Em ano de El Niño, e a partir das necessidades dos povos indígenas, ISA apoia a elaboração e entrega de 15 Planos de Manejo Comunitários do Fogo ao PrevFogo, do Ibama
Resultado de cinco anos de trabalho na região do Alto Xingu, Território Indígena do Xingu (MT), o Instituto Socioambiental (ISA) entregou ao Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Ibama, um total de 15 Planos de Manejo Comunitários do Fogo. A entrega foi realizada no dia 13 de maio em assembleia do Instituto Aritana, no Polo Leonardo.
O fogo é uma tecnologia milenar de manejo da paisagem, utilizado na roça de coivara, na limpeza de caminhos e aldeamentos, no preparo da comida, na coleta do mel, no aquecimento das casas, em técnicas de caça e em inúmeras outras atividades. No entanto, nos últimos anos, os incêndios florestais se tornaram um dos principais desafios enfrentados pelos povos xinguanos.
A entrega dos Planos de Manejo Comunitário do Fogo para o PrevFogo marca um novo momento na prevenção de incêndios dentro do Território Indígena do Xingu: a possibilidade de a política pública ser aperfeiçoada a partir do conhecimento e necessidades específicas dos povos indígenas.
“Os Planos de Manejo Integrado do Fogo, frutos do Mapeamento da Cultura do Fogo, que são produzidos de maneira participativa, revelam os saberes e fazeres das comunidades do Alto Xingu, quanto ao conhecimento tradicional associado ao uso, ou não uso, do fogo no território”, explica Marcos Guedes, técnico especialista em Manejo Integrado do Fogo do PrevFogo.
Para ele, a abordagem é muito exitosa em trazer o protagonismo comunitário como base para a efetiva promoção da gestão do fogo nos territórios. “Os Planos de Manejo Integrado do Fogo do Alto Xingu servirão de bússolas a apontar caminhos e soluções na árdua missão de conservação do território e prevenção aos incêndios florestais”, afirma.
Mudanças climáticas e adaptação
O trabalho começou em diálogo com aldeias do Rio Kuluene, principal rio formador do Xingu, onde moram indígenas dos povos Kalapalo e Kuikuro, principalmente. A região é caracterizada pela presença de campos naturais, uma vegetação adaptada ao fogo. No entanto, os indígenas têm sofrido com incêndios que começam nos campos, mas se descontrolam e queimam áreas de floresta.
Preocupados com a manutenção das condições de vida em suas comunidades, os xinguanos passaram a procurar o ISA para pensar novas estratégias de manejo do fogo. O trabalho resultou na elaboração dos mapas.
"Estes planos abrange as diretrizes dos povos nativos que vivem no Território Indígena do Xingu. É gerido coletivamente por diversas etnias, como Kuikuro, Naruvotu, Tapayuna, Wauja, Kalapalo e Yudja. Suas frentes prioritárias incluem executar os planos de manejo comunitário do Xingu e mitigar os impactos das mudanças climáticas na região, com foco na restauração ecológica, manejo tradicional de roçados, recuperação de cultivos nativos, manejo sustentável e fomento a sistemas agroflorestais", explica Emilton Paixão, técnico do ISA que apoiou a elaboração dos Planos de Manejo.
O desmatamento crescente no entorno do território, o uso intensivo de agrotóxicos “secantes” nas lavouras de soja e milho e o secamento de nascentes e diminuição das águas fluviais tornaram a floresta mais seca e vulnerável ao fogo.
Antes, o fogo era mais brando, queimava lentamente uma pequena área e apagava naturalmente ao anoitecer ou ao encontrar uma porção de mata mais úmida. Agora, o fogo está “bravo” e avança descontroladamente sobre a floresta, degradando imensas áreas de mata. A floresta degradada pelo fogo se torna mais seca e mais suscetível à incêndios no ano seguinte, gerando um ciclo perverso de savanização da floresta amazônica.
Recursos estratégicos para a construção de casas, confecção de utensílios e artesanatos, coleta de frutas e plantas medicinais são destruídos, gerando prejuízos para as aldeias.
“Este ano de 2026 será extremamente desafiador. O Xingu se prepara para um El Niño de seca intensa e altas temperaturas. O ISA seguirá junto com os povos do Xingu e suas instituições representativas, como a Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) e o Instituto Aritana, monitorando, avaliando e colaborando com o manejo do fogo e combate aos incêndios, ao lado dos agentes públicos do PrevFogo”, afirma Ivã Bocchini, coordenador-adjunto do programa Xingu do ISA.
A atuação do PrevFogo no Território Indígena do Xingu se caracteriza por duas estratégias fundamentais: ações de manejo e ações de combate. As primeiras, orientadas pelo Plano Nacional de Manejo Integrado do Fogo, ocorrem no período de maio a julho, quando a chuva diminui, mas a mata ainda está úmida, momento ideal para realizar queimas controladas, onde o fogo é tecnologia ancestral de manejo e conservação da floresta. s ações de combate a incêndios se estendem de agosto a outubro, no auge da estiagem, quando qualquer fogo precisa ser rapidamente detectado e apagado.
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