A violência contra os povos indígenas voltou a explodir. No final de semana dos dias 3 e 4, no espaço de menos de 48 horas, três indígenas foram mortos. No município de Arame, no sudoeste do Maranhão, Jael Carlos Miranda Guajajara morreu após ser atropelado. Não muito longe dali, em Amarante, também no Maranhão, Janildo Oliveira Guajajara foi assassinado com tiros nas costas e um outro indígena, de apenas 14 anos, também foi ferido.
Em Prado, no sul da Bahia, Gustavo Silva da Conceição, jovem do povo Pataxó de apenas 14 anos, levou um tiro após a invasão por pistoleiros na terra indígena Comexatibá. Outro adolescente de 16 anos também foi baleado, mas está fora de perigo. A suspeita é que os três crimes tenham sido causados como retaliação à resistência contra invasões aos territórios indígenas.
O povo Pataxó aguarda pela demarcação da Terra Indígena Comexatibá há 17 anos. O relatório de identificação foi publicado pela Funai em 2015, porém, o processo não evoluiu além disso. No Maranhão, em Amarante, Janildo Guajajara era um dos guardiões da floresta, grupo que atua para prevenir, identificar e denunciar o roubo de madeira e outros crimes em terras indígenas do sudoeste do Maranhão.
Segundo nota da Associação dos Guardiões da Floresta da Terra Indígena Araribóia, seis guardiões já foram mortos sem que os assassinos tenham sido responsabilizados e punidos. De acordo com dados do último Relatório Violência contra os Povos Indígenas do Brasil, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 2021 foram registrados 176 assassinatos de indígenas no país, apenas seis a menos do que em 2020, quando foi observado o maior número de assassinatos desde pelo menos 2014.
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Produção: Ester Cezar Roteiro: Ester Cezar e Oswaldo Braga Apresentação: Cristian Wari’u e Carolina Fasolo Edição de áudio e artes para redes sociais: Cristian Wari’u Estagiário: Helder Rabelo
“O objetivo principal dessa unidade demonstrativa é que se torne uma vitrine das técnicas de restauração aqui na região. Escolhemos estrategicamente o campo experimental da Embrapa, para que as pessoas que não conhecem possam acessar esse espaço que é bem mais perto da cidade”, afirma Miguel Gama, técnico em restauração ecológica do Instituto Socioambiental (ISA) sobre a unidade demonstrativa de restauração com muvuca de sementes nativas implantada em 26 fevereiro deste ano, cujos resultados já são visíveis.
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Participantes do I Encontro de Coletores da Amazônia viram de perto os primeiros resultados da semeadura das sementes coletadas pela Rede de Sementes da Terra do Meio|Denise Santos Costa/ISA
Durante o evento, além de ver de perto o processo da restauração por muvuca, os convidados - entre eles Emater, Embrapa, universidades, estudantes, coletores de sementes, entre outros parceiros locais e empresas - também conheceram as ações que vêm sendo desenvolvidas na região pela Caminhos da Semente, Redário e Rede de Sementes Terra do Meio, iniciativas apoiadas pelo ISA.
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Convidados participaram da implantação da unidade demonstrativa experimental, entendendo como o método pode ser adaptado a diferentes formas de semeadura|Miguel Gama/ISA e Matheus Rezende/ISA
“Da teoria à prática, a gente foi para o campo, mostrar como é que é feito. Muitos participantes ainda não haviam tido contato direto com a muvuca, porque é uma coisa nova ainda aqui na região. Agora tem essa área, mais próxima deles, que podem visitar e acompanhar seu desenvolvimento”, continua Miguel.
Conforme Matheus Rezende, técnico em restauração ecológica (ISA), essa unidade também servirá para o monitoramento de indicadores ecológicos em futuros dias de campo. “Discutimos diversas questões e dúvidas importantes sobre toda a cadeia da restauração com sementes, tornando a experiência ainda mais rica. Momentos como esses fortalecem a troca entre conhecimento científico, prática no campo e articulação multissetorial, essenciais para compreendermos tecnicamente a restauração ecológica com sementes, ampliando a restauração com qualidade e garantindo o sucesso dos projetos em diferentes ecossistemas”, finaliza.
O dia de campo experimental “Restauração ecológica com semeadura direta e muvuca de sementes” foi promovido pelo ISA, através das iniciativas Caminhos da Semente e Redário, em parceria com Embrapa Amazônia Oriental, Centro Capoeira e UFPA, com apoio financeiro da Fundação Bezos para a Terra.
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Hoje na História Socioambiental: em 4 de setembro de 1987, Ailton Krenak discursava na Assembleia Nacional Constituinte
Marcada na memória, a manifestação de Ailton conseguiu atenção da imprensa nacional e internacional, abrindo espaço para debates importantes dos direitos indígenas
Na sessão da Assembleia Nacional Constituinte de quatro de setembro de 1987, durante os debates que antecederam a promulgação da Constituição de 1988, Ailton Krenak realizou um discurso que na época conquistou olhares da imprensa nacional e internacional:
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No plenário da Câmara em Brasília, Ailton Krenak, então presidente da União das Nações Indígenas (UNI), pinta o rosto de preto em protesto contra ataques aos direitos indígenas no texto da Constituição de 1988|Luiz Antonio Ribeiro/CPDoc JB
“Que [o Brasil] saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é o inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil, os senhores são testemunhas disso.”
Foi o que ele disse ao discursar pintando seu rosto de tinta preta na tribuna da Constituinte, na Câmara dos Deputados, quando defendia a emenda popular da União das Nações Indígenas (UNI) sobre os direitos da população originária.
A manifestação teve ampla repercussão na imprensa brasileira e internacional, expandindo a visibilidade das reivindicações dos povos indígenas em um momento decisivo da redemocratização do país.
A imprensa teve uma atuação bastante ativa nas disputas pela inclusão do Capítulo dos Índios no texto da Constituição. Pouco antes do discurso de Ailton, começava uma campanha contra os povos indígenas, que afirmava, entre outras coisas, que os povos originários eram contra os interesses do Estado brasileiro.
O discurso de Ailton veio para desmontar esse argumento. Ao ser questionado sobre a campanha contra os povos indígenas, liderada por parte da imprensa, Ailton afirmou: "Nós ignoramos qualquer iniciativa, nesse sentido, que venha contrariar os interesses do país. Inclusive porque, se há os primeiros filhos desta terra, são os povos indígenas. E não há nada mais estúpido do que afirmar que os povos indígenas vão contrariar os interesses do Brasil. Se o Brasil está ameaçado pelos povos indígenas, então provavelmente não é o Brasil dos brasileiros."*
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Edição de cinco de setembro de 1987 do jornal Diário Popular. Disponível aqui.
A campanha contra os povos conseguiu que, do dia pra noite, o chamado “Capítulo dos Índios” fosse excluído. A ferramenta que os povos e aliados encontraram para remontar a discussão e garantir a inclusão do texto foi o abaixo-assinado, que subsidiou uma emenda-popular.
