No Alto Rio Negro, é a voz e a vez da juventude indígena

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Preocupados com o futuro do território e a defesa de direitos, jovens de 12 etnias se reuniram em Pari-Cachoeira para debater políticas públicas, participação política e Sínodo da Amazônia
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A juventude indígena do Rio Tiquié, na fronteira com a Colômbia, se reuniu na Terra Indígena Alto Rio Negro, para debater sobre políticas públicas e participação política. O evento reuniu cerca de 250 adolescentes e jovens de 12 etnias da região, como Tukano, Desano, Piratapuia, Tuyuka, Tariano e Hupd’äh, no ginásio da escola estadual Dom Pedro Massa, distrito de Pari-Cachoeira. Ele integra o famoso "Triângulo Tukano", junto com os distritos de Taracuá e Iauaretê, em São Gabriel da Cachoeira (AM).



Também em comemoração ao Dia Nacional da Juventude (DNJ), o encontro "Juventude e Políticas Públicas" teve o papel de motivar os jovens da região para atividades culturais, esportivas e de participação política. Organizaram o evento, realizado entre 13 e 17 de novembro, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) — através dos departamentos de Jovens e de Mulheres — e a Pastoral da Juventude de Pari-Cachoeira, com apoio e participação do Instituto Socioambiental (ISA).

"Muitas coisas pelas quais estamos lutando agora, são vocês que vão assumir no futuro. Temos muitos desafios hoje, como a implementação do nosso Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), a elaboração do Protocolo de Consulta e, no ano que vem, as eleições municipais. Precisamos do compromisso da juventude indígena com esses desafios", enfatizou Nildo Fontes, do povo Tukano, vice-presidente da Foirn, em sua fala durante o evento.

Lucas Matos, da etnia Tariano e coordenador do Departamento de Jovens da Foirn, participou do encontro para escutar os jovens do Rio Tiquié. Lucas sistematizou as informações coletadas durante os trabalhos de grupo, nos quais os jovens listaram o que consideram como necessidades para suas vidas, assim como sonhos e desejos. Com essas informações, agregou ainda mais conteúdo e participação na elaboração da pauta do II Congresso da Juventude Indígena do Rio Negro, que acontece em 5 e 6 de dezembro na Casa do Saber (Maloca da Foirn), sede de São Gabriel da Cachoeira.



"Temos que lutar contra o conformismo de quem diz que sempre foi assim e sempre será. A juventude gosta de mudanças e desafios. Sabemos que o momento político é desfavorável para nós, indígenas. E, por isso, temos que estar fortes e unidos para defender os direitos conquistados e nosso território", comentou a jovem liderança do Rio Negro, de 22 anos, oriundo do distrito de Iauaretê.

As principais demandas estão relacionadas à infraestrutura na região e à melhoria de equipamentos públicos, como quadras esportivas, campos de futebol, centros comunitários, vias públicas do distrito, energia elétrica, saneamento básico, coleta de lixo (reciclagem) e comunicação. A área de educação também ganhou destaque, com os jovens reforçando a necessidade de cursos técnicos no distrito de Pari-Cachoeira, Ensino Superior Intercultural, transporte escolar para alunos das comunidades do entorno, assim como maior presença de instituições que atuam na sede de São Gabriel para oficinas nas áreas de Piscicultura, Agroecologia, Saúde e Audiovisual.

Foi demandada ainda a presença de mais médicos no Pólo-Base de Saúde de Pari-Cachoeira, assim como oficinas que estimulem o diálogo intercultural entre os sistemas de saúde, o público ocidental e o indígena. Os jovens também reivindicaram a instalação de um laboratório audiovisual na Escola Dom Pedro Massa para oficinas de filmagem, fotografia e edição. Durante o evento, os comunicadores indígenas da Rede Wayuri, Mauro Pedrosa e Maguinês Gentil, ambos Tukano, fizeram entrevistas em vídeo e registraram todo o encontro para divulgação nos canais do movimento indígena.

