulher.



Força da ancestralidade

“A colonização tentou apagar o sagrado feminino”, afirma Angélica Domingos, também indígena do povo Kaingang. “A mulher indígena tem o papel de transmitir o conhecimento para outras gerações. Está transmitindo esses saberes, esses valores, que a gente vai tá passando para nossas crianças”, diz.

A ancestralidade, e a transmissão dos saberes foi um dos pontos abordados no documento final. “É uma força ancestral que nos acompanha desde sempre”, explica Angélica.

Elas carregam as histórias de suas antepassadas, que nunca chegaram nos livros da história oficial. Tainara conta a história de Ana da Luz, anciã de seu povo, que morreu aos 114 e foi a primeira pessoa a lutar pela retomada de seu território. Ana da Luz ensinava a língua Kaingang escondido para seus filhos, em um tempo que o idioma foi proibido pelos brancos.

“Precisamos dialogar e fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais para podermos avançar nos nossos pleitos sociais relacionados aos nossos territórios”, diz o documento final da marcha.

Assista ao vídeo:

A floresta pede socorro

Impedir que a floresta seja derrubada, os territórios ocupados e degradados. Em seu documento final, as mulheres lembraram que são os povos indígenas os responsáveis pela conservação da maior parte da biodiversidade do mundo, contribuindo para sustentar a vida na terra.

“A gente consegue entender o que a natureza está pedindo e ela está pedindo socorro. O nosso espírito é a natureza, os nossos encantados”, explica Célia Tupinambá. “É uma coisa assim que as pessoas não tem dimensão. De ouvir um besouro falar com você. De um sagui, um mico-leão olhar para você e falar para você e você entender”, afirma.

Marcha das Margaridas

Na quarta-feira, 15/8, cerca de 100 mil mulheres, trabalhadoras rurais de todo o país, marcharam em Brasília na já histórica Marcha das Margaridas. A marcha ocorre a cada quatro anos, desde 2000. Mas, pela primeira vez, contou com a participação das mulheres indígenas, que se uniram ao movimento.

O movimento é inspirado na história de Margarida Maria Alves, liderança assassinada por defender os direitos de trabalhadoras e trabalhadores rurais. E cujos assassinos nunca foram julgados.

“Quando elas passaram, pintamos elas de urucum. E por mais que saia em dois dias, elas ficarão para sempre pintadas. O momento da marcha das mulheres indígenas com a das margaridas significa um momento de cura da realidade”, afirma Célia Xakriabá, do povo Xakriabá, de Minas Gerais.

“Nós temos essa força, mulheres, vamos nos unir. O planeta, o mundo está doente. E nós temos a oportunidade de trazer essa cura, vamos curar esse mundo junto com a gente”, conclui Watakakalu, com o corpo todo pintado com os grafismos do Xingu.



Clara Roman
ISA
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