Lideranças Yanomami de Palimiú se reúnem com MPF e pedem agilidade no envio de tropas de segurança

Cansados e sem dormir, os indígenas estão há mais de uma semana fazendo a segurança da comunidade, na Terra Indígena Yanomami, na tentativa de se proteger contra os ataques de garimpeiros ilegais
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Na tarde de sábado (15/5) nove lideranças indígenas da comunidade Palimiú se reuniram, em audiência, com o procurador Alisson Marugal, do Ministério Público Federal (MPF). O grupo se deslocou da Terra Indígena Yanomami até a capital de Roraima, Boa Vista, para denunciar à imprensa os sucessivos ataques que vem sofrendo há mais de uma semana, sem a presença, apoio ou proteção permanente da Polícia Federal (PF) ou do Exército brasileiro.



Nesta quarta-feira, 19 de maio, em coletiva de imprensa, Dário Kopenawa, diretor da Hutukara Associação Yanomami afirmou que a situação no Palimiú segue muito tensa com os garimpeiros rondando a comunidade e impedindo as famílias de voltaram a normalidade. Ele disse que a comunidade está sem assistência à saúde há nove dias, com várias crianças com sintomas de malária e continuam sem a presença das tropas de segurança da União.

Ao MPF, as lideranças indígenas informaram a morte de duas crianças yanomami por conta do primeiro ataque, no dia 10 de maio, quando a comunidade foi surpreendida por sete barcos de garimpeiros, que chegaram atirando contra os moradores. Teve início, assim, um tiroteio que durou cerca de meia hora. Quatro garimpeiros teriam sido baleados, e um indígena foi atingido de raspão na cabeça.

Os indígenas, formados por um grupo de homens e mulheres, informaram ainda que neste primeiro conflito todos saíram correndo para se proteger dos tiros e no desespero muitas crianças se perderam e ficaram desaparecidas no mato próximo ao Rio Uraricoera. No dia seguinte os adultos saíram à procura das crianças. Muitas foram encontradas, mas dois meninos, de 1 e 5 anos, foram encontrados apenas no dia 12 afogados.

Durante a audiência, o grupo de lideranças demonstrou seu descontentamento ao procurador diante do descaso do poder público em não enviar forças de segurança à comunidade. “Você aqui é autoridade. Na minha aldeia eu sou autoridade também. Estou aqui para dizer que estamos cansados, com sono. A situação está muito grave, quero saber se o senhor pode nos apoiar com a segurança. E quero que você fale com os outros órgãos e mande uma equipe de segurança hoje ou amanhã. As crianças estão sofrendo muito. Eu estou de luto. Isso eu não quero mais”, disse Fernando Palimi Thëri, pai da criança de cinco anos, que morreu afogada.

O procurador lamentou a morte das crianças e disse que tem cobrado, constantemente, a Funai sobre o envio das tropas federais para proteger a comunidade em conflito. “Estou em contato também com a PF e com o Exército, com o general Frutuoso (responsável pela 1ª Brigada de Infantaria da Selva - 1º BIS). Me garantiram inicialmente que ficariam, permanentemente na comunidade indígena para garantir essa proteção e nos próximos dias, a desintrusão dos garimpos do Uraricoera”, disse Marugal.

Ele relembrou que no dia 12, o MPF ingressou na Justiça, com pedido de liminar para que a União destacasse, imediatamente, tropa policial ou militar para a comunidade Palimiú. No dia 13, a Justiça Federal acatou parcialmente o pedido do MPF e determinou que a União mantivesse o efetivo armado de forma permanente na comunidade indígena, para evitar novos conflitos e garantir a segurança de seus integrantes. Na decisão, ficou estabelecido o prazo de 24 horas para que a União informasse o envio de tropas sob pena de multa a ser fixada. A PF e o Exército cumpriram diligências no local, na última terça-feira e quarta-feira, respectivamente, mas os órgãos não permaneceram para assegurar a segurança na comunidade.

“A União descumpriu essa ordem judicial e não há tropas federais na comunidade. Na sexta-feira eu pedi que o juiz aplicasse uma multa para que o Governo Federal cumpra essa ordem determinando a presença de tropas federais na comunidade. Enquanto MPF eu posso fazer isso, mas não posso obrigá-los, a não ser por uma determinação judicial. Durante toda essa semana eu fiquei em função disso”, disse o procurador.

Mesmo após denúncias a comunidade continua sendo alvo de vários ataques. No domingo, por volta das 21h40 (16/5), os invasores, a bordo de 15 barcos, atiraram contra a comunidade e também arremessaram bombas de gás lacrimogêneo, conforme informou a Hutukara Associação Yanomami (HAY). “Os Yanomami disseram que além dos tiros, havia muita fumaça e que seus olhos estavam ardendo, indicando o disparo de bombas de gás lacrimogêneo contra os indígenas”, diz o ofício da HAY. Foi o quinto dia de ataque ao Palimiú. A continuidade do conflito só reforça a urgência da presença de forças de segurança e instalação de posto emergencial na comunidade determinado pela Justiça à União para proteção e segurança na região.

Evilene PAixão
ISA
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