Em evento no Rio de Janeiro, Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) dos povos Tukano, Desana e Baniwa mostram como a observação das constelações orienta o manejo ambiental
A observação dos ciclos da natureza tendo por referência as constelações guia a escrita de diários dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), no Alto Rio Negro (AM), que fazem pesquisas a partir do cotidiano em meio à floresta Amazônica.
Esses saberes e práticas foram compartilhados por indígenas dos povos Tukano, Desana e Baniwa durante a XIII Escola Interamericana de Astronomia Cultural “Blas Servín” e a XII Jornada Interamericana de Astronomia na Cultura (SIAC 2026), entre os dias 14 e 20 de setembro, no Rio de Janeiro.
“Nesse calendário a gente observa a constelação, a gente desenha essas estrelas. Mas dentro dessa constelação a gente observa sobre os animais, as plantas, nível do rio, migração dos peixes, migração das aves. Conforme cada constelação, a gente faz esse desenho representando o que acontece nesse período", explica Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa, que participou do encontro. Ele vive na comunidade Canadá, região do Rio Ayari, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), Alto Rio Negro.
Nessa região, uma das mais preservadas da Amazônia, os indígenas Baniwa e Koripako olham para o céu e enxergam 19 constelações. Mas para organizar seu calendário astronômico, eles privilegiam 12 constelações maiores e, a partir daí, anotam os ciclos ambientais. O calendário está sendo aperfeiçoado com as trocas de informação com os mais velhos, os conhecedores.
Realizadas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) e no Museu Nacional, as atividades reuniram pesquisadores, educadores e lideranças para debater as relações entre a sociedade, a cultura e os eventos celestes sob o tema "Sob os céus do Sul Global".
O painel “Ciclos anuais no noroeste amazônico – relações entre ciclos socioambientais e calendário astronômico entre povos Tukano Orientais e Baniwa-Koripako” foi apresentado por Ismael dos Santos, Desana; Lucas Bastos, Tukano; Walter Lopes, Baniwa; pelo conhecedor Roberto Tomé, Baniwa; e Aloisio Cabalzar, antropólogo e pesquisador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).
Aloisio Cabalzar explica que o trabalho de observação realizado pelos AIMAs a partir das constelações busca estabelecer o monitoramento ambiental e climático; fortalecer os direitos territoriais; promover os conhecimentos e sua circulação entre as gerações, além de incentivar as pesquisas interculturais, que unem conhecimentos indígenas e não indígenas.
“O monitoramento acompanha a marcação do tempo, o manejo ambiental e as relações entre as espécies. A metodologia é a escrita de diários. Basicamente, o trabalho é observar os ciclos, o que é natural entre o grupo, formado por agricultores, pescadores, coletores de frutos, moradores das comunidades engajados em atividades produtivas. A cada dia eles tomam notas sobre o que observaram e escutaram dos parentes em relação a esses eventos cíclicos. Temos ainda as reuniões e oficinas a cada semestre para organizar dados, fazer textos e realizar as representações do ciclo”, explica.
Durante o encontro de astronomia cultural, diversas formas de olhar para o céu foram apresentadas, como as dos povos Tikuna/Magüta, das populações ribeirinhas na Amazônia, de povos na Argentina e no Uruguai.
Conhecimento tradicional na política pública
Especialista em Indigenismo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a antropóloga Melissa Santana de Oliveira defendeu que os calendários astronômicos ecológicos devem ser reconhecidos oficialmente por políticas públicas como ferramenta de gestão territorial, devendo integrar os Planos de Gestão Territorial e Ambiental indígenas (PGTAs), que são instrumentos oficiais que traduzem os diagnósticos comunitários em diretrizes de pactuação com o Estado e parceiros.
“Como explicitaram aqui os conhecedores Tukano, Desano e Baniwa, a astronomia é essencial para a gestão ambiental e territorial, porque o movimento das constelações vai reger a ocorrência de invernos e as enchentes dos rios, os períodos de estiagem e de vazantes. Então é uma leitura do céu que orienta o manejo agrícola, o plantio de maniva, as florações, coletas de frutas, frutas, pesca, caça ”, considera. “Os calendários têm o potencial para articular políticas indígenas e indigenistas ambientais, de educação e patrimônio”, completa.