Para o padre Renan Maurício, do Recife, e há dois anos responsável pela Paróquia de Pari-Cachoeira, é importante que os jovens indígenas tenham formação política e saibam que as políticas públicas não são um favor e, sim, um direito da população. "Precisamos de jovens conscientes, corajosos e destemidos que cobrem os nossos representantes", frisou o padre, que trouxe os debates do Sínodo da Amazônia para compartilhar com a juventude.



O seminarista Edson Boff, de 23 anos, foi um dos palestrantes do evento sobre o tema. "Fiquei muito surpreso e feliz por encontrar uma juventude tão organizada, unida e mobilizada para defender seus direitos e o bem comum", elogiou Boff, que vem percorrendo as comunidades do Rio Negro para conversar sobre o Sínodo da Amazônia.

Sínodo é uma assembleia periódica de bispos de todo o mundo para assuntos ou problemas universais relacionados à Igreja. O Sínodo da Amazônia trata de questões sociais e ambientais dos nove países que têm territórios na floresta: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

Juventude organizada

Os jovens do rio Tiquié estão organizados em coletivos que se formam por afinidade entre comunidades vizinhas, grupos étnicos e também por integrarem as pastorais da juventude da Igreja Católica. Estavam presentes no encontro em Pari-Cachoeira as delegações dos grupos Jiucbe (Juventude Indígena Unidos da Comunidade Boca da Estrada), Jirc (Juventude Indígena do Rio Castanho), Jictua (Juventude Indígena Católica Tukanos Unidos com Desanos), Jiic (Juventude Indígena do Igarapé Cucura Manaus), Jiart (Juventude Indígena do Alto Rio Tiquié) e Anjics (Animação dos Jovens Indígenas da Comunidade de São Sebastião), além do próprio grupo local da Pastoral da Juventude de Pari-Cachoeira.

Para o jovem Piratapuia, Jailson Pereira, da comunidade de São Sebastião do Rio Umari, foi dado nesse encontro um impulso para que os jovens indígenas sejam incentivados a participar ativamente da gestão do território. "A gente sabe que o jovem é tímido, mas, a partir desses encontros, ganhamos coragem para contar nossas ideias. É necessário que a voz do jovem seja ouvida e levada a sério", disse.

O mesmo comentou Euclides Azevedo Tukano, de São José II, no médio Rio Tiquié. "Entender as políticas públicas e as responsabilidades das instituições nos faz querer ir às assembleias e outros eventos. Queremos agora mobilizar mais nossas comunidades e promover a troca de experiências com outros jovens do rio Negro", afirmou.



As mulheres indígenas, embora em menor número, também participaram do encontro e destacaram que, no retorno às suas comunidades, terão mais incentivo para organizar e planejar atividades com jovens. Sabendo que esse trabalho vai continuar e no ano que vem haverá um novo encontro, elas desejam se articular melhor para integrar e liderar trabalhos comunitários com a juventude. "Foi nossa primeira participação num encontro de jovens e agora queremos desenvolver um planejamento de atividades", adiantou Josiane Menezes, de 17 anos, do povo Tukano, comunidade de Boca da Estrada.

Para Janete Alves, Desana, uma das coordenadoras do Departamento de Mulheres da Foirn, o evento serviu para mostrar como as jovens estão querendo participar dos debates sobre o desenvolvimento sustentável do território. Sempre muito preocupadas com o estudo, trabalho e segurança alimentar, as garotas demonstram liderança e desejo de participar ao lado dos rapazes.

"Queremos incentivar essa participação para que, no futuro, a gente veja um maior equilíbrio entre homens e mulheres nos espaços de decisão", explicou Janete, que fez uma apresentação para os jovens sobre as atividades do Departamento de Mulheres e todas as representações nacionais que ela e sua colega Elizângela da Silva, do povo Baré, fazem pelas mulheres indígenas do Rio Negro.

