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Legado de Juliana Santilli segue incentivando a agrobiodiversidade

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Diversidade das formas de produzir alimentos, preservação e recuperação das sementes e variedades agrícolas, fortalecimento dos modos de vida dos povos tradicionais e do campo, direito à alimentação adequada. A cerimônia de entrega do Prêmio Juliana Santilli de Agrobiodiversidade refletiu a atuação militante da advogada e pensadora em defesa desses direitos e reconheceu iniciativas inovadoras para o fortalecimento da agrobiodiversidade no Brasil. A premiação aconteceu na semana passada, no Memorial Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB). Juliana faleceu novembro de 2015 e foi uma das maiores especialistas do país em agrobiodiversidade.

O prêmio foi dividido em três categorias: trabalho de associações, comunidades e pesquisadores que atuam na ampliação e conservação da agrobiodiversidade; promoção e estímulo à agrobiodiversidade em experiências de economia solidária e associativa; e produções acadêmicas relacionadas a esta área do conhecimento (saiba mais no quadro ao final da notícia). O prêmio é uma iniciativa do ISA, Associação Bem-Te-Vi Diversidade e da Editora Mil Folhas, do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), e tem o apoio da Universidade de Brasília (UnB).

“Que a gente continue com esse prêmio, conseguindo incentivar e fomentar iniciativas de agrobiodiversidade, honrar a memória e o legado da Juliana Santilli e desenvolver um pensamento de vanguarda nessa área”, disse Nurit Bensusan, coordenadora adjunta de Política e Direito Socioambiental do ISA e uma das organizadoras do prêmio.

Na cerimônia, foi exibido o filme Juliana esteve onde esteve, dirigido por Marcela Tamm Rabello e produzido pela família de Juliana. O documentário conta a trajetória e a militância da advogada. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Associação Brasileira de Agroecologia também lançaram o livro Conservação e uso da agrobiodiversidade: relatos de experiências locais, que teve Juliana Santilli entre suas editoras.

Márcio Santilli, sócio fundador do ISA e companheiro de Juliana em vida, falou de algumas das inquietações da advogada em relação ao fortalecimento das iniciativas de agrobiodiversidade e ao acesso a produtos dela provenientes. “Ela entendia que, se não fossem construídas pontes sólidas entre o produtor agrobiodiverso e o consumidor, a tendência é que esse tipo de produção viesse a ser exterminada pela hegemonia das grandes indústrias de sementes e pela agricultura pasteurizada”, lembrou.

"Trazer essas práticas como algo que a gente dignifica, divulga, sustenta e reconhece como valor em termos de sociobiodiversidade. Para mim esse é o grande legado do prêmio", resumiu Joana Braun Bassi, pesquisadora que recebeu menção honrosa pelo trabalho Viver de mato só, não dá! Relações ecológicas entre pessoas, mato e paisagem de uma experiência etnográfica junto a habitantes do Confim da Águas.

Premiados

Os vencedores da categoria um são do Projeto de Assentamento Agroflorestal José Lutzenberger, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Antonina (PR), na Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba. O projeto concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos com a recuperação da Mata Atlântica da região.

“A gente produz respeitando a biodiversidade e garantindo que as famílias camponesas fiquem no campo. Temos que propagandear isso e ser contemplado com esse prêmio é uma forma também de fazer divulgação. A gente se sente muito contente. Dá mais motivação para as famílias continuarem no seu trabalho, na luta. As pessoas que se relacionam com a gente vêem também que é um trabalho que está gerando frutos. Dá incentivo para que novas experiências surjam, mostra pra sociedade que tem outra proposta sendo construída, com base nos princípios agroecológicos, o respeito ao meio ambiente, à vida”, disse Jonas de Souza, representante do Projeto de Assentamento Agroflorestal José Lutzenberger.

Os premiados da categoria doi foram os índios Guarani Mbya do Território Tenondé Porã, na Zona Sul de São Paulo. Trata-se da Tembi´u Porã – Alimento Sagrado, projeto que recupera sementes dos alimentos sagrados para a comunidade e distribui as variedades recuperadas para outras aldeias.

"A importância desse prêmio é bastante significativa para incentivar mais os jovens no plantio. Estamos recuperando espécies de batata doce, de milho tradicional... E dá oportunidade para os jovens, porque hoje o transgênico está acabando tanto com o povo indígena quanto com o povo não indígena. Essa recuperação é orgânica. A gente está muito feliz de estar incentivando os jovens e as famílias e talvez esse prêmio ajude a incentivar mais", afirmou Pedro Vera Popyguá, representante do projeto Tembi´u Porã - Alimento Sagrado.

Na categoria três, o vencedor foi a coletânea intitulada “Práticas e saberes sobre agrobiodiversidade: a contribuição de povos tradicionais”, que reúne textos de Ana Gabriela Morim de Lima, Igor Scaramuzzi, Joana Cabral de Oliveira, Laura Santonieri, Marilena Arruda Campos e Thiago Cardoso. O prêmio inclui a publicação do livro pela editora Mil Folhas.

“A gente tem ela [Juliana] como referência. Quando você conta a história dela, conta a história das lutas dessas populações pelo seu direito às sementes, a seu modo de vida. Para mim, é uma honra gigantesca ter nosso nome ligado ao trabalho dela. O que deixa a gente feliz é que essa publicação traz várias agriculturas. São seis artigos com cinco comunidades diferentes. Vai ficar uma publicação interessante, porque a pessoa que pegar vai ver como é a agricultura a partir dessas comunidades locais, mas também a visão que vem do Estado, que traz ações tão homogeneizantes”, comentou Santonieri.

Victor Pires
ISA
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