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Edição de cinco de setembro do Jornal de Brasília. Disponível aqui.
Ailton, como uma das lideranças da União das Nações Indígenas (UNI) e juntamente com representações de diversos povos, participou da articulação desse abaixo-assinado que reuniu mais de 100 mil assinaturas, de ponta a ponta do Brasil, em apoio à inclusão dos direitos dos povos indígenas na nova Constituição Federal.
O que muita gente não sabe é o que estava acontecendo por trás da fotografia emblemática do discurso. No livro “Subvertendo a gramática e outras crônicas socioambientais”, escrito por Márcio Santilli, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), são revelados detalhes deste acontecimento histórico que muitos desconhecem.
No livro, Márcio conta que a intenção inicial de Ailton Krenak era apenas pintar o rosto de preto, em silêncio. No entanto, como os registros oficiais das sessões da Assembleia Nacional Constituinte eram feitos por gravações posteriormente transcritas para o Diário do Congresso, uma manifestação sem palavras ficaria registrada apenas pelas câmeras de televisão. Foi preciso, então, que ele discursasse enquanto realizava o gesto.
Outro desafio era o protocolo do plenário: sem trajes formais, Ailton recebeu emprestados um paletó branco e uma gravata de Márcio, criando o contraste que marcaria a cena. Na ausência do jenipapo ou do urucum, os dois percorreram gabinetes de parlamentares recolhendo pequenas quantidades de máscara de cílios e tinta para sobrancelhas, usadas para compor a pintura. Márcio ainda conta que depois foi impossível usar seu paletó, por conta das manchas de tinta.
No filme “Mapear Mundos”, obra que articula imagens de arquivos indigenistas com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pelos direitos dos povos originários no Brasil, Beto Ricardo, fundador do ISA, conta sobre o momento do discurso:
“Não tinha ninguém no Congresso, era hora do almoço, estava vazio. A câmera fica no Ailton porque não tem ninguém. Ele tava sozinho, ele fala sozinho. Quer dizer, ele fala sozinho não. Ele criou um gesto de comunicação de mídia que explodiu o mundo inteiro, que não haveria sessão do Congresso que chegaria perto da difusão que essa ideia teve, com aquela imagem de 15 segundos, entendeu?”
Assista ao filme 'Mapear Mundos'
Depois de saber que não havia ninguém na plenária, é ainda mais curioso saber que a imagem de Ailton pintando o rosto na tribuna permanece, até hoje, como um dos símbolos visuais mais notáveis da luta indígena no Brasil. A imagem marcada na memória reforça o poder dos gestos comunicativos, e o modo com que alguns símbolos podem representar e lembrar lutas históricas.
Quase quatro décadas depois, a comunicação indígena segue ocupando um papel central na defesa dos direitos dos povos originários e evidenciando o que há de mais bonito na natureza e em suas culturas e histórias. Agora, comunicadores indígenas mobilizam diversas plataformas e variados formatos para garantir que sejam cada vez mais ouvidos.
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Fotocolagem da artista Shirley Espejo para representar o trabalho dos comunicadores indígenas
**A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do ISA que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações, livros, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
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Em memória: Ivy Wiens, parceira de luta das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira
A alegria, a força e a dedicação marcaram sua presença nas comunidades e, todos os anos, na Feira de Trocas de Mudas e Sementes, em Eldorado (SP)
Com o microfone na mão, ela fazia sua voz ecoar - literalmente - no centro de Eldorado (SP) a cada edição da Feira de Trocas de Mudas e Sementes das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira.
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Ivy Wiens em apoio à campanha ‘Nenhum Quilombo a Menos’ em 2017|Victoria Franco/ISA
Ivy Wiens doava sua energia e fala poderosa para agitar as celebrações e passava de barraca em barraca, de cada comunidade, para perguntar às lideranças com os nomes na ponta da língua e celebrar a diversidade: “o que vocês trouxeram pra feira esse ano?”
Das respostas, brotava o orgulho de cada roça plantada e colhida e os sorrisos de respeito e reconhecimento de que ocupar a Praça Nossa Senhora da Guia com a força quilombola era uma luta de valor.
Nos dias 14 e 15 de agosto deste ano, ela conduziu mais uma vez com toda a sua energia e sorriso acolhedor a 17ª Feira de Trocas de Mudas de Sementes, chamando cada quilombola pelo nome, indicando a sua profunda ligação com o lugar, mas sobretudo com as pessoas.
O momento da feira sempre coroou sua profunda dedicação e alegria à luta quilombola no Vale do Ribeira e à defesa da Mata Atlântica, desde o movimento de resistência à instalação da hidrelétrica de Tijuco Alto, projeto que teria impactos irreversíveis nas comunidades e que em 2016, após 28 anos de protestos, teve sua licença prévia rejeitada pelo Ibama.
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Ivy e Leonila Priscila da Costa Pontes, poeta, agricultora e liderança quilombola, na Feira de Sementes em 2023|Claudio Tavares/ISA
Ivy nasceu em Itu (SP) em 25 de junho de 1978. Era militante da Marcha Mundial das Mulheres, relações públicas de formação e especialista em gestão pública e gerência de cidades, com mestrado em gestão ambiental. Mudou-se para o Vale do Ribeira em 2009, quando passou a trabalhar no Instituto Socioambiental (ISA) como assessora técnica para as comunidades quilombolas.
Permaneceu na organização até 2020, e seguiu nos anos seguintes colaborando com atividades importantes do território, em especial com a produção anual da feira de trocas de mudas e sementes.
“Ela sempre foi uma pessoa muito alegre e dedicada às coisas que ela fazia. Não deixava nada para trás. Gostava muito de ajudar as pessoas, muito carinhosa. Aquele sorriso dela vai ficar para sempre na mente das pessoas, no coração. Era uma pessoa do bem, de paz e de amor”, afirmou Valni de França, liderança do Quilombo São Pedro.
Recentemente, Ivy atuou como professora de inglês e espanhol pelo Centro Paula Souza no Quilombo André Lopes, e passou a gerir a Casa do Rio, em Eldorado, um hostel para receber pessoas amigas e turistas e apresentar a região que se tornou sua morada e território.
“Ela criou aqui no Vale do Ribeira uma grande família quilombola. É uma perda muito grande. Uma grande amiga dos quilombolas”, afirmou Benedito Alves da Silva, o Ditão, liderança histórica do Quilombo Ivaporunduva.
Neste 28 de agosto, o ISA lamenta profundamente a partida precoce de Ivy e se solidariza às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira em seu luto.
Ela ofereceu durante sua vida o exemplo de que a luta, quando conduzida com alegria, é capaz de aproximar mundos, unir esforços e movimentar a defesa dos direitos das comunidades quilombolas. Abaixo, ouça Ivy Wiens abrindo a 17ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, que ocorreu nos dias 14 e 15 de agosto.
Audio file
*Texto em atualização.
