Xingu fecha primeiro semestre com piores taxas de desmatamento em três anos

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Derrubada da floresta tem novo recorde e explode em Terras Indígenas da região, com aumento de 201%; veja no boletim Sirad-X
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A Bacia do Xingu apresentou as piores taxas de desmatamento para um primeiro semestre dos últimos três anos. É o que mostra o Boletim Sirad-X, da Rede Xingu +. A destruição atingiu uma área equivalente a duas vezes o município de Recife, capital de Pernambuco, ou 92.104 hectares de floresta. O novo recorde é assustador, uma vez que os últimos anos já apresentaram taxas de desmatamento crescentes.

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Em maio e junho, o aumento foi de 35% em relação ao mesmo período do ano passado e confirmam um cenário catastrófico para o ano. Março e abril já tinham indicado essa tendência, mesmo no período chuvoso, quando as invasões tendem a diminuir. “É alarmante que, num momento em que todos os governos negociam a redução de emissões, o desmatamento aumente indiscriminadamente no Brasil sem que as autoridades façam nada para impedir”, afirma Thaise Rodrigues, pesquisadora do ISA.

A maior parte do desmatamento aconteceu na porção paraense (76%) da bacia, que cruza os Estados do Pará e Mato Grosso. O mais alarmante é que o crescimento aconteceu sobretudo no interior das Terras Indígenas da região, onde qualquer desmatamento é ilegal. O aumento foi de 201%, puxado pelas invasões nas Terras Indígenas Apyterewa, Trincheira/Bacajá e Cachoeira Seca, todas na zona de influência da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A maior parte desse desmatamento é consequência das atividades de grileiros, que derrubam a floresta para abrir fazendas e se apropriarem indevidamente de terras públicas. A mineração também é responsável por grande parte da destruição.




Essas Terras Indígenas fazem parte da área dos municípios de Altamira e São Félix do Xingu, que foram campeões de desmatamento na Amazônia. Por consequência, são os que mais emitem CO2 (o principal gás do efeito estufa) no país. Transformar florestas em pasto também está reduzindo o regime de chuvas e impulsionando a seca na região. Estudos já comprovaram que a diminuição das florestas pode causar a redução das vazões dos rios em seu entorno e prejudicar o desempenho de hidrelétricas. “As autoridades devem encarar o problema do desmatamento como uma ameaça não só aos ecossistemas e aos povos da floresta, mas à própria geração de energia e à economia do país”, afirma Biviany Rojas, advogada do ISA.

O desmatamento nas Unidades de Conservação da bacia também subiu neste bimestre com mais de 18,1 mil ha de derrubada, 65% a mais que em maio e junho de 2020. A maior parte, 79%, está concentrada na APA Triunfo do Xingu. Em maio e junho, a APA perdeu 14.426 ha de floresta, numa velocidade de 94 árvores por minuto. O desmatamento nessa UC pressiona as Áreas Protegidas vizinhas como a ESEC Terra do Meio e o Parque Nacional da Serra do Pardo, ambas Unidades de Conservação de Proteção Integral.

Mato Grosso

No Estado de Mato Grosso, Peixoto de Azevedo foi o município que mais desmatou com 2.305 ha de desmatamnto ilegal. A maior parte ( 2.111 ha) ocorreu em duas grandes áreas vizinhas, próximas ao limite sul da Terra Indígena Menkragnoti. Ao todo, foram 10.815 ha derrubados em todo o Estado em maio e junho.

Em 2015, o Mato Grosso havia se comprometido a zerar o desmatamento ilegal até 2020 na Convenção do Clima em Paris (COP-21). O Estado inclusive captou recursos com base nessas metas que, como mostra o boletim, não foram cumpridas.

Riozinho do Anfrísio

Um outro dado preocupante do boletim foi a descoberta de um novo garimpo na Reserva Extrativista (Resex) Riozinho do Anfrísio. Essa Resex é morada de famílias de ribeirinhos que vivem dos produtos da floresta (coleta da castanha, extração do óleo de copaíba, andiroba, babaçu etc). Nos últimos três anos, porém, garimpeiros voltaram a invadir o território. Em 2018, após 14 anos de inatividade, o maior garimpo da área, conhecido como Fortaleza, foi reativado. No mesmo ano, foi encontrado um novo foco de mineração ilegal conhecido como “SW”.




Segundo dados da Organização Conservation Strategy, os impactos econômicos do desmatamento decorrente da mineração ilegal, considerando o melhor cenário em que as cavas abertas não ultrapassam 2,5 metros de profundidade, superam R$ 119 milhões. O resultado contabiliza as perdas dos serviços ecossistêmicos, dos recursos florestais madeireiros e dos gastos necessários de recuperação da área. São considerados também os gastos com saúde gerados pela contaminação da população pelo mercúrio que é usado para extrair ouro de outros minérios. O mercúrio é despejado nos rios e transformado em metilmercúrio, uma forma ainda mais tóxica, sendo absorvido pelos microorganismos e peixes que podem migrar até 2000 km.

O mercúrio cai nos igarapés e segue para o rio Riozinho do Anfrísio, levando o metal pesado e demais resíduos da mineração para as comunidades ribeirinhas, que já relataram piora na qualidade da água. Dezenove comunidades de beiradeiros podem estar sendo afetadas pelo consumo de peixes contaminados. O peixe é a principal fonte de proteína da dieta dessas comunidades.

Clara Roman
ISA
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