Na linha de frente contra a Covid-19, povo Dâw reforça resgate de antigos caminhos no Rio Negro

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Com a chegada da pandemia a São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, comunidade se isolou e recorreu a remédios tradicionais para se proteger do novo coronavírus
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A cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, fica às margens do Rio Negro. Na orla da principal praia da cidade e de frente para a outra beira do rio, se vê a floresta amazônica. Nos meses menos chuvosos, quando surge uma grande praia de areia branca, parece possível atravessar o trecho a nado e alcançar a floresta. É neste ponto da outra margem onde vive a comunidade Waruá, do povo Dâw.

A proximidade com o ambiente urbano proporciona comodidades à aldeia indígena. Mas, em tempos de Covid-19, a colocou em risco. Dos 157 moradores, ao menos 13 (seis da etnia Dâw e os demais de outras etnias) tiveram Covid-19 confirmada por teste rápido, conforme informações do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN). Ou seja, pelo menos 8% da comunidade teve a doença confirmada. Esse número pode ser maior, já que outros indígenas do Waruá apresentaram sintomas. No total, foram aplicados 14 testes.



Em São Gabriel da Cachoeira, até 14 de julho, havia 3.033 casos confirmados, com 48 óbitos. O dado indica contaminação de 9% da população, de aproximadamente 45 mil pessoas.

Mas não é só a proximidade com o ambiente urbano que coloca o povo Dâw em situação de especial vulnerabilidade. Antropólogos que trabalham com a etnia explicam que, no Rio Negro, os Dâw são o único povo concentrado em uma só comunidade.

Além disso, a comunidade, que chegou a contar com apenas cerca de 70 pessoas nos anos 1980, apresentou crescimento demográfico nos últimos anos, somando 157 pessoas atualmente. Com isso, houve uma pressão sobre o território, reduzindo caça e pesca, aumentando a dependência da cidade e dificultando a estratégia de ida para o mato na tentativa de se proteger contra a doença.

Com a pandemia, o povo Dâw reforçou um movimento que já tinha sido iniciado antes da crise em saúde: a reabertura de caminhos dos antepassados, utilizando o território para fortalecimento da cultura e como proteção.

No início de julho, a professora Auxiliadora Fernandes, liderança do povo Dâw, estava preocupada com a netinha Alessandra, de um ano, que apresentava sintomas parecidos aos da Covid-19. “Na minha família, acho que quase todo mundo teve. Minha nora, meu filho, meus netos. Agora é minha netinha”, disse.




Também liderança do povo Dâw, Roberto Carlos Fernandes Sanches relata que muitas pessoas apresentaram sintomas da Covid-19, mas ninguém apresentou quadros graves.

“A doença no povo Dâw apareceu bem fraco. Não apareceu forte”, contou.

Segundo Auxiliadora, a comunidade se preparou para enfrentar a pandemia e, no início do processo, houve adesão dos moradores. As famílias pediam as compras pelo telefone e os produtos eram entregues no porto, em São Gabriel.

Uma representante buscava as mercadorias. Mas, mesmo com os cuidados, moradores acabaram sendo vetores e levaram o vírus para a comunidade.

Alguns indígenas seguiram mais para dentro da mata, em uma estratégia para se protegerem. A comunidade suspendeu os cultos e os jogos esportivos envolvendo outras aldeias. “Estão jogando só entre a comunidade mesmo. Joga por teimosia”, afirmou Auxiliadora. Trabalhos comunitários foram suspensos. As refeições em comum ocorriam em eventos, que foram cancelados, assim como as aulas.

Além disso, foram feitas reuniões informando sobre a Covid-19, solicitando que as pessoas não fossem à cidade e orientando sobre higienização. “Continuamos pedindo para que as pessoas, se forem à cidade, usem máscaras. Quando chegarem, devem tomar banho, fazer a higienização dos produtos e queimar os sacos dos produtos”, explicou a liderança.

Quatro meses de quarentena

Mais de quatro meses após o início da pandemia no Brasil, a adesão ao isolamento está diminuindo em todo o país. Não seria diferente na comunidade Dâw. Auxiliadora relata que está difícil segurar seu povo na aldeia. Para ir à cidade, de barco, são cerca de 10 minutos com motor do tipo rabetinha. A maioria vai sacar benefícios sociais e fazer compras.