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ONU reconhece iniciativa brasileira Araticum como Referência da Restauração Mundial
Anunciada durante evento na COP17 da UNCCD, a iniciativa foi reconhecida junto a outros dois projetos emblemáticos de restauração, localizados na Arábia Saudita e no Sahel
Ulaanbaatar, Mongólia, 26 de agosto de 2026 – A ONU reconheceu hoje a iniciativa brasileira Araticum - Restauração do Cerrado Brasileiro, como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship), destacando o grande esforço para restaurar o Cerrado, uma das savanas tropicais mais biodiversas do mundo e um bioma que sofre intensa pressão devido à conversão e fragmentação de terras e às mudanças climáticas.
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Fabrícia Santarém, coordenadora da Araticum e coletora de sementes Geraizeira recebeu o Prêmio|Carol Sacramento/Araticum
Anunciada durante um evento na 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), a iniciativa Araticum - Restauração do Cerrado Brasileiro foi reconhecida junto a outros dois projetos emblemáticos de restauração, localizados na Arábia Saudita e no Sahel. Com esse reconhecimento, o Brasil torna-se o único país até o momento a receber dois títulos de Iniciativas de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship).
Liderados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas, os prêmios reconhecem algumas das iniciativas de restauração de ecossistemas mais ambiciosas e impactantes do mundo.
“Os impactos das mudanças climáticas, da seca e da desertificação, bem como as tensões geopolíticas em curso, estão afetando duramente os sistemas alimentares globais”, afirmou Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA. “Investir na saúde das terras é uma das nossas defesas mais fortes contra essas ameaças. As três iniciativas reconhecidas hoje mostram que a restauração de ecossistemas traz benefícios significativos para todos – desde segurança alimentar e novos empregos até maior resiliência para milhões de pessoas.”
Com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, em grande parte devido à conversão de terras em grande escala. Esse processo prejudica os direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, a biodiversidade, a produção de alimentos, a disponibilidade de água e a resiliência climática.
"O reconhecimento do Cerrado como Iniciativa de Referência da Restauração Mundial demonstra que o Brasil está reconstruindo uma política ambiental capaz de aliar conservação da biodiversidade, ação climática e desenvolvimento,” afirmou João Paulo Ribeiro Capobianco, Ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil. “A restauração da vegetação nativa é uma prioridade estratégica para o país, porque protege nossos recursos hídricos, fortalece a resiliência dos territórios, gera oportunidades para as populações locais e contribui para o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Esse reconhecimento amplia a visibilidade da agenda brasileira de restauração e fortalece nossa capacidade de estabelecer novas parcerias e atrair investimentos para acelerar sua implementação".
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O Cerrado, uma das savanas tropicais mais biodiversas do mundo, sofre intensa pressão, mas iniciativas como a Araticum ajudam a reverter esse quadro|Todd Brown/UNEP
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Até 2030, a iniciativa pretende alcançar 2 milhões de hectares em restauração, contribuindo para o compromisso de restauração do Brasil|Todd Brown/UNEP
A iniciativa reúne mais de 180 organizações, Povos Indígenas e Quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, iniciativa privada e instituições governamentais para apoiar projetos de restauração em nove estados brasileiros. Esse trabalho é realizado por meio da regeneração natural, da semeadura direta, da restauração ecológica e de sistemas agroflorestais com espécies nativas.
O projeto já mapeou mais de 27 mil hectares em processo de restauração, com novas áreas sendo continuamente incorporadas por meio de sua plataforma de monitoramento. Além disso, sementes de mais de 150 espécies de plantas nativas já foram coletadas e utilizadas em atividades de restauração, contribuindo para a formação de uma cadeia produtiva da restauração que inclui coletores de sementes, viveiros, técnicos de restauração e serviços de monitoramento.
“Restaurar o Cerrado significa cuidar do nosso clima, da nossa água e do nosso futuro”, afirmou Fabrícia Santarém, coordenadora da Araticum, Articulação para a Restauração do Cerrado, e coletora de sementes Geraizeira. “A escolha do nosso bioma como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas reafirma a necessidade de investir na restauração de florestas, savanas e campos nativos, bem como na autonomia e no fortalecimento das organizações comunitárias que estão na linha de frente da conservação.”
Até 2030, a iniciativa pretende alcançar 2 milhões de hectares em restauração, contribuindo para a valorização dos ecossistemas não florestais e para o compromisso nacional do Brasil de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Para isso, combina a restauração ecológica com ferramentas sociais e econômicas, incluindo programas de pagamento por serviços ambientais, agricultura sustentável, sistemas agroflorestais, planejamento territorial e articulação com políticas públicas.
A iniciativa Araticum - Restauração do Cerrado Brasileiro, é uma das 30 iniciativas de restauração reconhecidas pela ONU desde 2022. Juntas, essas iniciativas já somam quase 20 milhões de hectares em processo de restauração e abrangem compromissos para restaurar cerca de 75 milhões de hectares até 2030, ao mesmo tempo em que geram mais de 800 mil empregos e contribuem para a recuperação e o aumento das populações de espécies da biodiversidade.
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A Araticum reúne mais de 180 organizações, Povos Indígenas e Quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, iniciativa privada e instituições governamentais|Todd Brown/UNEP
Sobre as Iniciativas de Referência da Restauração Mundial da ONU (UN World Restoration Flagships)
No entanto, pouco se sabe sobre o progresso ou a qualidade da restauração. Por meio das Iniciativas de Referência de Restauração Mundial, a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas homenageia os melhores exemplos globais de restauração de ecossistemas em grande escala e de longo prazo, que incorporam os 10 Princípios de Restauração da Década da ONU.
O progresso de todas as Iniciativas de Referência de Restauração Mundial será monitorado de forma transparente por meio da Estrutura de Monitoramento da Restauração de Ecossistemas (Framework for Ecosystem Restoration Monitoring), plataforma da Década da ONU dedicada ao acompanhamento dos esforços globais de restauração.
Sobre o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) é a principal autoridade global em questões ambientais. A organização exerce liderança e promove parcerias em prol da proteção do meio ambiente, inspirando, informando e capacitando nações e povos a melhorar sua qualidade de vida sem comprometer o bem-estar das gerações futuras.
Sobre a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)
A FAO é uma agência especializada das Nações Unidas que lidera os esforços internacionais para erradicar a fome. Seu objetivo é alcançar a segurança alimentar para todos e garantir que as pessoas tenham acesso regular a alimentos suficientes e de boa qualidade para levar uma vida ativa e saudável. Com mais de 193 países-membros, a FAO atua em mais de 130 países ao redor do mundo.
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Animação explica proposta de Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará e consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais
Episódio produzido pela Rede Xingu+ e o ISA faz parte da série “Carbono: o que você precisa saber?”, que apresenta de forma didática o mercado de crédito de carbono
A Rede Xingu+ e o Instituto Socioambiental (ISA) lançam nesta quarta-feira (05/08) o sexto episódio da série de animação “Carbono: o que você precisa saber?”. O vídeo aborda o anteprojeto em discussão no Pará que cria o Sistema Jurisdicional de REDD+. Atualmente, os povos indígenas do estado estão sendo consultados sobre o conteúdo da proposta. Quilombolas e extrativistas já foram ouvidos no processo.