As duas jovens da comunidade de São Sebastião, que fica a uma hora de caminhada de Pari-Cachoeira, Aline Menezes Massa, do povo Desana, de 15 anos, e Nádia Sampaio Barbosa, de 20 anos, da etnia Karapanã, disseram que ficaram orgulhosas por poderem participar de atividades de intercâmbio com outros jovens do Tiquié. Elas aproveitaram para aprender novos cantos, danças e brincadeiras que poderão animar as crianças e jovens da sua comunidade. Com distâncias enormes, a oportunidade de estar junto e trocar conhecimento foi muito valorizada pelos participantes.



Permanecer no território

Um dos grandes dilemas da juventude indígena, hoje, é: partir para longe do seu território para continuar os estudos ou permanecer na comunidade sem avançar para o Ensino Superior ou Técnico após completar o Ensino Médio. A maior parte dos pais tem incentivado os filhos a continuar os estudos e, com isso, muitos acabam se distanciando das famílias e do território.

Alguns dos jovens, como Anderson Jair Cardoso Fontes, de 18 anos, do povo Tukano, conversou sobre essa realidade com o ISA. Se por um lado existe o desejo de buscar conhecimento, por outro também há a vontade de permanecer na comunidade. Muitos que saem acabam não voltando, seja porque o ensino dado lá fora se distancia da realidade local, ou até mesmo porque acabam arrumando um emprego ou construindo relações, como casamentos, fora do território e da cultura.



Para Anderson, que terminou o Ensino Médio em Pari, a melhor coisa seria poder fazer um curso técnico ou superior no próprio distrito, mesmo que parte desse estudo fosse à distância. Além disso, ele deseja ter acesso a um aprendizado que reflita os anseios de seu povo e do desenvolvimento da comunidade — e não uma formação alheia à terra indígena. "A cidade grande tem roubo, assassinato, muita violência mesmo. Aqui em Pari a gente não tem isso. Aqui é onde eu nasci e meus antepassados viveram. Gosto de viver aqui e, por mim, eu poderia estudar aqui mesmo para me tornar enfermeiro e trabalhar para a saúde do meu povo", contou.

Ele diz que em Pari-Cachoeira, hoje, todo mundo está preocupado com a escassez de peixe. No passado havia fartura, mas atualmente têm pouco pescado, principal fonte de proteína na comunidade. Por isso, as lideranças planejam reativar o trabalho da piscicultura, assim como de criação organizada de galinhas, que já vem sendo feita pela Associação de Pais, Mestres e Comunitários da Escola Estadual Dom Pedro Massa (APMC).

"Queremos ter pessoal formado aqui para trabalhar com essas coisas que vão dar um alimento bem bacana para a gente e também poder trocar e vender para gerar uma renda, isso que a gente precisa", disse Anderson, que é filho de agricultores. O principal trabalho no distrito é o da roça, sobretudo na produção de farinha e outros derivados da mandioca.



As associações locais, como a APMC e a CIPAC (Coordenação Indígena de Pari-Cachoeira), estão se organizando para nos próximos anos produzir alimentos que possam ser vendidos para a escola (merenda regionalizada) através do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e PAA (Programa de Aquisição de Alimentos).

Dessa forma, conta o professor e liderança local, Anacleto Gonçalves, do povo Desana, a geração de renda local fica garantida para toda a comunidade, assim como a produção de alimentos saudáveis, sem agrotóxico e gastos com uma logística caríssima, que custa mais do que os próprios alimentos enviados para a escola. Além do colégio, o Exército brasileiro, que possui um pelotão de fronteira no distrito, também poderá consumir alimentos frescos e saudáveis produzidos pela agricultura indígena de Pari-Cachoeira.

Na região do rio Tiquié, onde o distrito de Pari-Cachoeira é a maior comunidade, moram por volta de 4.700 indígenas, de acordo com o censo socioambiental feito pela Foirn e pelo ISA para a elaboração do PGTA. Na TI Alto Rio Negro vivem cerca de 17.400 pessoas, sendo a maior parte da população composta por crianças, adolescentes e jovens de até 29 anos.

Juliana Radler
ISA
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