Nova Casa da Pimenta Baniwa é inaugurada no Alto Rio Aiari (AM)

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Pouco mais de um ano após a inauguração da primeira Casa da Pimenta Baniwa no Rio Içana, os Baniwa inauguraram uma segunda casa, desta vez em Ucuqui Cachoeira e avançam para consolidar uma Rede de Casas da Pimenta Baniwa do Alto Rio Negro, no noroeste amazônico
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A nova Casa da Pimenta está localizada na comunidade de Ucuqui Cachoeira, em território dos Baniwa Hohodene, ampliando os benefícios socioambientais do projeto para uma das regiões mais isoladas do território de ocupação baniwa no Brasil. A primeira casa, na comunidade de Tunui Cachoeira, em território dos Baniwa Dzawinai, já articula a produção de cerca de 60 famílias de 11 comunidades do Médio Rio Içana. A nova pretende dobrar este número e, com isso, ampliar a capacidade de atenção ao crescente mercado que a pimenta vem conquistando em diversas localidades do Brasil.

A Rede de Casas da Pimenta é um ideal que vem sendo perseguido pelos Baniwa e vai ampliair os benefícios socioambientais ao seu vasto e diverso território de ocupação - 93 comunidades em cerca de 3milhões de hectares, somente do lado brasileiro. Os Baniwa, que também estão na Colômbia e Venezuela, se organizam em pelo menos quatro divisões internas, chamadas fratrias (Dzawinai, Walipere-dakenai, Hohodene e Curipaco) e duas dezenas de clãs, que estão ancoradas em seus macroterritórios ancestrais (saiba mais sobre os Baniwa).

A inauguração transcorreu durante uma festa de três dias organizada pela comunidade de Ucuqui Cachoeira e recebeu visitantes de várias comunidades do Médio e Alto Aiari, parentes Baniwa, Wanano e Cubeo que vivem do lado colombiano, e uma comitiva de parceiros que partiu do município de São Gabriel da Cachoeira e foi composta pelo ISA, Foirn, Oibi e Instituto ATÁ. A comitiva também foi integrada por representantes do Exército Brasileiro, que subiram o rio a convite da comunidade de Ucuqui Cachoeira e disponibilizaram a embarcação onde viajaram todos os visitantes.

Na volta a São Gabriel, o Instituto ATÁ, representado pelo chef Alex Atala, anunciou doação de recursos ao projeto, equivalente ao necessário para construir duas novas Casas da Pimenta.


Alternativas econômicas nos territórios da sociobiodiversidade

Os direitos econômicos, sociais, culturais, civis, políticos e o direito ao desenvolvimento são reconhecidos como direitos universais, indivisíveis e direitos mutuamente fortalecidos de todos os seres humanos, sem distinção. Entretanto, resta ainda um imenso desafio em fazer com que estes direitos se convertam, de fato, em realidades das dinâmicas de vida e interação de muitos dos povos indígenas, e outras populações tradicionais, com as sociedades envolventes dos seus países-nações.

Iniciativas como essa, sobretudo em regiões mais isoladas da Amazônia Brasileira, podem exercer influência positiva e fornecer modelos sui generis para fortalecer o direito a um desenvolvimento que concilie acesso a mercados justos, produção de bem-estar e equidade de gênero, além de ganhos sociais e organizacionais. A conservação e valorização da biodiversidade e das práticas tradicionais dos povos amazônicos também permitem uma influência de longo prazo, sobre a sociedade como um todo, ajudando a reverter os rumos de deterioração desses ecossistemas e povos, como viemos testemunhando nas últimas décadas.

É neste cenário, e estes são os principais ganhos que representam as iniciativas apoiadas nas bacias dos rios Negro, Ribeira e Xingu pelo ISA, apontando para novos rumos, que o desenvolvimento pode trilhar nestes territórios da sociobiodiversidade.

Casa da Pimenta Baniwa – saiba o que é e como funcionam

O que é
As “Casas da Pimenta Baniwa” são construções que oferecem os espaços e utensílios adequados ao processamento, envaze e armazenamento das diferentes modalidades de jiquitaia produzida a partir das pimentas cultivadas pelas mulheres em roças e jardins das comunidades baniwa.

Como surgiram
Foram especialmente projetadas e instaladas a partir da orientação de um conjunto de pesquisas sobre o processamento desta iguaria, sobre os requisitos estéticos, de estabilidade e de uso sustentável de materiais nas construções tradicionais baniwa, mas também para atender a exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Papel estratégico e gestão
As Casas da Pimenta são responsáveis por:
•agregar a produção das roças familiares de uma determinada região de ocupação baniwa,
•organizar o processamento e estocagem, sob protocolo especial de produção para o mercado,
•realizar o controle de qualidade e de fluxo de informações que permite o total rastreamento da cadeia e de seus benefícios socioambientais.

Gestão
As casas funcionam sob um protocolo de cogestão previamente acertado entre as organizações parceiras do projeto, estando sob a supervisão da comunidade e da associação comunitária da região onde está instalada, e também do ISA, da Foirn e da Oibi. Operacionalmente, funcionam sob a responsabilidade direta de uma dupla de gerentes de produção (obrigatoriamente um homem e uma mulher).

Através do código do lote de cada potinho que parte de uma Casa da Pimenta para os consumidores finais, informações como origem da produção, tamanho do lote, nome das mulheres produtoras participantes daquele lote e suas comunidades, bem como as variedades de pimentas que foram usadas, são organizadas, pelos gerentes de produção. Isto permite a autocertificação e a aferição, por parte dos consumidores e parceiros da iniciativa, dos benefícios socioambientais do projeto, por meio do monitoramento, em breve on line, de toda esta cadeia conectada pela Rede de Casas da Pimenta Baniwa do Rio Negro.Com isso espera-se ampliar a capacidade de expansão da oferta da iguaria a novos mercados do Brasil e do exterior.

As Casas da Pimenta Baniwa também cumprirão um papel importante para consolidar Núcleos de Gestão e Empreendedorismo Indígena estabelecendo pontes saudáveis e justas entre elas, os mercados de alto valor socioambiental agregado, as Casas da Pimenta e as mulheres produtoras das comunidades. Para isso, deverão funcionar como foco de agregação e animação de uma rede de pesquisadores indígenas e não indígenas conectados nas questões relevantes para o aprimoramento da Pimenta Baniwa e o desenvolvimento tecnológico de inovações que levem à oferta de outros produtos derivados do sistema agrícola tradicional mantido pelas mulheres indígenas rionegrinas.

Perspectivas e desafios
•Consolidar o arranjo produtivo da Pimenta Baniwa por meio do incremento sistemático do volume de negócios e consequentemente do número de famílias e comunidades envolvidas, com a expansão da Rede de Casas da Pimenta Baniwa (Tunui Cachoeira/Médio Içana-Cuiari, Ucuqui Cachoeira/Alto Aiari, Eibc-Pamáali/Médio-Alto Içana, Yamado/São Gabriel da Cachoeira e, ao menos, em outros quatro diferentes pontos da Bacia do Içana).
•Fortalecer a economia baniwa com alternativas econômicas sustentáveis que reduzam pressão por garimpo, narcotráfico, extrativismo predatório e outras atividades ilegais e degradadoras do meio-ambiente e da qualidade de vida, sobretudo em zonas de risco e maior pressão na Bacia do Içana e afluentes.
•Consolidar a marca Arte Baniwa como patrimônio coletivo de amplo reconhecimento pelos povos Baniwa-Coripaco do Brasil, Colômbia e da Venezuela.

Adeilson Lopes da Silva
ISA
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