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Povos indígenas serão consultados sobre proposta que cria o Sistema de REDD+ no Pará | Amanda Miranda/Cama Leão
O novo episódio explica como vai funcionar o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará, caso a proposta seja aprovada. Na prática, países ou estados que protegem suas florestas poderão receber dinheiro de outros países e empresas que historicamente mais poluíram o planeta, mas que agora tentam compensar esse impacto ambiental recompensando quem ainda tem floresta de pé.
Pela proposta, o governo do Pará receberá o pagamento pela venda de créditos de carbono gerados no estado e terá que distribuir os recursos, destinando parte deles a quem efetivamente protegeu a floresta.
No processo de consulta em andamento, cada povo define se está de acordo em integrar o sistema jurisdicional do estado ou se prefere não fazer parte. Em seguida, o governo do Pará registra o resultado das consultas e informa como vai encaminhar as reivindicações.
O vídeo explica os pontos que serão debatidos nas consultas, como: propostas de lei, repartição de benefícios, subprogramas e sistema estadual de informações de salvaguardas.
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O governo do Pará receberá o pagamento pela venda de créditos de carbono e terá que distribuir os recursos a quem efetivamente protegeu a floresta | Amanda Miranda/Cama Leão
A série
Lançada em dezembro de 2023, a série “Carbono: o que você precisa saber?” apresenta uma introdução sobre o mercado de crédito de carbono, um dos temas mais debatidos no campo socioambiental.
A série, que agora conta com seis episódios, também contribui com o debate sobre como o desmatamento está acelerando as mudanças climáticas e sua relação com o carbono e outros gases na atmosfera, além das soluções propostas para diminuir o aquecimento do planeta.
Confira abaixo os outros cinco episódios:
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II Encontro Indígena de Restauração Ecológica fortalece protagonismo indígena na construção do futuro da restauração no Brasil
Reunindo 80 representantes de 38 povos de todos os biomas brasileiros, o encontro consolida uma agenda indígena para a restauração ecológica e amplia sua participação nos espaços de decisão do país
O protagonismo indígena na restauração ecológica ganhou novos contornos durante o II Encontro Indígena de Restauração Ecológica (II EIRE), realizado nos dias 25 e 26 de julho, em Brasília.
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Participante do do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica - II EIRE|Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Organizado em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), do Redário, da Rede de Sementes do Xingu e de diversos parceiros, o encontro reuniu cerca de 100 participantes, entre eles 80 representantes de 38 povos indígenas de todos os biomas brasileiros.
A iniciativa respondeu diretamente a uma das principais reivindicações apresentadas no I EIRE, realizado em Juazeiro (BA), em 2024: ampliar a presença e a participação indígena nos espaços nacionais de debate e decisão sobre restauração. Nesse sentido, o II EIRE fortaleceu alianças, promoveu a troca de experiências e construiu estratégias para ampliar a participação dos povos indígenas em todas as etapas da restauração, da concepção dos projetos à gestão dos recursos, das políticas públicas aos espaços de governança.
Ao longo de dois dias, rituais, rodas de conversa, momentos culturais e cirandas de conhecimento reuniram experiências de diferentes territórios, evidenciando que, para os povos indígenas, restaurar vai muito além de recuperar áreas degradadas. Significa fortalecer territórios, revitalizar culturas, proteger a biodiversidade, assegurar a soberania alimentar e manter vivos os conhecimentos ancestrais sobre o cuidado com a terra.
O encontro também aprofundou debates sobre políticas públicas, governança e a construção do Programa Indígena de Restauração Ecológica (PIRE), além da representação indígena em instâncias nacionais ligadas ao tema.
Entre os participantes estavam representantes da Rede de Sementes do Xingu (RSX), no Mato Grosso; da Rede de Sementes da Bioeconomia da Amazônia (RESEBA), em Rondônia; e da Rede de Sementes Serra da Lua (RESSEL), em Roraima, todas articuladas ao Redário.
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Ritual de abertura do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica|Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Um caminho iniciado em 2024
O encontro deu continuidade ao processo iniciado no I Encontro Indígena de Restauração Ecológica (I EIRE), realizado durante a Conferência da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE24), em Juazeiro (BA). Na ocasião, representantes de 41 povos elaboraram a Carta dos Povos Indígenas do I Encontro Indígena de Restauração Ecológica – Chamado para restaurar ecossistemas e cabeças com sabedoria ancestral indígena, afirmando que "não há restauração possível sem os povos indígenas".
O documento reivindicava participação efetiva em toda a cadeia — ou, como preferem chamar, nos "ninhos da restauração" —, desde a formulação das iniciativas até sua implementação e monitoramento, além de acesso direto ao financiamento, reconhecimento dos conhecimentos tradicionais e maior presença indígena nos espaços de governança da restauração.
Dois anos depois, essas reivindicações continuam orientando a construção coletiva da agenda indígena para a restauração.
Muito além da execução de projetos
As lideranças presentes defenderam que os povos indígenas não querem apenas executar projetos concebidos por terceiros, mas participar das decisões desde o início, definir prioridades para seus territórios e gerir diretamente os recursos destinados à restauração.
Outro tema recorrente foi a necessidade de que os projetos deixem capacidades instaladas e benefícios permanentes nos territórios. Para as lideranças presentes, iniciativas de restauração precisam estar conectadas às economias da sociobiodiversidade, à produção de alimentos, às sementes nativas, ao artesanato e a outras atividades capazes de gerar renda e autonomia após o encerramento dos financiamentos.
Como resumiu uma das participantes durante o encontro, os povos indígenas não querem ser "submissos aos editais", dependendo continuamente de novos projetos para manter as ações em seus territórios. O desafio é construir processos capazes de fortalecer a autonomia das comunidades e gerar um legado duradouro.
Os debates também reforçaram que os povos indígenas são protagonistas históricos da conservação dos ecossistemas brasileiros. Seus conhecimentos, formas de manejo e modos de vida explicam, em grande medida, a elevada integridade ambiental das Terras Indígenas, reconhecidas entre as áreas mais preservadas do país. Nesse contexto, restaurar significa também fortalecer quem há séculos protege as florestas, as águas e a biodiversidade.
Comunicação do EIRE
A cobertura do II EIRE foi realizada pelos comunicadores da Rede de Sementes do Xingu. Assista ao vídeo produzido por Marewi Juruna e Lia Domingues:
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Oreme Ikpeng e Marewi Juruna da Rede de Sementes do Xingu|Lia Domingues/Rede de Sementes do Xingu
Carta do II EIRE
O encontro aconteceu na semana que antecedeu a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2026). Muitos participantes permaneceram em Brasília para a conferência, com isenção da inscrição e apoio financeiro de diferentes instituições, o que representa mais um passo para que a restauração ecológica seja construída com maior diversidade de saberes, justiça social e protagonismo indígena.