Os grupos que haviam ido passar um período na mata já retornaram para a comunidade.

“Não há jeito de segurar, está muito difícil. A Covid chegou até a comunidade, alguém trouxe. Tentamos fugir para o mato. As famílias foram para o mato no início. Não todos. Mas já desceram (voltaram). Orientamos a tomar chás caseiros e a usar máscaras”, relatou.

Roberto Fernandes fala sobre a dificuldade de convencer os moradores a não ir à cidade. “Eu fiz reuniões para segurar o povo. Mas estão atravessando. Muitos dependem da cidade. Lá recebem o dinheiro, vendem seus produtos, compram alimentação”, disse.

“Estamos respeitando as regras da cidade. É para usar máscara. Não é para dar mau exemplo. Queremos ser bom exemplo”, reforçou.

Ele comenta também que o grupo encontrou problemas para se manter à base da caça e pesca. “Tentamos passar um período só com caça e pesca. Mas foi muito difícil. Conseguimos viver assim um pouquinho, todo o tempo, todo dia, não dá”, explicou.

Na avaliação da professora Auxiliadora, a crise não está perto de acabar. “Na minha visão, para mim, essa doença ainda não está passando. Pode acontecer coisa pior ainda. A gente procura tentar se prevenir, já que essa doença veio da transmissão de outras pessoas. E pode voltar de novo, alguém pegar por teimosia de ir até a cidade, onde os casos estão aumentando e tem pessoas morrendo. Ainda não tá no final, porque estão morrendo pessoas. E pode ser pior. Só vou dizer que tá melhor depois que baixar os casos em São Gabriel”, afirmou.

A comunidade é atendida pelo pólo base Ilha das Flores, do Dsei-ARN. Segundo informações da instituição, esse pólo base dispõe de duas equipes multidisciplinares de saúde indígena. Também conforme o Dsei-ARN, o trabalho em tempos de pandemia teve mudanças importantes no direcionamento das ações em saúde, seguindo nota técnica da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

“Além das duas equipes de saúde fixas do pólo base, a aldeia Waruá conta com a assistência contínua garantida pela equipe do Setor de Resgate, Equipe de Resposta Rápida e equipe de profissionais da Casai do Dsei-ARN, para atendimento em demanda livre e chamados de urgência e emergência, se necessário, referenciados para média/alta complexidade do SUS (Sistema Único de Saúde).

Em razão da proximidade com a sede do município e do próprio Distrito, o Polo Base da Ilha das Flores tem 12 entradas mensais garantidas pelo planejamento do trabalho, e diversas ações de Educação em Saúde são ofertadas a todas as aldeias do polo base”, informa o órgão.

O distrito considera que a proximidade da comunidade ao ambiente urbano de São Gabriel da Cachoeira facilita o trânsito dos indígenas entre as áreas. “Apesar das orientações de isolamento dos indígenas na aldeia durante o período de pandemia, a circulação entre a aldeia e área urbana permaneceu para alguns indivíduos, o que favoreceu também a circulação do vírus”, informou o distrito.

Remédios caseiros

Segundo Auxiliadora, remédios caseiros estão sendo muito utilizados. “O pessoal se tratou mais foi com remédio do mato, caseiro, de perto da casa e da floresta também”, disse. Também utilizaram remédios (analgésicos) de farmácia dos não-indígenas para amenizar os sintomas.

O uso dos remédios indígenas vem sendo incentivado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e é amplamente praticado pelas diversas etnias que habitam o Rio Negro.

Essa valorização da medicina tradicional é incentivada pelo Dsei-ARN, em consonância com nota técnica do Programa Articulação de Saberes em Saúde Indígena. “A instituição, portanto, estimula a troca de saberes entre comunitários e profissionais de saúde, o uso de fitoterápicos utilizados na prática local, a prática do benzimento na busca da cura através do conhecimento tradicional, entre outras ações de valorização do conhecimento tradicional”, disse o distrito sanitário.

