Destruição da floresta cai 41% em um ano e 71% na comparação com final do governo Bolsonaro. Números podem ser considerados conquista histórica
O Brasil alcançou uma conquista histórica! A Amazônia e o Cerrado registraram, simultaneamente, as menores taxas anuais de desmatamento desde o início das respectivas séries históricas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Na Amazônia Legal, foram desmatados 3,3 mil km² de florestas, entre agosto de 2025 e julho de 2026, contra 5,7 mil km² no período anterior, uma queda de cerca de 41%. A redução deste ano representa ainda um decréscimo de 27% em relação ao recorde anterior, de 4,5 mil km², obtido em 2012. A série foi iniciada em 1988 (veja gráfico ao lado).
No Cerrado, a área desmatada somou 5,5 mil km² no mesmo período de agosto de 2025 a julho de 2026, ante 7,2 mil km² nos 12 meses anteriores. A queda é de mais de 23%. Até então, o menor valor havia sido registrado em 2019, com 6,3 mil km². O novo índice fica cerca de 13% abaixo deste último. Nesse caso, os registros foram iniciados em 2001 (veja gráfico abaixo).
O resultado do Cerrado é especialmente relevante porque o bioma, que ocupa grande parte do Brasil central, está no centro da expansão agropecuária brasileira. A conversão de vegetação nativa em lavouras e pastagens pressiona ecossistemas fundamentais para a biodiversidade e a manutenção dos mananciais de água de todo o país.
Os dados foram divulgados pelo governo no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta sexta-feira (16). Os números foram produzidos pelo sistema Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Inpe, responsável pelas taxas oficiais anuais de desmatamento. A metodologia permite estimar a área de vegetação nativa totalmente suprimida (corte raso) e acompanhar a evolução do problema ao longo dos anos. Os resultados são o principal parâmetro de avaliação das políticas ambientais.
“É muito bom ver as taxas chegarem a esse nível histórico. Comprova que basta ter vontade política para fazer isso acontecer”, diz a diretora-executiva do Instituto Socioambiental (ISA) Adriana Ramos. “O Brasil já detém conhecimento estratégico, políticas públicas e instrumentos suficientes para avançar na redução dos desmatamentos e cumprir de fato o compromisso de desmatamento zero”, completa.
Governos Lula X Jair Bolsonaro
A trajetória recente dos índices representa uma inflexão importante em relação ao governo anterior. A gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022) foi marcada pela manutenção de taxas elevadas de destruição dos biomas e pela reversão da tendência de redução observada nos anos 2000.
Na Amazônia, o desmatamento anual foi de 10,1 mil km², em 2019, para 11,5 mil km², em 2022. Na comparação entre o último ano da administração Bolsonaro e este ano, a queda é de 71%. Em 2021, a destruição da floresta chegou a alcançar mais de 13 mil km², o maior índice em uma década (veja gráfico no início da notícia).
Os números divulgados agora evidenciam a mudança registrada desde a troca de governo, em 2023. A gestão Bolsonaro foi abertamente antiambiental e anti-indígena, sendo caracterizada por um desmonte generalizado do arcabouço legal e institucional de proteção ambiental e o estímulo às invasões de áreas protegidas. Os números de desmatamento do governo anterior, portanto, não são por acaso.
Por outro lado, uma análise dos programas de governo dos candidatos à Presidência produzida pelo Observatório do Clima (OC) não permite antever um cenário otimista caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, seja eleito.
“O candidato afirma, ao longo de todo seu programa de governo, que o governo do pai será sua referência de gestão. Vale lembrar que foi exatamente na presidência de Jair Bolsonaro que o país sofreu a pior administração ambiental e climática de toda sua história”, diz o documento.
Flávio já disse que pretende paralisar a demarcação de Terras Indígenas e vai tentar abrir esses territórios a grandes empreendimentos econômicos. Considerando outras declarações, seus posicionamentos no Congresso e seu programa de governo, também é possível prever ações e propostas para enfraquecer a legislação e os órgãos ambientais.
Mudança de orientação
A mudança de orientação do governo Lula incluiu a retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), lançado em 2004. A atuação de órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também foi fortalecida, apesar dos problemas de orçamento, estrutura e pessoal.
De acordo com o Planalto, entre 2023 e 2026, o Ibama lavrou R$ 11,8 bilhões em multas por crimes contra a flora e embargou 18.630 km² de áreas com desmatamento ilegal. Além disso, desde janeiro de 2023 foram criadas no país 18 unidades de conservação federais e ampliadas outras oito, somando cerca de 25 mil km². No mesmo período, foram homologadas 20 terras indígenas, totalizando 32 mil km².
“Esses resultados não caem do céu”, afirmou o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA) em coletiva realizada no Planalto. “Essa é a maior contribuição recente de um país para o combate às mudanças climáticas no mundo”, reforçou.
Crise climática
Os resultados da luta contra o desmatamento da gestão de Lula de fato ganham ainda mais importância considerando o agravamento da crise climática. O planeta vive aquele que deverá ser o maior El Ñino da história. O fenômeno de aquecimento das águas do Pacífico Equatorial é cíclico, mas vem sendo potencializado pelas mudanças climáticas, as quais, por sua vez, são estimuladas pela ação humana.
Entre suas consequências, já estão sendo observados a disseminação da seca e de queimadas na Amazônia, de enchentes no centro-sul do país e de ondas de calor em todo o território nacional.
De acordo com o OC, o controle da destruição da floresta nos últimos quatro anos evitou a emissão de 2,328 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. No Brasil, o desmatamento responde por cerca de metade dessas emissões.
“Os números divulgados hoje são uma conquista histórica. Eles colocam o Brasil como protagonista na agenda de proteção das florestas e mostram ao mundo que, com vontade política, é possível frear as motosserras e as emissões de gases de efeito estufa”, reforçou Márcio Astrini, secretário-executivo do OC.
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