No dia 31 de julho, durante a plenária de encerramento da SOBRE2026, representantes indígenas subiram ao palco para apresentar a Carta dos Povos Indígenas do II Encontro Indígena de Restauração Ecológica à VI Conferência da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica – Nós Somos a Regeneração.
O documento reafirma que, para os povos indígenas, a restauração ecológica é inseparável da cultura, da espiritualidade e do território. Sob o lema "Nós Somos a Regeneração", a carta propõe ampliar a compreensão sobre a restauração, defendendo o fortalecimento dos "ninhos da vida" — territórios onde a vida continua sendo cultivada — e o reconhecimento dos conhecimentos indígenas como formas próprias de compreender e regenerar o mundo.
Entre os principais encaminhamentos estão o fortalecimento das políticas ambientais; a criação de mecanismos de financiamento acessíveis diretamente aos povos indígenas; a participação desde a concepção das iniciativas; a construção coletiva do Programa Indígena de Restauração Ecológica (PIRE); a continuidade da formação de Multiplicadores Indígenas em Restauração Ecológica (MIRE); e o reconhecimento dos territórios indígenas como protagonistas no cumprimento das metas nacionais de restauração.
A leitura da carta na plenária da SOBRE2026 marcou a consolidação de uma agenda construída pelos próprios povos indígenas e reafirmou uma mensagem que atravessou todo o encontro: não haverá restauração ecológica justa, duradoura e transformadora sem aqueles que, há milênios, mantêm vivos os territórios, os conhecimentos e as relações que sustentam a vida.
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A restauração dos sonhos
Restaurar os ecossistemas é essencial e urgente. Mas existe uma dimensão da restauração ainda mais profunda: a restauração da nossa capacidade individual e coletiva de sonhar
*Artigo originalmente publicado no O Eco no dia 29/07/2026 **Artigo preparado para a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, apresentado na seção ‘Vozes da Restauração’ em 29 de julho de 2026, na Universidade de Brasília.
Este artigo é fruto da minha trajetória na restauração ecológica e as perguntas que a vida me trouxe ao longo do caminho. Entre florestas, sementes, sonhos e processos de reconstrução pessoal, fui compreendendo que restaurar é muito mais do que recuperar ecossistemas degradados, significa também renovar ideias, regenerar relações, reconectar com a natureza, preservar histórias e cultivar futuros. Neste ensaio, convido o leitor à reflexão sobre uma dimensão frequentemente esquecida da restauração: os sonhos. Afinal, antes de se materializar na paisagem, toda restauração nasce no coração e na imaginação daqueles que acreditam que outros mundos são possíveis.
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Milene Alves, jovem coletora da Rede de Sementes do Xingu, em plantio de Muvuca no Mato Grosso|Rogério Assis/ISA
O pesadelo coletivo
A degradação da natureza é um reflexo da degradação da sociedade. A nossa forma de organização social e as escolhas políticas e econômicas dos grupos que estão no poder deliberaram (e ainda deliberam) a favor da destruição. Essas mesmas escolhas também sustentam diferentes formas de violência contra os seres humanos, perpetuando guerras, racismo, fome, pobreza e exclusão.
A maioria dos sistemas sociais está em colapso e está arrastando junto os ecossistemas e as pessoas, o que já foi descrito em sociedades anteriores. Um sistema social, político e econômico que contamina o ar que respiramos, a água que bebemos, o solo que produz nossos alimentos e os próprios corpos que habitamos é um sistema profundamente adoecido.
Por isso, a degradação ambiental é muito mais do que uma crise ecológica. Ela é um sintoma de uma crise social muito mais profunda. Em muitos aspectos, vivemos um pesadelo coletivo, onde a exploração da natureza e das pessoas é naturalizada. E, talvez, a maior tragédia não seja apenas aquilo que estamos perdendo materialmente, mas a erosão da nossa capacidade individual e coletiva de sonhar e criar novos caminhos.
A degradação começa dentro de nós
Se a degradação da natureza reflete a degradação da sociedade, a sociedade reflete algo que acontece dentro de cada um de nós: a degradação humana.
Não estou falando da presença de microplásticos em quase todos os órgãos do corpo humano, algo que a ciência já comprovou. Falo de outro tipo de poluição, a das mentes sobrecarregadas, dos corações endurecidos e da crescente desconexão com a vida, em suas múltiplas formas. Se formos honestos, perceberemos que, na correria do dia a dia, muitas vezes nos afastamos da nossa própria essência, das pessoas que amamos, da natureza e do momento presente.
Tenho aprendido que a vida acontece em ciclos, como tudo o que existe na natureza. As borboletas e as formigas do meu jardim me lembram disso diariamente. Como as cobras, também podemos trocar de pele. Podemos nos regenerar, recomeçar e nos transformar. A resiliência humana é impressionante.
No processo de restauração da minha própria saúde, aprendi que as dificuldades e as dores podem ensinar muito mais do que os acertos. Compreendi também que restaurar não significa voltar a ser quem éramos antes, mas encontrar novas formas de ser e de estar depois de rupturas.
Mas aquilo que é verdadeiro para os indivíduos nem sempre se aplica da mesma forma à sociedade. Nós podemos aprender com os nossos erros, mudar de direção e recomeçar. Coletivamente, porém, existe um limite para os equívocos que podemos cometer. Quando ultrapassamos determinados limiares, comprometemos a capacidade do planeta de sustentar a vida como a conhecemos.
Por isso, conservar e restaurar a natureza não é apenas uma escolha técnica, econômica ou política. É um compromisso ético com a continuidade da vida e com aqueles que virão depois de nós. E é justamente por isso que estamos aqui.
A Restauração Ecológica Integral
A restauração dos ecossistemas precisa refletir os processos de restauração social e individual. Sem envolver a sociedade e o ser humano, corremos o risco de realizar apenas mudanças superficiais e paliativas. Podemos plantar árvores, recuperar nascentes e pastagens degradadas, mas dificilmente construiremos uma sociedade verdadeiramente sustentável se continuarmos reproduzindo os mesmos padrões de desconexão que nos trouxeram até aqui.
E é por isso que sonho com uma Restauração Ecológica Integral: um processo social que integra o bem-estar humano, a saúde dos territórios e a espiritualidade, a dimensão invisível da relação entre as pessoas e a natureza, independente de religião. Restauração é muito mais do que recuperar áreas degradadas. É reconstruir vínculos e nos reconectar com a natureza. É saber e sentir que fazemos parte da mesma teia da vida que buscamos conservar.
Na dimensão ambiental já conhecemos muitas das soluções. Os avanços da ciência, somados aos conhecimentos tradicionais e aos ensinamentos da própria natureza, mostram caminhos concretos para restaurar ecossistemas, conservar a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas. Atualmente, o desafio deixou de ser técnico e passou a ser político e econômico.