Coordenadora do Departamento de Mulheres da Foirn, Elizangela da Silva, da etnia Baré, diz que o povo Dâw estava usando medicamentos indígenas preventivos antes. “Mesmo antes [da confirmação da Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira] eles já estavam tomando banhos com plantas tradicionais”, contou.

Devido à pandemia, a Foirn reforçou o apoio ao Waruá. Elizangela da Silva explica que houve ações na comunidade com orientações sobre prevenção à Covid-19. “Entregamos material de higiene, sabão. Se não tem torneira, pia, a gente orientou a usar panela e bacia porque a doença é transmissível. Falamos do perigo de vir para a cidade, do perigo quando chega na lotérica, quando pega dinheiro e faz compra”, lembrou.

As filas e aglomerações em frente à casa lotérica da cidade, para saque de benefícios, foram agravadas devido ao pagamento do auxílio emergencial. O Ministério Público Federal (MPF) agiu, exigindo que a União ofertasse alternativa para evitar as aglomerações, mas o problema permanece.

O grupo recebeu cestas básicas da Fundação Nacional do Índio, Coordenação Regional Rio Negro (Funai/CR-RNG) e kits de merenda escolar da Secretaria Municipal de Educação. Segundo Elizângela da Silva, também como forma de evitar que as famílias se dirijam à cidade, a Foirn fará entrega de cestas básicas às famílias da comunidade, adquiridas por meio de campanhas como a da União Amazônia Viva. “É com esse objetivo, de que não venham todo dia para a cidade”, diz.




Como medida preventiva à Covid-19, o Instituto Socioambiental (ISA) preparou cartilha com informações sobre prevenção à doença em português e em línguas indígenas.

O material foi adaptado para a realidade dos Dâw com apoio da linguista Karolin Obert e de Roberto Carlos Dâw.

“Não tem como falar: ‘não pode tomar banho no rio’. Eles banham cinco vezes no dia. Então tem que orientar: ‘Banha com distância, banha de jeito diferente’, explicou Karolin, que faz pesquisas junto aos Dâw desde 2015.

Seu trabalho tem foco na documentação linguística, principalmente das línguas com alto risco de extinção.

Saúde e território

O antropólogo João Vitor Fontanelli, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (PPGAS/USP) e que desenvolve pesquisa junto aos Dâw, ressalta a importância do território para o fortalecimento da saúde dos povos indígenas. “É fundamental, pois articula práticas de cuidado, de bem-estar, de alimentação e organização essenciais para a reprodução física e cultural desses povos. E uma série de outras coisas, como educação, atenção aos mais jovens, valorização do conhecimento dos antigos”, elencou.

E nesse sentido, também no início deste mês de julho, um grupo da comunidade seguiu para uma área localizada rio abaixo, a cerca de 40 minutos do Waruá. O objetivo é dar continuidade à construção de estrutura para servir de referência e apoio para caça, pesca, roça, sendo uma forma de valorização dos conhecimentos e práticas do povo Dâw. Outra estrutura está sendo levantada, com esses mesmos objetivos, em área mais distante, a cerca de quatro horas do Waruá, próximo ao médio curso do Rio Curicuriari.

A liderança indígena Dâw Roberto Fernandes acredita que a reabertura dos caminhos dos antepassados pode oferecer mais proteção e suporte a seu povo. “Ajuda muito, na minha visão. Mas é para quem quiser. Não obrigamos ninguém. É longe. Se for de motor 40 são só duas horas, mas aí tem que ter gasolina”, explicou. “Naquele tempo dos antepassados, assim que viviam, abrindo trilhas de vários quilômetros. Caçavam, trocavam caça e pesca com farinha daqueles que estavam na beira dos rios”, contou.

Segundo Auxiliadora, esse movimento de reabertura de caminhos valoriza os antepassados. “A gente está tentando manter esse projeto, com os homens trabalhando na reabertura das trilhas, territórios dos antepassados para que a gente possa ficar mais tempo para lá. Com a Covid isso ficou mais firme. É uma história muito triste para todos nós indígenas”, disse.

