Ibama sofre atentado no Pará após veto a Medidas Provisórias

Órgão considera incidente como "atentado" e suspeita de madeireiros ilegais
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No que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) qualifica como “atentado”, oito caminhonetes do órgão, além da carreta que as transportava, foram queimadas, na madrugada desta sexta (7/7), na localidade de Cachoeira da Serra, às margens da rodovia BR-163 (Cuiabá-Santarém), no município de Altamira, mas perto da cidade de Novo Progresso, no sudoeste do Pará. Outra carreta com o mesmo número de caminhonetes escapou.

A ação seria uma retaliação de madeireiros ilegais que atuam na Terra Indígena Menkragnoti, segundo o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo. De acordo com ele, o serviço de inteligência do órgão já tinha identificado a intenção dos criminosos de queimar os veículos e os motoristas das carretas desobedeceram a orientação de dormir numa base militar próxima.

A informação sobre a intenção de pelo menos reter os caminhões também circulou na região nos últimos dias. Desde o início da semana, associações de produtores rurais e políticos organizaram bloqueios na Cuiabá-Santarém, perto de Novo Progresso, para exigir que o governo envie ao Congresso um Projeto de Lei prevendo a redução em 480 mil hectares da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim. Os líderes da mobilização dizem que só vão liberar a estrada definitivamente quando a proposta for apresentada no parlamento.

Há algumas semanas, o ministro de Meio Ambiente, Sarney Filho, comprometeu-se com o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) a enviar o projeto, em regime de urgência, em troca do veto da Presidência da República às Medidas Provisórias (MPs) 756 e 758. A primeira previa a redução de 486 mil hectares da Flona. A segunda retirava 101 mil hectares do Parque Nacional do Jamanxim, também localizado na região. Sarney disse que o envio do PL à Câmara depende de um parecer do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (saiba mais).

Num áudio que circulou por Whatsapp a que a reportagem teve acesso, uma pessoa não identificada, que diz estar em Sorriso, no norte do Mato Grosso, conta que as carretas estão seguindo para Santarém, no Pará. “É o efeito Noruega desses dias”, comenta. A frase faz menção à viagem recente do presidente Michel Temer ao país escandinavo, em que o governo norueguês lembrou que os recursos do Fundo Amazônia, que conta com doações da Noruega e financia projetos de conservação ambiental no Brasil, seriam reduzidos por causa do aumento das taxas do desmatamento na Amazônia, medida já prevista nas normas do fundo. Antes e durante a viagem, representantes do governo norueguês manifestaram preocupação com a possível redução de áreas protegidas no Brasil.

O Fórum de Entidades Empresariais do Pará, que inclui uma série de organizações como a Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA), pediu ao governador Simão Jatene (PSDB) a suspensão das atividades do Fundo Amazônia no estado no fim de junho.

Fontes em Novo Progresso contam que, diante desses fatos, havia a expectativa na cidade da intensificação da fiscalização ambiental. Daí a intenção de parar as carretas do Ibama, o atentado e o clima tenso na região.

Luciano Evaristo conta, porém, que a frota de caminhonetes do órgão é renovada de dois em dois anos, que a chegada das carretas é normal e vinha sendo feita sem incidentes nos últimos anos. De acordo com ele, madeireiros ilegais já chegaram a acorrentar um helicóptero do Ibama para impedir ações de fiscalização. Em junho do ano passado, o policial militar João Luiz de Maria Pereira foi assassinado em uma emboscada por madeireiros durante uma operação do órgão ambiental. Também seriam comuns ameaças a agentes da instituição.

Um produtor rural de Novo Progresso que prefere não se identificar diz que o grupo que cometeu o atentado é o mesmo que age roubando madeira, desmatando ilegalmente e grilando terras em várias das áreas protegidas da região, inclusive a Flona do Jamanxim. A quadrilha seria integrada pelos maiores desmatadores locais, também apoiaria o bloqueio da rodovia BR-163 e a redução das áreas protegidas.

Evaristo afirma que a economia local é movida pelo desmatamento, madeireiras e garimpos ilegais e garante que a repressão aos crimes ambientais vai aumentar. Ele informa que, além de encaminhar uma representação com os nomes dos suspeitos ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal (PF), o Ibama vai dobrar o efetivo na região. A emissão dos Documentos de Origem Florestal (DOF), necessários para o funcionamento de serrarias e madeireiras, foi paralisada e só será retomada depois de uma operação de fiscalização. Evaristo informa ainda que está articulando o apoio da PF e a Polícia Rodoviária Federal (leia nota do Ibama).

Oswaldo Braga de Souza
ISA
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