Na dimensão social, combater a degradação passa pela restauração da ética, da solidariedade, da justiça e do cuidado. Em muitos territórios, pessoas, organizações e movimentos sociais resistem diariamente às diversas formas de degradação e violência. Há lutas, conquistas e exemplos inspiradores em todas as partes. As transformações estruturais costumam ser lentas, mas a história também é marcada por pontos de inflexão, quando mudanças consideradas impossíveis se tornam realidade em um curto espaço de tempo.
Por isso, a dimensão pessoal da restauração é tão importante.
A restauração começa dentro de nós
A restauração que começa dentro de nós é aquela sobre a qual podemos agir todos os dias, o tempo todo. Cada pessoa influencia o seu entorno por meio dos seus valores, suas escolhas e atitudes. Como uma rede invisível de micorrizas que conecta árvores e distribui nutrientes pela floresta, nossas ações também se espalham muito além do que conseguimos enxergar.
É por isso que quero falar aqui com todas as pessoas restauradoras e também com aquelas que ainda não reconheceram sua própria missão nesse processo. Afinal, a restauração é muito mais do que uma técnica, uma atividade profissional ou um conjunto de metas. Ela é, antes de tudo, uma forma de estar no mundo, uma postura ética diante da vida.
Essa é talvez a dimensão mais desafiadora da restauração, porque exige coragem para revisitar valores, rever caminhos e cultivar coerência entre aquilo que acreditamos e aquilo que fazemos. Em um tempo que transforma quase tudo em indicadores e negócios, existe o risco de que a própria restauração se torne apenas mais uma atividade rotineira, desconectada de seu propósito mais profundo.
Por isso, independentemente da idade, da profissão, da origem, da crença ou da trajetória de cada pessoa, a restauração tem origem no coração e se manifesta no brilho dos olhos. Começa naquilo que nos move, na força que nos faz seguir mesmo diante das dificuldades e na decisão de contribuir ativamente para um mundo melhor.
E é justamente nesse ponto que os sonhos se tornam essenciais. Sonhar é o primeiro ato de restauração, pois é nele que enxergamos aquilo que ainda não existe.
Os sonhos
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Sob o céu estrelado na aldeia Tukayá, na Terra Indígena Xipaya no Pará|Lilo Clareto/ISA
Os sonhos fazem parte da história evolutiva da vida de diferentes espécies. Na experiência humana, atravessam culturas, tradições e formas de conhecimento. Para a ciência, estão associados à consolidação da memória, à aprendizagem e à regulação das emoções. Para a psicanálise, revelam conteúdos profundos do inconsciente. Em muitas culturas e tradições, os sonhos são compreendidos como fontes de orientação, cura e diálogo com dimensões invisíveis.
Independente da interpretação adotada, há algo que une essas diferentes perspectivas: os sonhos nos conectam a algo maior do que a experiência imediata do presente. Eles despertam a imaginação e nos ajudam a vislumbrar novas possibilidades.
Por que paramos de sonhar?
As crianças sonham com naturalidade. Sonham dormindo e acordadas. Imaginam mundos, criam histórias e inventam possibilidades. Em algum momento da vida, porém, muitas pessoas deixam de sonhar com a mesma liberdade. Aos poucos, a imaginação cede lugar à rotina, a esperança é substituída pelo medo e o futuro passa a ser percebido mais como ameaça do que como possibilidade.
Vivemos em uma época marcada pela aceleração. Trabalhamos demais, dormimos menos, passamos horas diante de telas e somos constantemente estimulados por informações, imagens e demandas, em uma dinâmica que favorece a distração permanente e a alienação de nós mesmos e do mundo real.
Em uma sociedade orientada pelo desempenho, pela produtividade e pelo consumo, até mesmo o descanso precisa ser justificado. O sono, um dos momentos mais íntimos da experiência humana, tornou-se uma das últimas fronteiras ainda não completamente dominadas pela lógica do capitalismo.
Uma sociedade privada de tempo, de silêncio e de sono perde sua capacidade de sonhar. E uma sociedade que não sonha perde a possibilidade de se restaurar e até de existir.
Precisamos (re)aprender a sonhar!
Se a degradação ambiental reflete a degradação social, e esta revela uma desconexão profunda dos seres humanos consigo mesmos e com a natureza, então restaurar também significa resgatar nossa capacidade de sonhar.
Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, o sonho é uma ferramenta biológica. Enquanto dormimos, o cérebro reorganiza memórias, processa emoções e combina experiências para simular futuros possíveis. Como um oráculo, os sonhos nos ajudam a antecipar desafios, orientar escolhas e imaginar caminhos alternativos.
Os povos indígenas sabem disso há muito tempo.
Para Ailton Krenak, o primeiro membro indígena da Academia Brasileira de Letras, sonhar é uma herança cultural que conecta os seres humanos e a natureza para além do tempo e do espaço, amplia horizontes e permite imaginar outros modos de habitar a Terra.
Para o xamã e líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, o sonho não é apenas uma experiência individual. É uma prática espiritual coletiva e política. Quando compartilhados, os sonhos tornam-se instrumentos de diálogo, aprendizado e transformação social. Davi distingue os sonhos cotidianos das experiências oníricas profundas vivida por xamãs e ‘sonhadores’, que permitem o encontro com outros seres e outros mundos. Em A Queda do Céu, ele afirma que “Os brancos não sabem sonhar, e é por isso que destroem a floresta.”
O grande convite que emerge é simples e profundo: (re)aprender a sonhar. Sonhar é ampliar a realidade. É construir pontes no lugar de muros. É cultivar esperança sem perder o senso de urgência. Porque nenhum futuro diferente será possível enquanto não formos capazes de sonhá-lo.
A restauração dos sonhos
Sonhar é um direito humano. O direito de imaginar, criar, desejar e participar da construção da realidade que compartilhamos. Quando a sociedade perde a sua capacidade de sonhar, perde também sua liberdade. Restaurar os sonhos é, portanto, restaurar uma dimensão essencial da própria condição humana.
Existem sonhos de uma noite, existem sonhos de uma vida e sonhos de muitas vidas. Os sonhos individuais trazem sentido às pessoas. Mas são os sonhos coletivos que transformam a sociedade. Toda grande mudança começou como um sonho compartilhado: o sonho da liberdade, da justiça, da democracia, da igualdade, da paz, da conservação da natureza e do bem-viver. Sonhos são sementes. Alguns germinam rapidamente. Outros levam décadas ou gerações. Podem ser ressignificados, mas nunca envelhecem e nem morrem.
Muitas vezes plantamos árvores sob cuja sombra jamais iremos sentar. Ainda assim, a plantamos. Também plantamos sonhos e ideias no planeta, mesmo sabendo que nem todos serão colhidos por nós.
Em um mundo marcado por tantas formas de degradação e por tantos pesadelos coletivos, restaurar os sonhos é um ato de resistência e de amor. É reafirmar a vida diante das forças que alimentam a destruição.
