Em meio a pandemia, indígenas do Javari denunciam ameaça de missionários a isolados

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Sede de organização indígena foi invadida por religioso norte-americano que queria obrigar coordenador a emitir recomendação de entrada na Terra Indígena, segundo relatos
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Paulo Kenampa Marubo, coordenador geral da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), alertou para ameaças de missionários e pastores à Terra Indígena Vale do Javari. Neste território vive a maioria dos povos indígenas em isolamento do Brasil, com 16 registros (10 confirmados). Dois missionários norte-americanos estariam pressionando membros da organização, cuja sede fica em Atalaia do Norte, Amazonas, para conseguir uma autorização de entrada, exigida pela Fundação Nacional do Índio (Funai).



Uma ação assim colocaria em risco a vida dos Korubo, Kulina-Pano, Marubo, Matis, Matsés, Tsohom-dyapa e dos isolados, que têm um sistema de imunidade mais vulnerável a doenças. A ausência de uma infra-estrutura de saúde próxima aumenta ainda mais o risco, devido à agressividade de alguns casos de Covid-19, que demandam internação em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) e respiradores. São somente 10 pólos-base de saúde que contam com técnicos de enfermagem: Massapê, Tawaya, São Luís, Boa Vista, Vida nova, São Sebastião, Maronal, Trinta e Um, Nova Esperança e Lobo.

Os pólos-base respondem pelo atendimento de 57 aldeias e cinco mil indígenas. De acordo com o Ministério Público federal (MPF), uma ação de contato por instância sem capacidade legal e técnica para tomar decisões referentes aos isolados "pode agravar a exposição à Covid-19 de povos que já têm pouca ou nenhuma capacidade de resposta imunológica ao vírus", conforme nota.

“Queremos que o mundo saiba o que está acontecendo e queremos ver o estado [do AM] tomar providências, porque a atuação dos missionários aqui é muito grande, muito forte”, lamentou Kenampa. “Eles têm avião e viajam por cima [de nós]. Argumentam que no céu não tem lei, só na terra. Lá em cima ‘não tem lei que impeça a entrada deles’, dizem”, relatou o indígena da etnia Marubo, do Alto Curuça, no sábado (21/03).

Invasão à Unijava

Na tarde de quarta-feira (25/03), denúncias indicaram que o pastor Josiash Mcintyre, dos Estados Unidos, acompanhado de um jovem Marubo que reside na BR 307, invadiu a sede da Unijava. O objetivo era intimidar os indígenas para arrancarem de Kenampa uma recomendação para entrar na TI Vale do Javari -- uma exigência da Funai. Josiah teria dito que iria atear fogo na sede da Univaja, conforme depoimento de Moaci Shãkõpa, coordenador geral da Associação de Desenvolvimento Comunitário do Alto Curuçá (ASDEC). "Estamos tomando as providências pela invasão ao prédio e as ameaças", afirmou Eliesio Marubo, da procuradoria jurídica da Unijava.



Segundo reportagem de O Globo, Josiash atua com Andrew Tonkin, ligado ao Movimento Novas Tribos do Brasil, rebatizado Ethnos360 e dedicado à evangelização de índios na região desde os anos 1950. Lideranças Marubo e Matsés relataram que o religioso reuniu indígenas convertidos e outros integrantes da organização Frontier International durante as últimas semanas para fazer uma expedição ao Igarapé Lambança, território habitado por isolados.

A Ethnos360 recentemente adquiriu um helicóptero R66, que custa R$ 4 milhões, para facilitar o traslado dos missionários até as aldeias. O receio é que ele seja usado para contactar os isolados. Desde 1987, o Brasil mantém uma política específica para os povos isolados, nas mãos da Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC). Protocolos para localização, aproximação e contato com os indígenas devem ser respeitados.

Os Marubo, povo da família linguística Pano, que ocupa os rios Ituí e Curuça, assim como os demais povos da TI Vale do Javari, rejeitam qualquer interesse de contato com os povos isolados na região e têm certeza que a entrada dos missionários poderia ser fatal.

Silia Moan
ISA
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