O AIMA Lucas Bastos, do povo Tukano, ensinou que, para seu povo, as estrelas são pessoas. Ao conversar com essas “pessoas”, os conhecedores indígenas conseguem antecipar os fenômenos, apoiando na organização das atividades.
“Os conhecedores - os grandes pajés - conversam com as constelações e repassam para a comunidade os fenômenos que estão por vir. Mas muitos dos saberes se perderam e agora temos poucos conhecedores, o que dificulta recebermos as orientações sobre os ciclos”, explica.
Ele falou da importância do compartilhamento de informações durante o encontro no Rio de Janeiro. “Apresentamos aqui nesse encontro a pesquisa que nós estamos fazendo desde 2005. É importante mostrar para os pesquisadores das universidades a nossa pesquisa local. São visões diferentes e, assim, podemos compartilhar experiências de diferentes lugares e países”, diz. “Mesmo sendo um céu observado, mudam a língua, a escrita, os símbolos”, completa.
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Indígena do povo Desana, Ismael dos Santos traz em seus diários desenhos que são verdadeiras obras de arte que representam os ciclos. Ao ser perguntado sobre as alterações climáticas que - invariavelmente - vêm aparecendo nos diários, ele responde: “O que muda não são as constelações, o que muda é o tempo. Antigamente a chuva e o sol vinham no tempo certo. Agora está diferente”.
Para Lucas Bastos e Ismael dos Santos, a viagem ao Rio de Janeiro guarda um elemento especial. O principal mito de origem dos povos Tukano e Desana indica que a Cobra Canoa ou a Canoa da Transformação, um símbolo sagrado da criação da humanidade, saiu do Lago de Leite - que corresponde à Baía de Guanabara - e seguiu pelo litoral até a região Norte, abrindo caminho até onde hoje é o município de São Gabriel da Cachoeira.
Astronomia cultural
A astronomia cultural é um campo interdisciplinar que estuda como diferentes culturas, antigas e atuais, percebem e integram os fenômenos celestes em sua visão de mundo. Especialista em astronomia cultural e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Walmir Thomazi Cardoso explica que a esse é um campo de investigação que se desenvolveu sobretudo a partir da década de 1990, sendo composta de outras disciplinas como a arqueoastronomia - uma junção de astronomia com arqueologia - e etnoastronomia.
“Quando a gente olha a diáspora africana ou populações indígenas em todos os continentes, e particularmente na América do Sul, a gente vai ver que esses grupos utilizam o céu de maneira calendárica, lendo formas de se relacionar com a natureza e entendendo que esse todo está conectado”, explica.
O pesquisador considera que muitos desses conhecimentos foram invisibilizados nos processos colonizadores.
"O colonizador precisa impor a sua cultura, seja ela material ou imaterial. E quando você olha para as culturas ao redor do planeta e como elas se relacionam com o céu, quais os significados que elas atribuem ao céu, seja na medida do tempo, seja na transcendência, seja em qualquer outro aspecto, isso cria uma ligação tão forte entre as pessoas que são enfeixadas pela cultura, de modo que fica muito difícil você desmontar uma estrutura tão forte quanto essa. É por isso mesmo que muitas dessas culturas, muitos desses grupos tiveram seus símbolos, seus objetos, seus rituais, suas línguas retiradas. No entanto, esses grupos são muito mais fortes", explica.
Durante o encontro no Rio de Janeiro, vários dos grupos que resistem puderam trocar suas experiências.
Saiba mais sobre os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)
A Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) completou 20 anos em 2025, sendo um projeto do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN).
Atualmente a Rede de AIMAs conta com aproximadamente 40 integrantes que vivem em comunidades indígenas na região do Médio e Alto Rio Negro, onde vivem povos de 23 etnias, entre elas Tukano, Tuyuka, Yeba Masã, Piratapuya, Desana, Hupda, Dãw e Baniwa.
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Conhecedores da Amazônia
Com anotações em diários e tablets, os agentes registram enchentes, florações, migração e piracema de peixes, secas e rituais tendo como referência central as constelações indígenas (como Aña - Jararaca, Pamo - Tatu, Ñohkoatero - Plêiades, entre outras). Embora a iniciativa tenha surgido do manejo pesqueiro tradicional, os registros dos AIMAs têm evidenciado os impactos da emergência climática e de fenômenos extremos na Amazônia.
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