Sementes de sonhos
Como os ecossistemas, a dimensão dos sonhos é rica em formas, diversidade e funções. Há sonhos que curam, orientam, conectam e transformam. Quanto mais sonhamos, mais sonhos chegam. Como uma muvuca de sementes, a fertilidade do imaginário humano se multiplica quando encontra espaço.
Como na sucessão ecológica, onde a vida se reorganiza, se complexifica e se renova ao longo do tempo, também existe uma sucessão de sonhos. Cada geração herda os sonhos das gerações anteriores. E cabe a ela mantê-los vivos e cultivar novos sonhos para as gerações que virão.
Restaurar também é cuidar dessa continuidade, garantindo que as crianças não percam sua capacidade de sonhar e que os adultos tenham a oportunidade de (re)aprender. Em vez de podar, precisamos adubar e criar condições para que diferentes formas e capacidades de sonhar possam emergir e se fortalecer na sociedade.
Por fim, devemos aprender com os Yanomamis que sonhar também é um ato político. Precisamos sonhar juntos, compartilhar visões, ampliar vozes e abrir espaço para plantar nossos sonhos coletivos. Sonhar com os pés no chão e o coração aberto. Sonhar por nós, pelos que vieram antes e pelos que virão depois. Sonhar florestas, cerrados, rios, cidades, comunidades e territórios vivos.
Toda restauração começa com uma semente.
E toda semente nasce, primeiro, como um sonho.
Que não nos faltem sonhos para plantar.
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Hoje na História Socioambiental: em 2014, surge a I Semana do Extrativismo, no Pará
Ocorrida pela primeira vez entre os dias 05 e 07 de maio de 2014, a I Semana do Extrativismo surgiu como um espaço de iniciativas coletivas que impulsionam a economia da sociobiodiversidade brasileira
A primeira edição da Semana do Extrativismo (Semex) ocorreu em 2014, no Gabiroto, polo central da Reserva Extrativista Rio Xingu, no Pará, reunindo, pela primeira vez, cerca de 30 participantes entre extrativistas, representantes de empresas e organizações da sociedade civil para reforçar a relação histórica dos povos com seus territórios e reivindicar um plano de desenvolvimento para a região.
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A I Semana do Extrativismo ocorreu em maio de 2014 com cerca de 30 participantes|Rafael Salazar/Poltrona Filmes
Durante os três dias, os participantes avaliaram o trabalho que vinha sendo desenvolvido na região desde 2008 e debateram propostas de desenvolvimento de arranjos produtivos, tecnologias aplicadas às atividades locais, políticas públicas e estratégias de comercialização de produtos da floresta.
Além dos extrativistas, participaram do evento representantes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Fundação Rainforest da Noruega, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) e das empresas Mercur, Natura e Cacauway e um consultor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o Programa de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX).
Participantes da I Semana do Extrativismo, extraindo látex, um dos produtos que compõem essa rede, em maio de 2014|Rafael Salazar/Poltrona Filmes
A idealização da Semex surgiu a partir das discussões do Grupo de Trabalho de Produção e Comercialização da Rede Terra do Meio (RTM), especialmente quando o espaço passou a contar com maior participação de beiradeiros. A presença mais ativa das comunidades mostrou a importância de aproximar as instituições parceiras da realidade vivida nos territórios tradicionais.
Nas reuniões do GT, o encontro começou a ganhar forma: um evento anual voltado à troca de experiências e ao diálogo entre extrativistas, cantineiros, associações locais, organizações da sociedade civil, parceiros comerciais e representantes do poder público. Os encontros também visavam debater os multiprodutos da floresta e os contratos diferenciados de comercialização para cada um deles, aí incluídos borracha, castanha, óleos de babaçu, andiroba, copaíba, farinhas, frutas e sementes florestais.
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Entre as atividades da primeira edição, os participantes avaliaram trabalho realizado e fizeram propostas para o extrativismo na região|Rafael Salazar/Poltrona Filmes
Ao final do primeiro encontro foi elaborado o manifesto da I Semana do Extrativismo da Terra do Meio, documento que contém um conjunto de reivindicações que indicavam um programa de desenvolvimento para a região. O documento era destinado ao governador do Pará à época, Simão Jatene.
O manifesto também defendia a criação de uma lei estadual de subvenção para produtos extrativistas e que o Estado reconhecesse o potencial da sociobiodiversidade da região e implementasse políticas públicas e ações adequadas para o desenvolvimento de uma economia sociobiodiversa.
No manifesto, os participantes destacaram:
“As Populações da Terra do Meio possuem uma relação histórica e profunda com seus territórios tradicionais e com as florestas e rios que fazem parte deles. A natureza dessa relação garante, juntamente com a demarcação e proteção dos territórios, a conservação de um dos maiores Patrimônios Socioambientais do planeta. Esse patrimônio material e imaterial é responsável por serviços socioculturais e ambientais ainda pouco valorizados pela sociedade e pelos governos.”
Nos anos seguintes, parte dessas demandas passou a ganhar maior visibilidade e estrutura. Na segunda edição do encontro, no ano de 2015, o destaque foi a participação indígena, marcando a aliança com o povo Xipaya. No decorrer dos anos, outros povos indígenas passaram a participar do encontro, fortalecendo a representatividade coletiva.
A 9ª Semana do Extrativismo (Semex), contou com a cobertura de comunicadores da Rede Xingu+. Joelmir Silva, da comunidade Maribel, e Maxiel Xavier, da Resex Rio Iriri, registraram o evento em fotos, vídeo, texto e áudios. Assista abaixo:
Além disso, a partir das experiências no território, a Semex passou a fortalecer novas discussões, sendo uma delas a necessidade de adequações das políticas públicas à realidade dos beiradeiros, extrativistas, pequenos agricultores e indígenas.
Um dos exemplos positivos nesse sentido é a participação de agricultores e extrativistas da região ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), por meio do qual os alimentos e os preparos das roças, da floresta e dos rios passaram a ser entregues nas escolas da comunidade, reforçando a cultura e a saúde e protegendo o ambiente!
Desde o último encontro ocorrido em maio de 2025, os olhos do poder público passaram a estar ainda mais atentos e participativos. Entre os parceiros e apoiadores estavam órgãos públicos como Ministério do Meio Ambiente (MMA); Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai); Banco do Brasil e Governo do Estado do Pará. As empresas Mercur e Natura, entre outras, também estiveram na 10° edição do encontro.
A 10° Semana do Extrativismo ocorreu em maio de 2025 na Aldeia Koatinema, município de Altamira (PA)|Juliana Oliveira/ISA
A Semana do Extrativismo - Semex fortalece as economias da sociobiodiversidade, que constituem uma forma de proteger o território, e a manutenção de modos de vida profundamente interligados aos seus ciclos.
Professoras(es), venham conhecer o kit didático que reúne fontes e documentos com propostas de reflexão para apoiar discussões e atividades sobre o assunto em sala de aula!
VILLAS-BÔAS, André; GUERRERO, Natalia Ribas; JUNQUEIRA, Rodrigo Gravina Prates; POSTIGO, Augusto (org.). Xingu: História dos Povos da Floresta. 1 ed. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2017.