Perto do ambiente urbano, esse povo tem sido exposto não só à Covid, mas a uma série de problemas, como invasão de território. “Há uma pressão territorial que eles estão tentando contornar abrindo pontos onde possam acessar e ficar mais tempo e ter algum controle sobre a circulação de outras pessoas em seus territórios”, explicou o antropólogo.

O projeto de reabertura de caminhos e construção de estruturas de referência tem financiamento da organização não governamental Fundo Casa Socioambiental e está sendo executado pela comunidade com o apoio da linguista Karolin Obert e do antropólogo João Vitor Fontanelli.



Karolin considera que um ponto positivo dessa pandemia é o incentivo à reabertura dos antigos caminhos pelos Dâw. “Uma coisa bonita que essa pandemia trouxe é que eles se sentiram incentivados de ir para lá e começar a realizar esse projeto”, ressaltou. Ela explica que muitas pessoas da geração ainda viva dos Dâw nasceram e circularam na região do médio Curicuriari, território onde tem cemitérios deles, onde eles trabalharam e sofreram com os processos de exploração para extração da piaçava. “E onde é muito rico de peixe e caça”, salientou a linguista.

O antropólogo João Vitor Fontanelli também aponta o efeito trazido pela crise. “Com certeza, com a Covid, com o quadro de pandemia, o território foi visto como ainda mais importante, possibilitando a formulação de estratégias próprias de enfrentamento à crise sanitária. Tem a preocupação dos mais velhos também, de não deixar que a memória dos caminhos dos antigos e modo de vida dos Dâw sejam esquecidos, e isso se faz percorrendo esses caminhos”, detalhou.

Os Dâw não são um povo estritamente nômade. No passado, se estabeleciam em pequenos grupos com núcleos habitacionais de referência, mas com constantes mudanças. Entretanto, conforme explica Fontanelli, esse padrão de organização mudou com a reunião dos grupos no Waruá, na década de 1980.

Essa ocupação permanente e duradoura num único local levou ao aumento populacional e criou pressão sobre o território, gerando escassez de caça e pesca.

Na avaliação de Karolin, medidas de apoio ao Dâw devem passar pela estruturação de uma equipe específica para atendimento de saúde à etnia. Ela considera adequado reduzir o trânsito para a cidade, promover a entrega de kits de alimentos com produtos de higiene pessoal e dar apoio para o movimento deles de retomada dos caminhos e práticas dos antepassados.

Em relatório encaminhado pelos pesquisadores ao ISA, há a descrição da importância da retomada do costume de habitar e andar pelo centro da floresta. “Os seus grandes conhecimentos dos lugares, das cabeceiras, os seus modos de habitar e andar pelo centro da floresta formam uma rede de caminhos virtualmente infinita, conectando diferentes regiões de uso dos povos indígenas do médio e alto rio Negro.”

A pandemia em São Gabriel da Cachoeira

São Gabriel da Cachoeira registrou os dois primeiros casos da Covid-19 em 26 de abril. Até 14 de julho, a cidade acumulava 3.033 casos confirmados da doença, com 48 óbitos. No comparativo por 100 mil habitantes, o município chegou a ser campeão nacional da incidência de Covid-19, com essa taxa atingindo 6.579,76 em 13 de julho.

Em Manaus, nessa mesma data, a taxa de contaminação por 100 mil habitantes era de 1.401,73.

O Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 do município, formado por órgãos públicos, sociedade civil organizada e parceiros conseguiu constituir uma rede para garantir atendimento básico aos pacientes e reforçar os serviços já existentes.

Um dos exemplos foi a estruturação das Unidades de Atendimento Primário Indígena (UAPIs), que contam com concentradores – microusinas de oxigênio. A estrutura garante atendimento a casos leves e moderados da Covid-19 dentro do território indígena, evitando remoções. A iniciativa foi colocada em prática após articulação entre as comunidades indígenas, ISA, Foirn, Distrito Sanitário Indígena Alto Rio Negro (Dsei-ARN) e a organização humanitária Expedicionários da Saúde (EDS). O modelo foi tão bem sucedido que vem sendo replicado em outras regiões.

Ana Amélia Hamdan
ISA
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