Quilombolas e caiçaras distribuem, em três meses, mais de 50 t de alimentos para famílias vulneráveis

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Entregas para a merenda escolar, que sustentam a cadeia produtiva da roça no Vale do Ribeira (SP), continuam suspensas e sem previsão de retorno
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A Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), com sede em Eldorado (SP), organizou pela terceira vez a produção e entrega emergencial de alimentos para famílias vulneráveis durante a pandemia da Covid-19.

Cerca de 15 toneladas de produtos da roça e da pesca caiçara chegaram na semana passada a bancos de alimentos e à assistência social dos municípios de Cananéia, Eldorado, Iporanga, Jandira e Embu das Artes, no Estado de São Paulo.

Roça é saúde e resistência

Pesquisas da Universidade de São Paulo já comprovaram que as roças dos quilombolas do Vale do Ribeira ajudam a manter a Mata Atlântica preservada (clique e assista ao documentário). Não por acaso, a região abriga o maior trecho desse tipo de floresta em todo o país.

Os produtos da roça fazem parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial do Brasil.

Na capital paulista, a produção foi distribuída à comunidade São Remo, na zona oeste da capital, e à Vila Brasilândia, na zona norte, com apoio de lideranças locais.

Os produtos, como banana, cará, inhame, mandioca, mel, limão, taioba e batata doce, foram produzidos nas roças dos quilombos Cangume, Porto Velho, Maria Rosa, Pilões, Piririca, Nhunguara, São Pedro, Galvão, Sapatu, Engenho e Poça, no Vale do Ribeira.

O peixe seco foi produzido pela comunidade caiçara da Enseada da Baleia, na Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo.

Alimentos de suma importância, de acordo com Luiz Marcos, o professor Lula Santos, liderança comunitária da comunidade São Remo, ao lado da Cidade Universitária. Segundo ele, são 3 mil residências e cerca de 20 mil moradores.



“Estamos nessa batalha há quatro meses”, afirmou. “As mulheres da terceira idade não podem sair e comprar frutas na quitanda. Quando vieram esses alimentos, fizemos as sacolas e entregamos para elas.”

Para Santos, o que mais chamou a atenção na entrega foi o peixe seco produzido pelos caiçaras. “A comunidade tem muitas famílias nordestinas, que ficaram animadas com a entrega dos peixes. Foi uma ação totalmente diferente do que estamos acostumados a fazer”, disse. “A palavra é gratidão aos quilombolas e caiçaras.”

Ao todo, desde maio, a Cooperquivale e a comunidade caiçara da Enseada da Baleia já distribuíram mais de 50 toneladas de até 26 variedades de alimentos que chegaram a famílias em áreas urbanas, rurais e aldeias indígenas.

As ações envolveram organizações da sociedade civil como o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto Linha D’Água, a ONG Bloco do Beco e o Instituto Brasil a Gosto, que formatou uma campanha de arrecadação de recursos com o apoio do Magazine Luiza, bem como organizações internacionais como a União Europeia e a Good Energies.



A distribuição de alimentos e a articulação o poder público é uma resposta também emergencial para manter o escoamento da produção dos quilombos e a geração de renda para as comunidades, que viram suspensos seus contratos de entregas de produtos para a merenda escolar em virtude da pandemia.

Os contratos entre a Cooperquivale e as prefeituras foram realizados via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), do Ministério da Educação, e têm vigência até final do ano. Com escolas fechadas, os pedidos das prefeituras de São Paulo, Santos, Santo André e Cajati estão parados desde meados de março.

Nos últimos meses, apenas uma entrega pontual foi realizada em Santos. Até o momento, não há perspectiva de retomada da entregas contratadas.

“O impacto [da suspensão dos contratos] para os produtores e para a Cooperquivale foi muito grande”, afirmou Gilson Souza Silva Pereira, do quilombo Sapatu, conselheiro fiscal da cooperativa. “Os produtores tinham investido tempo e dinheiro para ter produto e atender os pedidos.”

Segundo Pereira, que também produz alimentos como banana e pupunha, as parcerias para distribuição dos produtos da roça para famílias vulneráveis tem amenizado a crise financeira da cooperativa, mas as prefeituras poderiam ter promovido um outro arranjo para as entregas para a merenda escolar.

“Sabemos que a Covid-19 é uma doença grave, mas tinha meios de manter uma parte das entregas. Porém, as prefeituras pararam 100%”, lamentou. “Temos funcionários, contas e aluguel para pagar também.”


Roberto Almeida
ISA
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