** A série Hoje na História Socioambiental apresenta a riqueza de informações do Acervo do Instituto Socioambiental que conta com mais de 250 mil itens catalogados voltados para a temática socioambiental como publicações do ISA, livros gerais, teses e dissertações, mapas, notícias, materiais audiovisuais, entre outros. Hoje na História Socioambiental é um convite a reler o Brasil com mais amplitude, sensibilidade e justiça, valorizando a memória e documentação dos diversos povos.
Esta publicação conta com o apoio do Fundo Amazônia e é um produto do projeto "Defesa e Promoção dos Direitos Indígenas no Brasil: Construir Capacidades e Engajar Pessoas por um Futuro mais Justo", realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com o financiamento da União Europeia.
Este material tem conteúdo de responsabilidade exclusiva da instituição realizadora e não reflete a posição da União Europeia.
Detalhe de seringueira durante visita guiada por extrativistas pelo caminho da seringa|Lilo Clareto/ISA
João Nascimento dos Santos caminha pela área do seu seringal|Fellipe Abreu/ISA
Merendeira de Vitória do Xingu (PA) mostra coco babaçu em oficina|Rafael Hupsel/ISA
Oficina de prensagem de borracha foi uma das atividades da I Semana do Extravismo|Rafael Salazar/Poltrona Filmes
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COP15: Sítios Ramsar na Amazônia reforçam papel estratégico na proteção de espécies migratórias
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é o maior de águas pretas do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares, e foi pauta na COP15 sobre Espécies Migratórias
As zonas úmidas da Amazônia estiveram no centro das discussões sobre estratégias para a conservação de espécies migratórias no Brasil. Durante dois debates realizados na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, especialistas reforçaram que proteger esses territórios exige fortalecer a governança local e reconhecer o papel das populações que vivem nessas áreas.
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Painel foi realizado no Espaço Brasil e destacou a governança territorial como um dos pilares da conservação|Vanessa Fernandes/ISA
Realizados nos dias 26 e 27 de março, os encontros abordaram desde a governança territorial até os desafios enfrentados por espécies migratórias em paisagens aquáticas cada vez mais pressionadas. Em comum, as discussões apontaram que a conservação depende da integridade dos ecossistemas e da participação ativa das comunidades.
O primeiro painel, realizado no Espaço Brasil (Zona Azul), trouxe experiências de Sítios Regionais da Amazônia, os sítios Ramsar no Rio Negro, no Juruá e no estuário da foz do Amazonas, evidenciando que a governança territorial é um dos pilares da conservação.
Nessas experiências, o monitoramento comunitário tem sido fundamental não apenas para registrar mudanças ambientais, mas também para fortalecer a autonomia dos territórios.
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Renata Alves, analista de geoprocessamento do ISA e membro do CNZU fala sobre a importância dos PGTAs|CCOM/ICMBio
As falas também evidenciaram que as mudanças nos padrões das espécies migratórias já são perceptíveis localmente. Alterações no comportamento de peixes e aves têm sido observadas com maior frequência, reforçando a urgência de ações integradas.
Neste contexto, o Agente Indígena de Manejo Ambiental (AIMA) Tiago Pacheco apresentou pesquisa intercultural na região do Rio Negro sobre aves migratórias nos ciclos anuais, onde se tem observado a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.
Participaram da mesa Renata Alves, ecóloga e analista de geoprocessamento do Instituto Socioambiental (ISA) e membro do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU), Gabriela Soeiro, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT/ICMBio), Selma Ribeiro, do Centro Nacional de Pesquisa em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC/ICMBio), Tiago Pacheco, AIMA do Rio Negro, e Guillermo Estupiñán, da Wildlife Conservation Society (WCS)
Reconhecido desde 2018, o Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas de importância internacional do mundo, com cerca de 12 milhões de hectares. A área abrange um mosaico de oito terras indígenas e unidades de conservação municipal, estadual e federal, localizados no noroeste amazônico, formando um dos maiores contínuos de florestas e rios preservados do planeta. A alta diversidade biológica da região inclui animais em extinção como o peixe-boi-da-Amazônia e o boto-cor-de-rosa.
Segundo Renata Alves, o processo de governança do sítio está diretamente relacionado à articulação com os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das terras indígenas que compõem esse território. Esses instrumentos, elaborados pelos povos indígenas, orientam o uso, a proteção e o manejo dos recursos naturais.
“A governança neste sítio não começa do zero, ela se baseia em instrumentos que já existem e que expressam como os povos querem cuidar dos seus territórios”, destaca.
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Sítio Ramsar do Rio Negro é a maior zona úmida de águas pretas do mundo|Renata Alves/Rio Negro
Conectividade ecológica
No segundo painel, que discutiu paisagens aquáticas e suas vulnerabilidades e oportunidades, realizado pelo ISA, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), especialistas destacaram que espécies migratórias dependem de grandes áreas conectadas para sobreviver.
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Pesquisador Carlos Durigan (Ipam) dividiu painel sobre paisagens aquáticas, suas vulnerabilidades e oportunidades com Renata Alves (ISA)|Vanessa Fernandes/ISA
A fragmentação de habitats, causada por desmatamento, mudanças hidrológicas e grandes obras de infraestrutura, foi apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade. “As espécies migratórias precisam de continuidade. Quando você rompe essa conectividade, você compromete todo o ciclo de vida dessas espécies”, alerta Jochen Schongart, pesquisador do INPA.
Ao mesmo tempo, os Sítios Ramsar foram apresentados como uma oportunidade estratégica para integrar conservação, ciência e políticas públicas, ampliando a visibilidade internacional dessas áreas e organizando esforços de conservação em larga escala.
Nesse contexto, especialistas também chamaram atenção para o papel das florestas públicas não destinadas na Amazônia, que somam cerca de 50 milhões de hectares e ainda aguardam definição fundiária por parte dos governos. Sem destinação, essas áreas permanecem altamente vulneráveis à grilagem e ao desmatamento.
“A destinação dessas florestas é uma agenda urgente. É uma oportunidade concreta de reduzir a pressão sobre a Amazônia e, ao mesmo tempo, garantir conectividade ecológica em larga escala”, destacou Carlos Durigan, pesquisador do Ipam.
Segundo ele, a criação de unidades de conservação, o reconhecimento de territórios tradicionais, como indígenas e quilombolas, e outras formas de uso sustentável podem transformar essas áreas em corredores ecológicos estratégicos, fundamentais para a manutenção dos fluxos das espécies migratórias e para a proteção das zonas úmidas no país.
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas reconhecidas internacionalmente por sua importância para a conservação da biodiversidade. O título é concedido no âmbito da Convenção de Ramsar, um acordo global criado em 1971 para promover a proteção e o uso sustentável desses ecossistemas.
As zonas úmidas incluem ambientes como rios, lagos, áreas alagadas, manguezais e florestas inundáveis, que são ecossistemas fundamentais para a conservação da água, do clima e da vida silvestre.
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