Morre a pajé Yamoni Mehinaku, mais uma vítima da Covid-19 no Território Indígena do Xingu

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“Bem humorada, astuta, observadora e, o que mais me agradava ao estar perto dela, era como me ensinava a usar seus próprios olhos para ver o que os meus não enxergavam”, escreve Marina Kahn, conselheira do ISA, ao se despedir da amiga
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Na terça-feira, 25/5, morreu Yamoni Mehinaku, minha amiga companheira de conversas, aprendizados e risadas no período em que vivi no Posto Indígena Leonardo, no Parque do Xingu, entre 1983 e 1986. Foi mais uma vítima da Covid-19. Não sei exatamente os motivos que levaram Yamoni a permanecer morando em Canarana (MT) depois que seu marido, Pirakumã Kamaiurá Yawalapti, também faleceu, mas posso suspeitar que tenha sido para ficar perto de seus netos e netas, cujas mães têm importante atuação na representação política alto-xinguana na região. Yamoni sempre valorizou como sua avó teve papel fundamental para sua formação, entre elas a de ceramista, habilidade ancestral de seu povo. “Minha mãe não ensinava, então pedi para minha avó. Ela disse: se você quiser eu ensino.”

Yamoni era imensamente bem humorada, astuta, observadora e, o que mais me agradava ao estar perto dela, era como me ensinava a usar seus próprios olhos para ver o que os meus não enxergavam. Zombando de minha santa ignorância ou estúpida ingenuidade, perguntava: “Marina, ‘cê não tá vendo não?” E caia na risada. A partir dali vinham revelações que me permitiam contextualizar informações dos livros, entender relações de parentesco (oficiais e extra-oficiais) e conhecer regras de comportamento que me libertaram de potenciais vexames…. Foi uma espécie de professora informal porque era, ela própria, ávida por saber das coisas do mundo. Além de entender as línguas faladas pelos parentes por aliança, falava um português perfeito, virtude mandatória entre as nobres famílias alto-xinguanas, como era seu caso. Isto dava mais tempero ao seu cosmopolitismo.

Na grande casa familiar liderada por Paru, seu sogro e depois por Aritana, seu cunhado, ela sempre estava trabalhando fosse no processamento da mandioca, na torra do beiju, no descarregar da lenha, as pernas grossas moldadas pelas amarrações da reclusão, balanço de corpo pra trazer panelões de 10 litros de água equilibrados na cabeça desde o rio que ficava a quase 2 km longe da aldeia. Com filhos no colo, fora do colo, chamando-os para perto de si, repreendendo-os com o riso contido por pactuar a travessura.

“Ela nos orientou, aconselhou com suas sábias palavras, falando para nós sermos boas lideranças femininas, respeitarmos para sermos respeitadas, termos paciência nos momentos difíceis, sermos fortes e ter sabedoria ao receber críticas. E quando não tivermos apoio, nos apoiarmos umas nas outras, que as mulheres são nossa base maior. Tenho gratidão de ter recebido essa orientação e os conselhos dessa mulher de sabedoria ancestral, e com ela aprender”, disse Amaire Kaiabi, do Movimento de Mulheres de Xingu.

Com tanta sabedoria, tanta vivacidade e tanto zelo, Yamoni também ficou pajé. Certamente ela já caminhou pra lá, não sei bem aonde, providenciando o doce e consistente mingau para o marido, o cunhado e o sogro se re-saciarem da generosa e incrível Yamoni.

Marina Kahn
ISA
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