Índios Tupiniquim são agredidos por policiais em Aracruz (ES)

Esta notícia está associada ao Programa: 
O grupo passeava a cavalo pela rodovia ES-110 no último sábado quando foi atacado por PMs em greve com gás de pimenta, balas de borracha e armas. Os índios foram presos e levados à delegacia
Versão para impressão

Sábado último, 4 de fevereiro, em meio a uma greve da Polícia Militar do Espírito Santo, que instalou o pânico e a violência no estado e ficou refém da criminalidade, índios Tupiniquim da aldeia Caieiras Velha, na região de Aracruz, foram agredidos enquanto cavalgavam pela rodovia que liga Vitória à BR-101. Como a PM está em greve, atribui-se a policiais à paisana a irritação com os cavaleiros. Em seguida, chegaram viaturas policiais tentando dispersá-los com gás de pimenta, balas de borracha e armas. Quatro índios acabaram presos e levados para a delegacia. Os Tupiniquim habitam duas TIs na região de Aracruz (ES) - Tupinikim e Comboios. (Saiba mais sobre os Tupiniquim ).

A sócia-fundadora do ISA, Marina Kahn, que há quatro anos trabalha com os Tupiniquim e Guarani em Aracruz, escreveu sobre o ocorrido. Leia abaixo:

"Os Tupiniquim da aldeia de Caieiras Velha, assim como de outras aldeias indígenas do município de Aracruz, gostam muito de cavalos. Mais do que usá-los para o trabalho, trata-se do prazer em tê-los como montaria. Não falta capim na terra indígena para alimentá-los.

Nesse sábado, dia 4 de fevereiro, um grupo de cavaleiros, a maior parte adolescentes, passeava em frente à Praia dos Padres localizada na beira da rodovia ES-110, que liga Vitória à BR-101, passando encostada às Terras Indígenas Tupinikim e Caieiras Velhas II.

Sábados e domingos são dias de passeio, todo mundo concorda. A única peça fora da rotina é a greve da Polícia Militar que abrange o Estado do Espírito Santo e que tem causado tumulto em muitas cidades capixabas, inclusive Vitória.

Mas o que aconteceu neste sábado é inexplicável. Um grupo de cavaleiros Tupiniquim trotava em suas montarias pela estrada de asfalto e alguém achou por bem ver nisso um grande infortúnio. Deviam ser apressados motoristas domingueiros, ávidos por mais uma cerveja na beira da praia.

Reclamaram da presença dos índios atrapalhando o trânsito. Para quem a reclamação, se os PM estão em greve? A versão mais difundida - e plausível - é a de que dois policiais à paisana estavam entre esses domingueiros irritados com os cavalos e seus montadores. Houve bate boca. O fato é que de um momento a outro surgem viaturas com policiais atirando com gás pimenta e, em seguida, com munição de verdade. Os vídeos não nos deixam mentir. Alguém ainda adverte aos atiradores: "Tem criança aí, não faz isso!". Um dos cavalos leva um tiro. Os donos, os colegas e amigos se revoltam. São presos, algemados e levados para a delegacia, onde passaram a noite.

A PM do ES está em greve. Reproduziu-se, em poucos minutos, cenas dos anos 1970, 1980 e 1990, quando a luta pela terra colocava a força policial contra famílias indígenas que se punham na frente das balas de borracha para reaver o que era seu de direito.

Agora, além da injustiça, a situação é absurda e patética: as redes sociais estão atribuindo aos índios e não à arbitrariedade policial - que, repito!, está em greve - a responsabilidade pela "baderna" em Aracruz. Até as aulas foram suspensas nessa segunda-feira!

Os Tupiniquim e seus aliados Guarani têm bons motivos de revolta. Que saiam às ruas e às estradas pleiteando do Estado tudo a que têm direito e, sobretudo, pedidos públicos de desculpas pela PM. Se a corporação em greve pode bater, atirar e prender, pode parar para escrever nos jornais e nas redes sociais que ela errou feio."

ISA
Imagens: 

Comentários

O Instituto Socioambiental (ISA) estimula o debate e a troca de ideias. Os comentários aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião desta instituição. Mensagens consideradas ofensivas serão retiradas.